Entrevista:O Estado inteligente
Inventores de guerras - DEMÉTRIO MAGNOLI
FOLHA DE SP - 28/12
A linguagem do 'conflito étnico' é arma eficiente no arsenal de elites políticas com interesses próprios
"Eu
não acredito em conflito étnico! Os grupos que atuam no Congo agem como
criminosos por interesses próprios de poder e dinheiro." Carlos Alberto
dos Santos Cruz não é antropólogo, mas general. Contudo, a sentença do
comandante brasileiro das forças de paz no leste do Congo, proferida
dois meses atrás perante 15 embaixadores das potências do Conselho de
Segurança da ONU num morro exposto ao sol escaldante, deveria ser
inscrita, como um alerta, nos manuais universitários. Nela, encontra-se a
chave para decifrar a violência não apenas no Congo, mas também no
Sudão do Sul.
Segundo a narrativa convencional, o país é vítima
de um conflito étnico entre os nuers, liderados pelo vice-presidente
afastado Riek Machar, e os dinkas, representados pelo presidente Salva
Kiir. Nessa forma de contar a tragédia, as noções de "tensão étnica" e
"ódio étnico" emergem como dados da natureza: no fim das contas,
imaginamos, as coisas são assim mesmo nesses lugares bárbaros... Ninguém
registrou, entretanto, que os protagonistas principais do conflito --os
dinkas-- foram inventados como etnia separada menos de um século atrás,
pela engenharia social do colonialismo britânico.
Tudo começou
como um equívoco de um explorador europeu que, incapaz de entender a
língua local, tomou o nome de um dos chefes tribais por denominação
genérica de um povo, reunindo clãs distintos na "etnia" dinka. Depois,
na década de 1920, enquanto missionários cristianizavam os nativos,
regulamentos da autoridade britânica organizaram o Sudão Meridional em
distritos administrativos de base étnica. A política colonial tinha a
finalidade de separar fisicamente a população islamizada do norte
sudanês dos grupos agropastoralistas do sul, traçando um limite para a
influência árabe-muçulmana no vale do Nilo. Nela, encontram-se as
sementes das duas guerras civis sudanesas que devastaram o país durante
meio século, até a secessão negociada do sul, em 2011.
Os dinkas
passaram a agir como uma comunidade étnica na hora da independência
sudanesa, em 1956, por oposição ao regime pró-egípcio instalado em
Cartum, e continuaram a fazê-lo nas guerras civis subsequentes. Nesse
curto intervalo histórico, inventaram-se tradições imemoriais,
descreveu-se uma cultura étnica específica e cultivou-se a crença de que
Deus atribuiu aos dinkas a missão de governar a porção meridional do
Sudão. O conceito de "identidade étnica", estranho aos grupos que
habitavam essa região do Nilo Branco no momento da colonização,
converteu-se em ferramenta de coesão de uma elite que almeja controlar o
aparelho estatal do Sudão do Sul.
Max Weber, que morreu em 1920,
compartilhava o dogma de sua época sobre a existência de raças humanas.
Contudo, não caiu no conto naturalista da etnicidade. Seu argumento era
que a etnia origina-se da crença numa ascendência comum. Essa abordagem
abriu-lhe a vereda para examinar as consequências de tal crença sobre
as ações políticas individuais e coletivas. Mais tarde, sociólogos e
antropólogos analisaram os processos de construção política da
etnicidade em diferentes contextos sociais. O general Santos Cruz está
certo: a linguagem do "conflito étnico" é uma arma eficiente no arsenal
de elites políticas com "interesses próprios de poder e dinheiro".
O
leste do Congo não é Ruanda, que não é o Sudão do Sul --e,
evidentemente, nenhum desses lugares se parece com o Brasil. Mas
deveríamos prestar maior atenção nesses conflitos distantes, aprendendo
alguma coisa com a "pedagogia da etnia" que, aplicada ao longo de
décadas, ensinou as lições da identidade, da diferença e do ódio aos
dinkas, aos hutus e aos tutsis. Sob o influxo das políticas de raça,
nossas universidades e escolas incorporaram a linguagem envenenada dos
inventores de guerras. O MEC tem razão: precisamos olhar mais para a
África.
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