sábado, janeiro 27, 2007

Bolívia Uma Marinha fora d'água

Marinheiros de água doce

As razões que levam a Bolívia e outros
sete países sem mar a ter sua Marinha


Marcelo Bortoloti


A Bolívia perdeu sua única faixa de litoral para o Chile durante uma guerra em 1879. Desde então, vem tentando recuperá-la. O presidente Evo Morales já afirmou em diversas ocasiões que essa é uma das grandes metas do seu governo. No ano passado, durante um discurso inflamado, fez bravata e convocou os militares a se preparar para voltar ao mar "a qualquer momento". Morales se dirigia à Marinha boliviana, uma insólita força militar com 4.800 homens, 73 embarcações de combate e nenhum oceano. Sua base mais importante fica dentro de um lago, o Titicaca, que faz fronteira com o Peru. A existência dessa corporação, apesar da evidente limitação física, obedece a critérios menos funcionais do que patrióticos. No caso, o de manter desperto o ânimo dos bolivianos para a volta ao litoral. No prédio da Marinha uma frase em letras garrafais sintetiza o ânimo da corporação: "El mar nos pertenece por derecho. Recuperarlo es un deber". Desde o início de seu governo, Morales tenta avançar nesse campo com manobras diplomáticas, que até agora não surtiram efeito.

O mundo tem hoje 43 países sem acesso ao mar. Segundo dados da CIA, apenas oito deles possuem marinhas militares. É o caso do pequeno Malauí, no centro do continente africano, que tem uma Marinha com 225 homens dentro do Lago Niassa, com os canhões apontados somente para Tanzânia e Moçambique. Uganda, também na África, conta com uma força naval de 400 homens que virou motivo de anedotas internacionais. Na década de 70, o ditador Idi Amin começou a aparelhá-la para exibir seu poderio militar frente aos americanos. A única dificuldade era o fato de a Marinha estar cercada no interior do Lago Vitória. A Mongólia, na Ásia, mantém uma força naval dentro do Lago Hovsgol, na fronteira com a Sibéria, que permanece congelado seis meses por ano, impedindo a navegação. Segundo um documentário feito pelo americano Robert Stern, ela tem somente um navio e sete marinheiros, sendo que apenas um deles sabe nadar. Na lista das marinhas sem saída para o oceano também estão a do Cazaquistão, a do Azerbaijão e a do Turcomenistão, na Ásia, e a do Paraguai, cujo arsenal tem 3.600 oficiais, vinte embarcações, dois aviões e dois helicópteros.

De todas essas, a Marinha boliviana salta aos olhos por ser a maior força naval ribeirinha do planeta. E os marinheiros de água doce bolivianos têm pouca quilometragem. Em 2006, pelo menos oito morreram afogados. O número de baixas no período é maior que o da Marinha brasileira. Há seis anos eles tentam construir seu primeiro barco oceânico, missão que, por falta de verba e tecnologia, está longe do fim. O pelotão se dedica a atividades um tanto prosaicas. No ano passado, 160 oficiais foram destacados para capinar os pastos de um zoológico local. "Tudo o que queremos é uma faixa de 10 quilômetros de litoral que possamos chamar de nossa", disse em entrevista recente o diretor da força naval boliviana, o vice-almirante José Alba Arnez. Enquanto o mar não chega, sua principal atividade é o patrulhamento de rios, missão que em outros países sem litoral, como Áustria, Hungria, República Checa e Suíça, é entregue à polícia. Se fosse desempenhar alguma missão militar, como investir contra um país estrangeiro, seria facilmente esmagada por qualquer Marinha de nação litorânea do porte da brasileira, que tem 53.000 homens e 122 embarcações de combate. "Não existem grandes marinhas fluviais. Na maioria dos casos elas só servem como cabide de emprego", diz Ronaldo Leão, diretor do Núcleo de Estudos Estratégicos da UFF. O que se pode chamar de moderna Marinha boliviana nasceu na década de 60, quando o então presidente Víctor Paz Estenssoro, entusiasmado com o projeto de recuperar o litoral, povoou com navios militares o Lago Titicaca e os rios que fazem fronteira com o Brasil e o Paraguai. Desde então, a força naval abocanha cerca de 15% do mirrado orçamento militar boliviano, que é de 130 milhões de dólares. "É uma Marinha simbólica, que serve para não deixar a idéia morrer", diz o almirante Reginaldo Reis, da Escola de Guerra Naval do Rio de Janeiro.

A luta pelo mar tem sua óbvia razão de ser. Países sem acesso ao litoral ficam em posição desvantajosa no cenário internacional. Dezesseis deles estão entre os menos desenvolvidos do mundo. As Nações Unidas mantêm um programa especial de auxílio a esses países arrolhados, para que não fiquem à margem da economia global. A principal dificuldade é a logística de exportação e importação. Hoje, a maior parte do comércio mundial trafega pelos oceanos. Segundo dados da ONU, os países sem litoral gastam duas vezes mais em transporte e seguro para exportação que os litorâneos. A dependência dos vizinhos é enorme. Além de investir em infra-estrutura interna de transporte, o país interior precisa contar com uma boa estrutura também do vizinho para escoar ou trazer a produção do porto mais próximo. O Brasil é o principal parceiro comercial da Bolívia, responsável por 40% de suas exportações e 30% das importações. A maior parte dos produtos que chegam da Europa ou dos Estados Unidos também passa por portos brasileiros ou argentinos. É uma situação de subordinação para a qual Evo Morales não atentou. Ele quer chegar ao oceano, mas, com a Marinha e os dotes diplomáticos que tem, provavelmente não romperá cerco algum.

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