Entrevista:O Estado inteligente

terça-feira, janeiro 17, 2006

Luiz Garcia Emprestem suas orelhas

O GLOBO

Os senadores romanos não eram remunerados. Isso não impedia toda sorte de safadeza: quem não se lembra do assassinato de Louis Calhern pela bancada dos punhais, o honrado James Mason inclusive? E poucos certamente esqueceram a encomenda do corpo feita por Marlon Brando. (Parece mais prudente lembrar o filme, mesmo que antigo, e não a peça: leitores de Shakespeare no Brasil de hoje se contam nos dedos da mão esquerda do presidente da República).

Sabe-se há séculos, portanto, que deixar de pagar aos legisladores não garante qualquer freio em suas ambições. O chato é que pagamento de subsídios — que ignorantes chamam de salários — também não assegura bom comportamento.

Como se viu na atual convocação extraordinária da Câmara dos Deputados. No primeiro mês rigorosamente nada aconteceu na Casa (ou quase nada: outro dia, a imprensa mostrou o presidente da Câmara cortando o cabelo no local de trabalho).

Um pequeno grupo de deputados simplesmente se recusou a receber os respectivos subsídios. Palmas para eles. Outros receberam e não deram satisfação a ninguém. Acham que eleitor não presta atenção nessas coisas, e podem, para azar nosso, estar certos.

Mas um terceiro grupo partiu para tentativas variadas, das sofisticadas às simploriamente grosseiras, passando por aquelas do tipo "com sorte ninguém percebe" — de fazer média com o eleitorado.

Foram flagrados em tentativas de falsa honestidade: por exemplo, doando o dinheiro para instituições que lhes prestam serviços eleitorais (ostensivamente ou nem tanto). Ou anunciando devolução ou doação do dinheiro e não fazendo nem uma coisa nem outra. Devidamente denunciados, muitos correram a fazer a coisa certa, e outros estão prometendo fazer. Claro, há diferença notável entre a honestidade espontânea e aquela forçada por denúncias.

No fim das contas, um ano de perda continuada e severa de prestígio terminou e o seguinte começa ao som dos mesmos tambores.

Otimistas podem dizer que antes assim: é garantia de que o eleitor escolherá melhor da próxima vez. Pode ser. Mas é bem possível — há precedentes — que um contingente de caras novas inclua um grupo convencido de que a boca ainda é rica e o cidadão será sempre ingênuo ou desinteressado. Não é hipótese remota, principalmente neste momento, quando registros de mau comportamento no Legislativo (ressalve-se que o escândalo dos subsídios não atinge o Senado, mas quem está prestando atenção?) disputam a atenção da opinião pública com a revelação continuada — ainda — de trapalhadas no Executivo.

Como diria o Marco Antônio/Marlon Brando de Shakespeare, amigos, brasileiros, compatriotas, emprestem suas orelhas aos porta-vozes da indignação e da sensatez (diversos estão, é justo registrar, no próprio Congresso) e atentem para o fato de que continuam mal as coisas em Brasília, e não é apenas no Palácio do Planalto.

Ainda há tempo, não muito, para que os bons deputados federais façam, no tempo que resta, um esforço tão extraordinário quanto a atual convocação para justificá-la.



Arquivo do blog