sábado, janeiro 20, 2007

A dieta de baixa caloria para prolongar a vida

Comer pouco, viver muito

É essa a obsessão dos magérrimos
seguidores da dieta de drástica
restrição de calorias


Bel Moherdaui

Os publicitários Meredith (1,64 metro, 48 quilos) e Paul McGlothin (1,82 metro, 61 quilos), o casal-modelo da RC: no primeiro dia de 2007, almoço especial, com menos de 700 calorias

Entre comer e viver muito e bem, eles não têm dúvida: não comem. Ou melhor, comem pouquíssimo. Refeições minimalistas ou simplesmente abolidas fazem parte da rotina dos praticantes da dieta de restrição calórica, também conhecida como dieta da longevidade, que não tem nada a ver com briga com balança nem com distúrbios alimentares incontroláveis como a anorexia. Os adeptos da restrição calórica (RC para os íntimos) comem pouco porque acreditam que, assim, viverão mais de 100 anos, com saúde. Em busca desse prêmio, apenas teoricamente factível, ingerem o mínimo necessário para suprir a quantidade essencial diária de nutrientes – o que os diferencia das populações submetidas à fome forçada – e nem 1 grama a mais. O mínimo necessário varia: o escritor americano Brian Delaney estabelece o seu em 1.950 calorias (sendo 2.500 a quantidade média considerada adequada para um homem adulto); a publicitária Meredith Averill, radical, ingere por dia 700 calorias (o normal das mulheres são 2.000), e olhe lá. Todos se dizem felizes e realizados com a dieta, que surgiu na década de 1930 mas ganhou, digamos, peso há menos de quinze anos, por irônica conseqüência de um retumbante fracasso.

O guru da redução calórica, tal como é seguida hoje, é o gerontologista americano Roy Walford, um dos participantes do projeto Biosfera 2, em que um grupo de cientistas passaria dois anos, de 1991 a 1993, em um ambiente totalmente controlado e isolado, comendo apenas o que era produzido lá dentro. Quando tudo deu errado e começou a faltar comida, Walford sugeriu aos colegas uma experiência fora do programa: submeter-se a um drástico corte de calorias e acompanhar os efeitos sobre a saúde de cada um. Os resultados foram tão benéficos que, ao sair enfim da infausta redoma, Walford dedicou a vida a divulgar os benefícios da baixíssima ingestão calórica. Não teve muito tempo – morreu em 2004, com 79 anos, de uma doença genética que provoca a degeneração do sistema neurológico. Mas sua pregação não foi pura alucinação provocada pela falta de comida – a dieta da redução calórica tem sido testada em animais há mais de setenta anos. "Em todos os casos, o animal que come em abundância vive menos", confirma o biólogo gaúcho Emilio Jeckel, especialista em envelhecimento e estudioso da RC. "Já os que comem menos apresentam menor incidência das doenças crônicas típicas da idade. Tendo menos doenças, eles vivem mais tempo", explica. Atenção, porém: como a vida controlada em laboratório, com refeições garantidas todo dia, em nada se parece com a dura batalha pela sobrevivência, a conclusão lógica desses estudos não é que comer pouco faz viver mais, mas sim que quem come demais fica doente e morre mais cedo, ressalta Jeckel.

Divulgação
Entre o gordo e o magro: Weindruch, tendo à esquerda o esbelto e saudável macaco Canto, que vive com pouca comida, e o gordo e envelhecido Owen, para quem não falta ração

Ainda assim, há resultados espantosos. A prova viva, e nada similar, são Canto e Owen, dois dos macacos que participam de uma experiência de restrição calórica conduzida pelo gerontólogo Richard Weindruch no Centro Nacional de Pesquisas com Primatas do estado de Wisconsin, nos Estados Unidos. Ambos têm idade avançada, considerando-se que a expectativa de vida em cativeiro para a espécie é de 27 anos, mas as diferenças saltam à vista. Canto, 25 anos, 445 calorias por dia, está inteiraço, com pêlo reluzente, olhar alerta, postura correta e muita disposição; Owen, 26 anos, 885 calorias por dia, parece pai dele, encurvado pela artrite, calvo aqui e ali, barrigudo, enrugado. No grupo dos macacos magros (que, diga-se, jamais se acostumaram com o regime forçado e, se tivessem liberdade de escolha, certamente se fartariam com o que lhes aparecesse pela frente), três morreram de câncer, nenhum tem diabetes nem pressão arterial alta e os níveis de gordura e glicose são baixos. No de Owen e seus pares glutões, quatro desenvolveram diabetes, um morreu da doença e cinco de câncer. Não há estudos consistentes sobre o efeito da restrição calórica no aumento da longevidade humana, até porque uma pesquisa desse tipo leva pelo menos um século para apresentar conclusões efetivas. "Acho, inclusive, condenável. Não se pode manter uma pessoa por um tempo tão longo com uma restrição tão severa de calorias", diz Myrian Najas, professora de geriatria e gerontologia da Unifesp, em São Paulo. Os adeptos do regime radical, porém, agem com a paixão dos iniciados numa seita fechada. "Embora não se possa afirmar que quem faz a dieta vá viver 150 anos, ela é a única alternativa conhecida para retardar o envelhecimento. E traz, com certeza, benefícios para a saúde", defendeu em entrevista a VEJA o escritor Delaney, co-autor de A Dieta da Longevidade.

