Entrevista:O Estado inteligente

sexta-feira, janeiro 06, 2006

NELSON MOTTA Últimas ilusões

FOLH A DE S PAULO

 RIO DE JANEIRO - Morei em Nova York nove anos e assim que cheguei fui procurar o amigo Paulo Francis para lhe pedir suas bênçãos e conselhos. Ele rosnou e disse: "Ótimo! Agora você vai perder suas últimas ilusões". E morreu de rir.
Pena que não se possa ouvi-lo, com sua voz e seu estilo teatral inconfundíveis, com seu afeto e ironia, que davam à frase toda a sua terrível profundidade.
Tinha toda razão. Vivendo o dia-a-dia no ventre da besta, constatando a lógica implacável do capitalismo, testemunhando o pensamento e a ação que movem os Estados Unidos, seria preciso ser um completo imbecil -ou um perfeito idiota latino-americano- para não entender como eles são e como nos vêem. Para o bem e para o mal, sem ilusões. Eles não odeiam o resto do mundo, apenas desprezam.
Hoje os Estados Unidos são uma imensa classe média, tudo é feito para agradá-la, como consumidores e cidadãos. Seus valores e sua estética medíocres dominam a indústria e o comércio, a arte e o entretenimento, a política e a religião. Apesar de sua origem, digamos, aristocrática, Bush é o perfeito representante do que a classe média americana tem de pior. Sua ignorância, intolerância e hipocrisia são a cara do "americano médio".
Se líderes populistas primários como Hugo Chávez e Evo Morales (sinto calafrios ao ver Lula feliz ao lado deles) soubessem como são e como funcionam os Estados Unidos, saberiam que eles desprezam a Venezuela e não sabem onde fica a Bolívia. Nem querem saber. Não gostam de perder tempo. Nem dinheiro. Fidel, o ídolo deles, continua preparando seu povo faminto para uma ilusória "invasão americana". Sem pão nem circo, oferece passeatas e discursos. Ele sabe que o gringo não tem o menor interesse nisso. Por que teria?
Bolivarianos de todas as Américas, uni-vos, porque o desastre é certo.

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