Entrevista:O Estado inteligente
Dilma Rousseff "em guerra" - VINICIUS TORRES FREIRE
FOLHA DE SP - 31/12
Presidente usa termo caro à ditadura e mostra intolerância a críticas em seu discurso de fim de ano
"GUERRA
PSICOLÓGICA" era uma expressão estimada na ditadura militar. Foi de mau
gosto extremo a presidente da República recorrer a esse linguajar em
seu discurso de final de ano, transmitido anteontem por TV, rádio e
internet.
Na ditadura, a expressão estava cuspida em papeluchos
jurídicos que procuravam criar uma fantasia sinistra e cínica de
legalidade, fantasia de resto inteiramente dispensável, pois vivia-se
sob arbítrio absoluto.
A presidente sabe perfeitamente disso. Sabe mais que quase todos nós, pois experimentou esses horrores na carne e na alma.
"Guerra
psicológica adversa", além de jargão militar, era termo para tipificar o
que os ditadores e seus capatazes consideravam "difamação do Brasil" ou
a criação de "clima favorável à subversão". Ou seja, para enquadrar
qualquer um por qualquer motivo pelo crime de lesa-majestade dos
caprichos ditatoriais, qualquer um que aparecesse com ideias insidiosas.
O
termo estava lá no no Ato Institucional 14, baixado pela junta de 1969,
emenda "constitucional" que instituiu pena de morte ("legal")
justamente para crimes como "guerra psicológica", revolucionária ou
subversiva.
Esses decretos sombrios formalizavam a mentalidade do
"Brasil: Ame-o ou Deixe-o" (ou morra discordando), bordão inventado
pelos publicitários do regime.
A expressão também aparecia na Lei de Segurança Nacional. Aparecia na boca das autoridades, em discursos e entrevistas.
No
seu discurso, a presidente introduz o tema da "guerra psicológica" com o
chavão autoritário da "crítica positiva" (temos de "buscar soluções, e
não ampliar os problemas") e o da crítica ao "pessimismo", tema
recorrente nesse terceiro ano de má política econômica.
A
presidente não dá nome aos bois ou aos seus demônios, aos inimigos que
travam essa guerra psicológica. Seguindo outra tradição autoritária,
Dilma Rousseff menciona de passagem forças ocultas, "alguns setores",
que "instilam desconfiança, especialmente desconfiança injustificada", a
tal "guerra psicológica", que pode prejudicar a versão presidencial do
que seja o progresso do Brasil.
Sim, como era de esperar, a
presidente diz que continua disposta a ouvir trabalhadores e empresários
"em tudo que for importante para o Brasil". Mas "apostar" no Brasil é o
caminho mais rápido para todos saírem ganhando.
Sim, a
presidente está disposta a ouvir, mas deixa claro que ela está do lado
do Brasil. Divergências maiores, "pessimismos", que parecem não estar no
"lado brasileiro", são um atraso.
Francamente, este jornalista
acredita que Dilma esteja "do lado do Brasil" (em linguagem menos
nacionalista, que esteja empenhada em diminuir o sofrimento das pessoas
que vivem nesta terra). Mas ficou um tanto (mais) deprimido com o tom
autoritário da presidente, com a falta de grandeza demonstrada em sua
incapacidade de autocrítica e de diálogo com os "pessimistas", na sua
imodesta procura de bodes expiatórios, na falta de inspiração.
A
"guerra psicológica" foi a cereja desse bolo azedo. É com pesar que a
gente se pergunta o motivo de a presidente ter piorado ainda mais seus
discursos assintáticos com essa mancha de péssima memória.
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