Rene Macura
Delaney, presidente da Sociedade de Restrição Calórica: 65 quilos sustentados por café-da-manhã e jantar – almoço, nunca, mas um tiquinho de chocolate de vez em quando

Delaney preside a Sociedade de Restrição Calórica, que, segundo ele, conta com mais de 2.000 membros no mundo – sendo cinco no Brasil, que não quiseram se identificar. Aos 43 anos, 1,80 metro e 65 quilos, Delaney começou a cortar calorias há catorze anos. Há dez segue uma dieta de 1.950 calorias diárias, sempre pulando o almoço. "Adoro chocolate e como um pouquinho algumas vezes por semana. Também tomo algumas taças de vinho. Não é preciso comer comida saudável o tempo todo. Se exagero, compenso no dia seguinte", afirma, desmentido pela aparência de magreza descarnada típica de sua tribo – sem nada a ver com o visual saudável de quem se mantém em forma sem exageros. E exageros não faltam. A publicitária Meredith, 60 anos, e o marido, Paul McGlothin, 58, há doze adeptos da dieta, não põem comida alguma na boca depois do almoço e dispõem de um programa de computador para calcular calorias e nutrientes de cada uma de suas refeições, inclusive o "banquete" especial de Ano-Novo que aparece junto à foto deles. Meredith, 1,64 metro, pesa 48 quilos e consome 700 calorias por dia. McGlothin, 1,82 metro, ingere 900 calorias diárias e luta para não ficar abaixo dos 61 quilos. "Não seguimos essa dieta só pensando em ter vida longa, mas também pela alegria e eficácia dos resultados: pressão arterial baixa, gordura corporal equivalente à de um atleta, visão perfeita e muita energia", exalta McGlothin. Embora os praticantes abram enormes sorrisos no rosto encovado quando falam de sua dieta, segui-la não é, com perdão da expressão, bolinho. Submetido à restrição calórica por oito semanas para escrever sobre o assunto na revista New York, o jornalista americano Julian Dibbell, que morou seis meses no Rio de Janeiro e fala um pouco de português, resumiu para VEJA sua experiência: "Quando saí do transe, vi que só consegue persistir numa opção tão radical alguém que realmente acredita que a recompensa vale a pena". Só o tempo vai provar se quem come pouquíssimo vive mais, mesmo. Mas, se vale a pena fazê-lo, qualquer um pode decidir desde já.

Cardápio de Ano-Novo

Fotos Alcir N. da Silva

1 - Bruschetta Integral
(tomate pelado sobre fatia de pão embebida em suco de tomate, temperado com orégano, alho, limão, linhaça e um fio de azeite)
220 calorias

2 - Nossa Amada Cevada
(cevada amolecida de véspera,
cozida com cebola, alho e louro)
coberta com Pimentão e Cebola Festivos
(cozidos e cortados)
280 calorias

3 - Sobremesa
(mirtilo misturado com nozes)
78 calorias

4 - Batata-Doce ao Gengibre
(cozida, salpicada de gengibre em pó,
com um filete de azeite)
95 calorias

Saudável, mas tão pouquinho...

Um magro dia na vida de quem
faz dieta de redução calórica

Café-da-manhã: um copo de suco de laranja, um ovo poché, uma fatia de pão integral, uma xícara de café ou chá

Almoço: meio copo de queijo cottage, meio copo de iogurte desnatado, uma colher de sopa de germe de trigo, uma maçã, um muffin (bolinho doce) de trigo integral

Jantar: 90 gramas de peito de frango sem pele assado, uma batata assada, um copo de espinafre cozido, cinco tâmaras, um muffin de aveia, um copo de leite desnatado

Consumo total: 1 472 calorias, 92 gramas de proteína, 24 gramas de gorduras, 234 gramas de carboidratos, 27 gramas de fibras e 310 miligramas de colesterol

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