
Markun explicou que só o primeiro volume estava pronto. Os demais tinham a capa e páginas em branco. Lula folheou um desses com expressão feliz. ''Isso é que é livro bom'', alegrou-se. ''A gente nem precisa ler''. Ninguém se espantou. Ler é pior que fazer exercício em esteira, confessou há tempos o chefe de governo.
Foi uma frase especialmente infeliz. O país se aflige com o analfabetismo, é assolado por um sistema educacional em frangalhos. Milhões de crianças não conseguem estudar. Meninos tão pobres quanto Lula seguem lutando contra a fome para absorver conhecimentos.
Não merecem ser agredidos por quem odeia escrever, nunca leu um livro e despreza o mundo da cultura. Em viagens internacionais, recusa-se até mesmo a consultar duas ou três páginas com dados essenciais sobre o país onde vai pousar o AeroLula.
Sem trabalho regular há décadas, sobrou-lhe tempo para melhorar a cabeça. Não o fez porque não quis. E com o aval de intelectuais petistas que transformaram infância pobre em faculdade. O migrante promovido a líder de massas é um doutor de berço.
Criticar seus freqüentes escorregões é coisa de elitista, repetem patrulheiros. Essa incelência farisaica abrandou a alma irônica do país, antes implacável com tais tolices e tropeços. Já fomos bem menos clementes com governantes trapalhões.
''A perda de vidas é irreversível'', disse Dan Quayle, vice-presidente no governo de George Bush pai. Foi soterrado por gargalhadas. ''Minha mãe nasceu analfabeta'', empatou Lula. A platéia fingiu não ter ouvido. ''Fiz uma viagem à América Latina e só lamentei não ter estudado latim para conversar com as pessoas'', delirou Quayle. Lula invadiu a China com as tropas de Napoleão. Silêncio na platéia.
Debochamos do presidente Ronald Reagan ao ouvi-lo saudar, em Brasília, a boa gente da Bolívia. Reagimos com fleuma britânica ao discurso em que Lula comunicou que a Bolívia não faz fronteira com o Brasil.
Há semanas, Lula apareceu para mais um discurso de improviso sobraçando um papel com anotações manuscritas. Os garranchos atestaram que o presidente ignora a grafia de palavras singelas. A boa formação intelectual não faz de ninguém um estadista. Mas nunca houve um estadista que detestasse leituras e escrevesse como criança.
O Hino do Espião Brasileiro
Filha do Serviço Nacional de Informações – o temido SNI –, a Agência Brasileira de Inteligência só assusta quem tem medo de morrer de rir. Quem ignora o jargão da espionagem deve suspeitar de que o governo criou uma escola para os muito sabidos. A sigla dessa fábrica de inteligentes – Abin – lembra muçulmano de novela. E nenhum serviço secreto é tão avesso à discrição. É o que atesta a performance do atual chefão da agência, Márcio Buzanelli. Demitiu-se simbolicamente do cargo de "diretor-geral" para intitular- se "comandante de inteligência". Substituiu a araponga, símbolo da Abin, pelo carcará. E fez o hino. Dois versos: "Nós somos da inteligência brasileira,/ anônimos heróis na busca da verdade". Espião brasileiro agora canta hino. Só faltam uniforme e crachá.

O herói que nada esquece gostou das mais recentes notícias sobre o massacre de Unaí, ocorrido em janeiro de 2004. A União vai indenizar os familiares do motorista e dos três fiscais do Ministério do Trabalho assassinados a mando de fazendeiros do lugar. Mas o Cabôco tem três perguntas a fazer. Quando o dinheiro será liberado? Por que os assassinos presos ainda não foram julgados? Quando serão presos os mandantes do crime?

Um convertido ganha o troféu
O troféu vai para o ex-deputado José Dirceu. Depois de percorrer as estações do calvário reencarnadas na cidade francesa onde festejou o réveillon, contou ao anfitrião Paulo Coelho que topara com um traidor irretocável:
''Eu vi a figura de Judas''.
No exterior, Dirceu consegue ver até vigaristas bíblicos. Só no Brasil nunca enxergou nenhum.
Chico Alencar tem razão
Numa mensagem à coluna, o deputado Chico Alencar, homem exemplarmente ético, fez observações muito pertinentes sobre a cobertura jornalística da escandalosa convocação extraordinária do Congresso. Registrou, por exemplo, que os grandes pilantras da história têm sido poupados. Os holofotes estão concentrados nos parlamentares que doaram os dois salários adicionais a instituições beneficentes. Chico, que recusou o mensalão camuflado, acha que merecem mais atenção os 440 deputados e 75 senadores que embolsaram cinicamente a bolada.
