'Otimismo de Lula não tinha consistência'
Em 2002, Lula também fez um discurso falando em crescimento e 10 milhões de empregos. O resultado foi outro. Por quê? O otimismo de Lula não tinha consistência. Ele mesmo disse que estava fazendo bravatas. Como o senhor define a atual política econômica? O governo vive uma situação de esquizofrenia. O Lula não entende a equipe econômica nem a equipe econômica entende o presidente. O governo trabalha contra o Banco Central e o Banco Central trabalha contra o governo. Mesmo num ano eleitoral, quando seria compreensível que houvesse um alívio no ajuste, como acontece no mundo inteiro, o Banco Central mantém a mesma política anterior. As contradições do governo refletem a personalidade do presidente da República. Ele é esquizofrênico, não tem convicção a respeito de nada. Um dia fala uma coisa, depois diz o contrário. O senhor tem dito que os juros altos refletem apenas uma reação neurótica de alguns economistas. Há uma armadilha no governo. Quem toma uma decisão com base em procedimentos criados pelos antecessores costuma ser perdoado quando comete um erro. Mas aquele que erra quando tenta introduzir procedimentos novos é condenado. No Banco Central, quem é considerado conservador já está bem colocado no mercado. Admite-se o erro por conservadorismo. Mas não se admite o erro de quem tinha uma visão diferente. Então é muito difícil mudar. Mas não existe uma base real para os juros altos? Não existe sequer um argumento racional. A explicação mais persistente é a mais absurda. Diz que pagamos um preço alto pelo calote da dívida externa. Mas e o calote argentino? E o calote russo? Além da neurose, existem interesses concretos que trabalham contra a queda nos juros? Com a economia do País crescendo 5% a 6% ao ano todo mundo ganha. Mas tem gente que ganha mais hoje, com esses juros altíssimos, do que poderá ganhar no futuro, sob uma nova política econômica... A disputa entre rentistas e produtores faz parte de nossa história. Os bancos podem ganhar de um jeito diferente. Sinceramente, não vejo problemas por aí. Onde estaria o perigo? A queda dos juros, mesmo de forma paulatina, deve produzir um estímulo ao consumo. Seria preciso trocar o juro mais baixo por uma liberdade fiscal maior. O governo teria de possuir instrumentos para cortar gastos e evitar o erro cometido no Cruzado. Que erro foi esse? Quando se viu que o consumo estava explodindo, e havia o risco de inflação, a equipe econômica sugeriu ao então presidente Sarney que suspendesse um plano de obras públicas. Ele não concordou e a inflação voltou. O Fernando Henrique fez o Real, mas segurou investimentos, evitando o descontrole. Numa situação de crescimento sempre existe o risco de uma superposição de estímulos. Do jeito que as regras estão amarradas hoje em dia pode ocorrer uma situação assim: se eu abaixo os juros e a economia cresce, a arrecadação aumenta e o governo é imediatamente obrigado a aumentar os gastos. Não dá. Muitos gastos são definidos pela Constituição. Teríamos de promover mudanças na legislação, além de promover um choque de capitalismo, com algumas reformas microeconômicas. Que reformas seriam essas? Muitas delas já foram discutidas pela equipe do Ministério da Fazenda, mas estão paradas. Um exemplo: teríamos de definir de uma maneira muito clara a situação da casa própria, aumentando a possibilidade de execução da dívida. Outro exemplo: até hoje não se conseguiu resolver quem tem o direito de explorar concessões de água e esgoto. Só a Lei de Falências foi adiante. Seria preciso mexer também na estrutura fiscal e definir como será o nosso regime de câmbio com esse coração novo. Não vamos imaginar que dólares são iguais a bananas, que se compra quando o preço é bom e se dispensa quando o preço é ruim, como dizia o Gustavo Franco. Mas vamos lembrar que estas questões serão examinadas num momento posterior. Ainda é preciso definir quem será o candidato e sua visão da economia. O senhor disse que vivemos uma situação semelhante à de 1966, quando o País estava pronto para crescer, mas o Roberto Campos, não conseguia se libertar do passado. Em 1967 o Roberto Campos deixou o governo depois de fazer um ajuste macroeconômico brutal. Sucedido no comando da economia pelo Delfim (Netto), Roberto Campos chegava a ter um certo rancor. Dizia que o Delfim estava acelerando demais, que colocava tudo em risco. Hoje não temos uma figura dominante, como o Roberto Campos, mas uma escola de pensamento econômico, a Pontifícia Universidade Católica (PUC) do Rio de Janeiro. Os diagnósticos e ajustes foram feitos por eles, em várias gerações. Esse pessoal tem dificuldade para encarar o novo. Eles viveram uma crise atrás da outra, os colapsos inflacionários, a Rússia, a Ásia, a Argentina, o México. Mas a situação mudou e esse comportamento não faz sentido. Então, eu acho que se estivermos de acordo com a idéia geral, de que o País tem um coração novo, que se vive outro momento, precisamos mudar a equipe médica. Não vejo concessão possível nesse terreno. Quem faria parte dessa nova equipe econômica? Não sei. Essa equipe talvez não lotasse um ônibus. A crítica à política econômica da PUC não pode ser uma volta ao passado, como queria o Carlos Lessa, ex-presidente do BNDES. A crítica dele é errada, nos leva a uma economia que também não existe mais, com intervenção e Estado forte. Ele também não entendeu a mudança.
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Entrevista:O Estado inteligente
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domingo, janeiro 15, 2006
‘Otimismo de Lula não tinha consistência’ ENTREVISTA :Mendonça de Barros
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