Este ano começou com o astral da economia mundial lá em cima. Embora certos riscos tenham se acirrado, ninguém acredita no pior.
É um ambiente que contrasta com o que houve em 2005, que começou com o tsunami e seus 230 mil mortos. E se aprofundou com os furacões (Katrina e Rita), que assolaram o Golfo do México e empurraram os preços do petróleo para US$ 70 por barril.
E já que estamos falando de riscos naturais, não dá mesmo para prevê-los. Um belo dia, sobrevêm terremotos que os sismólogos já previam, mas que não tinham data marcada para acontecer. Também não dá para prever os estragos causados pelo jogo político ou pela maldade dos homens, como ataques terroristas. Mas dá para falar de alguns riscos econômicos que estão sendo ignorados ou subavaliados.
O primeiro tem a ver com os preços do petróleo. Como está no relatório da Agência Internacional de Energia, o consumo mundial cresceu 1,2% em 2005 e deverá crescer cerca de 1,8% em 2006. Aí se vê que os preços saltaram mais por problemas de estocagem e disponibilidade de refino do que por excesso de procura. Mas, dia 12, o jornal Le Monde, apontou projeção da Administração de Informações Energéticas dos Estados Unidos de que, entre 2002 e 2025, o consumo das fontes energéticas mundiais (inclusive petróleo) deverá crescer 60%. Ainda não há sucedâneo para os combustíveis fósseis e as fontes não convencionais são canequinha d'água despejada na banheira. Enfim, a oferta de petróleo está mais vulnerável a fatores adversos, como tempestades no Golfo do México, atentados, limitação na capacidade de refino e variações de temperatura no Hemisfério Norte.
O segundo grande risco é o de um tranco (hard landing) no processo de ajuste dos desequilíbrios da economia americana. Não há sinal de aumento dos juros, mas não se sabe até que ponto (e até quando) o resto do mundo vai continuar cobrindo os rombos em conta corrente (US$ 780 bilhões ao ano) e no orçamento (US$ 500 bilhões).
É uma bicicleta que precisa girar para manter-se em pé: os consumidores americanos (endividados, em média, em 92% da renda) precisam continuar consumindo; a economia mundial precisa seguir avançando; a poupança do resto do mundo precisa manter o fluxo dos países emergentes para os ricos, especialmente para os Estados Unidos; e os fundos de pensão precisam que os ativos financeiros continuem se valorizando. Há uma bolha imobiliária no ar e indícios de que ações das empresas negociadas nas bolsas dos países ricos estão caras demais.
O terceiro risco, relacionado com o anterior, é o de que a China se ponha a diversificar intensamente suas reservas externas, hoje perto dos US$ 800 bilhões. Se jogar no mercado ativos em dólares para trocar por ativos em outras moedas, as cotações da principal moeda de reserva do mundo podem despencar, com impacto sobre patrimônio e fluxo comercial no resto do mundo. A China faz hoje o papel de piloto de avião, supostamente o mais interessado em garantir a própria pele. Mas, às vezes, surgem avisos do tipo "apertem os cintos que o piloto sumiu".
Sempre que espera algo ruim, o mercado passa essa expectativa para os preços. Desta vez não há nada previsto. Significa que qualquer surpresa desagradável terá impacto mais forte sobre os preços dos ativos financeiros e sobre o fluxo dos capitais. E é bom ter isso em conta.