Entrevista:O Estado inteligente

terça-feira, janeiro 17, 2006

ELIANE CANTANHÊDE O império ataca

folha
BRASÍLIA - Os EUA, tão bonzinhos e tão amigos, acabam de escolher um alvo no Brasil: a Embraer, uma das mais importantes, fortes e emblemáticas companhias nacionais.
Foram três petardos seguidos: eles vetaram a venda de um lote de aviões para a Venezuela, proibiram qualquer exportação para o Irã e, ao mesmo tempo, cancelaram a encomenda de aeronaves para o Exército americano. Com isso, a Embraer teve de esquecer a construção de uma subsidiária na Flórida. É ou não coisa de amigo, muy amigo?
Para contrabalançar, talvez, os EUA anunciaram na sexta-feira que o Brasil saiu da lista da pirataria e vai continuar no Sistema Geral de Preferência, que reduz tarifas para países "em desenvolvimento". Boa notícia, mas não suficiente para esconder as tentativas de cortar as asinhas da Embraer.
Ao usar argumentos técnicos para escamotear retaliações políticas contra a Venezuela, os EUA estão mirando um alvo e acertando outro. Hugo Chávez poderá muito bem comprar aviões equivalentes da Rússia ou da Espanha, e quem sai perdendo é a Embraer. Em vez de punir a Venezuela, a decisão pune o Brasil.
Que, de quebra, ainda deve ouvir poucas e boas de Chávez na quinta-feira, em Brasília. No mínimo, vai dizer ou insinuar que o Brasil "abaixou a cabeça" ao acatar o veto.
O Planalto diz que é "questão comercial" e cabe à Embraer resolver, mas o Itamaraty não aceita. Com os brios feridos, ameaça até entrar com uma queixa contra os EUA em órgãos internacionais.
Fica a lição e o alerta para os críticos da política externa mais aberta, com mais horizontes e menos dependência dos EUA -o grande mercado.
Potências têm arrogância e armas mais destruidoras do que as nucleares: o poder político e econômico. A relação exige respeito, negociação, alianças tácitas e acordos em várias áreas, mas... com um pé atrás. O jogo é bruto, não dá para brincar.

Arquivo do blog