Chico acha que o tumor será removido com a aprovação de projetos que reduzem as férias parlamentares e acabam com os salários extras.
Dicionários para Marina
Promovida a ministra do Meio Ambiente graças à imagem de madrinha da selva, a acreana Marina Silva corre o risco de ficar sem a da. Sem poderes efetivos, Marina tem contemplado desde janeiro de 2003 a criminosa redução da Floresta Amazônica. Entrou no quarto ano de governo com a resignação dos que capitularam.
Mas não parece disposta a deixar o emprego. ''Não vamos fazer ações pirotécnicas'', desconversou recentemente, na tentativa de camuflar a paralisia do ministério. Se consultasse o dicionário Houaiss, saberia que pirotecnia é a ''arte ou técnica de usar fogo ou explosivo''. Plantadores de soja, pecuaristas, madeireiros e garimpeiros são craques nesse ramo.
Um golaço do compadre Teixeira
O presidente do Supremo Tribunal Federal, Nelson Jobim, devolveu o direito de voar à Transbrasil, paralisada há quatro anos. Jobim se entende muito bem com Lula. O advogado da empresa, Roberto Teixeira, é compadre do presidente, que morou de graça um tempão num dos seus apartamentos. Essa perfeita conjunção dos astros facilitou o golaço do compadre Teixeira. É o artilheiro do Planalto. Voto nulo não melhora nada A bela história do cronista maior Com o patrocínio do Banco BVA, o filho de Zózimo Barrozo do Amaral, Fernando, imprimiu em edição limitada a história do jornalista que reinventou o colunismo social. A trajetória dessa adorável grife carioca, ilustrada com fotos e reproduções de páginas de jornais, é descrita em Zózimo diariamente. É um belo livro. Fernando agora vai negociar o título com as grandes editoras do Brasil.
A bela história do cronista maior
Com o patrocínio do Banco BVA, o filho de Zózimo Barrozo do Amaral, Fernando, imprimiu em edição limitada a história do jornalista que reinventou o colunismo social. A trajetória dessa adorável grife carioca, ilustrada com fotos e reproduções de páginas de jornais, é descrita em Zózimo diariamente. É um belo livro. Fernando agora vai negociar o título com as grandes editoras do Brasil.
Comunista humilha ianque
Desde a ascensão de Aldo Rebelo à presidência da Câmara dos Deputados, os comunistas brasileiros têm festejado sucessivas vitórias sobre o Poder Legislativo dos EUA, um dos templos do satã capitalista. Filiado ao PCdoB, o alagoano Rebelo exibe um padrão de vida muito superior ao do colega ianque. A foto informa, por exemplo, que o comunista nordestino não precisa pagar nem o barbeiro. Um Speaker of the House (o presidente do Congresso americano) nem ousaria sonhar com tal privilégio. O salário mensal do adversário capitalista é ligeiramente maior que o de Rebelo. A diferença é amplamente compensada por truques pecuniários que garantem ao parlamentar nativo embolsar quase R$ 100 mil. Mas a goleada nasce de outros requintes. O herói do PCdoB tem direito a casa, comida, roupa lavada, carro do ano, agentes de segurança, passagens aéreas, pencas de assessores, o diabo. O chefe do Legislativo americano conseguiu dois seguranças depois dos atentados de 11 setembro de 2001. Lá, deputados e senadores (dois por Estado) visitam redutos eleitorais de tempos em tempos. Numerosos apartamentos abrigam até quatro parlamentares, que dividem despesas como estudantes. Coisa de pobre. Não serve para um país como o Brasil.
Voto nulo não melhora nada
A crescente irritação dos brasileiros com a roubalheira federal vem desmatando a trilha que conduz ao voto nulo. Não é o melhor caminho. Entre as poucas conseqüências animadoras da crise de 2005 figura a descoberta de que é o povo quem paga a conta. Cabe aos eleitores, portanto, determinar os destinos do Brasil.
Votar é necessário. Votar no candidato a presidente que apresente programas verossímeis. E em candidatos ao Congresso que tenham vergonha na cara. Eles existem.
Voto nulo é o que severinos e valdemares pedem aos céus. Um punhado de eleitores cativos será suficiente para garantir a vaga. Mais sensato é reduzir a bancada dos cafajestes com a escolha de candidatos decentes.