| O Estado de S. Paulo |
| 8/5/2008 |
Foi tão inesperado quanto revelador das emoções residentes à alma de Dilma Rousseff o início do depoimento da ministra da Casa Civil na Comissão de Infra-Estrutura do Senado. Muito bem posta por ela a contradita à comparação feita pelo senador José Agripino com o Brasil de hoje e o País da ditadura militar, no tocante à necessidade de Estado e sociedade estabelecerem relações de sinceridade mútua. Ou não. Segundo ela, na democracia a verdade impera, mas no autoritarismo a mentira não raro é uma questão de sobrevivência. “Não há diálogo com o pau-de-arara”, disse ela, acrescentando: “Comparar os dois períodos é não respeitar a democracia.” Perfeito. Agora, o que dizer de quem exalta generais ditadores, como faz e fez recentemente o presidente Luiz Inácio da Silva? Na perspectiva de Lula, Emílio Garrastazu Médici e Ernesto Geisel merecem muito mais elogios por obras grandiosas, como a Hidrelétrica de Itaipu, do que críticas “por uma ou duas ações erradas”. Como, por exemplo, a prática da tortura da qual a ministra Dilma foi vítima e à qual ontem se referiu de maneira tão sincera e compreensivelmente emocionada. A manifestação da ministra acabou ensejando a oportunidade da exposição da ausência de compromisso do atual presidente da República com a democracia, em cuja retomada não teve o papel preponderante que se atribui. Enquanto Dilma e tantos outros eram barbarizados no fim dos 60, início dos 70, Lula entrava no sindicalismo por acaso e absolutamente alienado a respeito do que se passava no que convencionamos chamar de porões da ditadura. Quem sofreu e viu o que foi aquilo reage como Dilma. Não elogia os ditadores nem se apropria do lema “ninguém segura este País”, por eles utilizado para anestesiar a população e desvalorizar a questão democrática frente ao sucesso econômico. Dilma Rousseff confrontou, e o fez bem, um senador da oposição, mas aceita que o chefe se valha da popularidade para reescrever com tinta cor-de-rosa um período negro da história do Brasil. A fim de não se juntar a ele na leviandade malsã, da próxima vez que o presidente exaltar títeres da ditadura, conviria à ministra impor a Lula o mesmo alto lá. Primeira vítima A ministra da Casa Civil agarrou-se à versão do banco de dados e, impassível no papel de técnica incapaz de distinguir o ato administrativo de arquivar informações do gesto político de escolher algumas delas para transformá-las em dossiês, Dilma Rousseff conseguiu passar incólume pela sabatina da Comissão de Infra-Estrutura do Senado. Sã e salva, evidentemente, dentro do critério do empate no tocante às aparências: se Dilma não saísse do depoimento em situação pior do que entrou, o governo estaria no lucro. E assim ocorreu. Foi ajudada pelo modelo do depoimento, que misturou PAC e dossiê, dando a oportunidade aos governistas de gastarem a maior parte do tempo na celebração deslumbrada da jóia da coroa do Palácio do Planalto, em detrimento do uso da oportunidade para questionar as brechas abertas nas diversas versões oficiais sobre a história do dossiê. Sem esquecer de alguns oposicionistas que, no afã de “pegar” a ministra em inconsistências do PAC, se esqueceram de que no tema, como diziam os antigos, Dilma não tem medo de ninguém. Já em matéria de dossiê, exibiu-se claudicante. Mais uma vez ensinou tudo sobre planilhas de gastos, mas não conseguiu desmentir os registros dos computadores da Casa Civil nem explicar a transposição dos dados sobre Fernando Henrique do banco de 20 mil dados para as 13 páginas do dossiê. Ela resistiu bravamente às mais de sete horas de depoimento. Não se sabe, porém se teria resistido a igual período de confrontações com algumas incongruências. Dilma continuou recusando-se a usar o termo “dossiê”, mesmo tendo o ministro da Justiça já considerado a manufatura desse tipo de documento algo “normal”. Seria, no entender da ministra, a idéia de Tarso Genro algo anormal? Não ficamos sabendo. A ministra sustentou a tese de que do banco de dados não nasceu um dossiê, citando o caráter público das informações divulgadas, “todas elas auditadas”. Sim, então por que o vazamento dessas informações configura crime? Continuamos sem saber. E se não há sigilo, se os dados são públicos e inócuos e não houve dossiê, a respeito do que mesmo versam a sindicância da Casa Civil e a investigação da Polícia Federal? Na tentativa de estabelecer isonomia entre “vazamentos”, ela aludiu aos dados sobre gastos do presidente Luiz Inácio da Silva, divulgados pelo deputado Vic Pires. Que, no entanto, não foi buscá-los nos computadores do Palácio, mas no material enviado pelo governo à CPI dos Cartões. Dilma Rousseff pontuou todo o tempo sua condição de “vítima” no episódio. Se lhe serve de alento, nessa posição também ficou a verdade, na guerra sempre a primeira vítima. |
Entrevista:O Estado inteligente
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