Entrevista:O Estado inteligente
É o rombo externo - CELSO MING
O Estado de S.Paulo - 31/12
O
salto de 0,38% para 6,38% no IOF cobrado em cartões de débito
destinados a cobrir despesas de viagens ao exterior demonstra que o
governo está seriamente preocupado com o desequilíbrio nas contas
externas.
Até agora, o discurso oficial era outro. Era o de que o
rombo nas Contas Correntes, que se avizinha dos 3,7% do PIB (veja o
gráfico), continuava sendo folgadamente coberto com a entrada de
Investimentos Estrangeiros Diretos (IEDs).
Apenas para quem não
está familiarizado com demonstrações do Balanço de Pagamentos, Contas
Correntes ou Transações Correntes, é o conjunto que mede entradas e
saídas de moeda estrangeira em três subcontas: Balança Comercial
(exportações e importações); Serviços (transportes, turismo, juros,
royalties, etc.); e Transferências Unilaterais, que apontam entradas e
saídas destinadas a dar cobertura de despesas a familiares no/do
exterior.
Parece improvável que a saída de moeda estrangeira seja
estancada com esse aumento de imposto. Ao longo de 2013, a conta de
Turismo não reagiu nem mesmo à alta do dólar (desvalorização do real) de
15% em 12 meses. Foram gastos com turismo externo nos onze primeiros
meses do ano US$ 23,1 bilhões, mais do que o País obtém com receitas de
exportações em um mês (veja, ainda, o Confira).
Mas a sangria de
dólares não é relevante nessa conta porque há uma entrada de US$ 17,0
bilhões no mesmo período de onze meses. Portanto, o saldo negativo foi
de apenas US$ 6 bilhões.
A principal sangria aconteceu em duas
outras contas. A primeira delas foi o aumento das importações (mais 7,1%
em 12 meses) conjugado com o baixo desempenho das exportações (menos
1,2%). Isso aconteceu porque o consumo continuou excessivamente elevado
quando comparado com o resultado medíocre do setor produtivo. Ou seja,
para atender ao aumento da demanda interna foi preciso reforçar as
compras no exterior. O governo não se importa em queimar bilhões de
dólares com importação de gasolina e de óleo diesel e, assim, cria
outras distorções na economia. Mas entende que o turismo externo tem de
ser inibido.
A outra subconta por meio da qual os dólares vazaram
para o exterior foi a de Investimentos Brasileiros no Exterior. Até
novembro lá se foram US$ 43,0 bilhões, mas deverão fechar o ano com
cerca de US$ 53 bilhões. Não está clara a natureza dessas saídas. Alguma
coisa se deveu a investimentos de empresas brasileiras lá fora. Mas a
maioria desses recursos deve ter sido saída pura e simples de capitais,
em consequência da perda de confiança na política econômica do governo
Dilma.
Enfim, o governo fecha uma torneirinha e deixa intocados
vazamentos substancialmente maiores. Mas está aí o recado. Embora diga o
contrário, o governo mostra preocupação com a deterioração das contas
externas. A melhor maneira de revertê-la é recuperar credibilidade; é
cuidar do equilíbrio das contas públicas - e não seguir alardeando que
tudo vai bem.
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