| O Globo |
| 7/5/2008 |
Assim como não faz sentido a insistência do ex-governador Geraldo Alckmin em ser candidato à prefeitura paulista, desarrumando uma coligação com o DEM que está dando certo, faz menos sentido ainda a radicalização de setores do PSDB contrários à sua candidatura, agora que ele conseguiu ser indicado pelo diretório regional do partido. Com a manobra política que garantiu o apoio do PMDB paulista à reeleição do prefeito Gilberto Kassab, o grupo do governador José Serra havia dado um golpe político de mestre, desidratando a candidatura de Alckmin, que, se finalmente vingasse, caminharia para a cristianização durante a campanha eleitoral. A avaliação de "golpe de mestre" não contém juízo de valor em relação a Orestes Quércia, nem despreza a possibilidade de que a adesão àquele que foi o motivo principal para a dissidência que criou o PSDB traga prejuízos eleitorais para os tucanos. Trata-se aqui de analisar pragmaticamente, do ponto de vista quase cínico preponderante hoje nos partidos políticos, as vantagens da aliança, que trará para a campanha de reeleição minutos de televisão a mais e uma estrutura partidária forte. Tanto assim que todos os demais adversários tentaram a aliança com Quércia e o PMDB. O pragmatismo é tal que a petista Marta Suplicy, não tendo obtido sucesso no assédio a Quércia, já está em outro palanque tão ou mais polêmico, e protagonista de um escândalo muito atual, o do presidente do PDT paulista, deputado federal Paulinho, da Força Sindical. Envolvido em denúncias de corrupção nos empréstimos do BNDES, e alvo de uma investigação da Corregedoria da Câmara, Paulinho não terá condições de tornar realidade uma candidatura à prefeitura de São Paulo, mas tem apoio político de uma central sindical que vale muito, numa eleição em que o aspecto moral, pelo visto, não será o ponto forte. Pelo apoio que a coligação com o DEM tem entre a base municipal, inclusive com uma ampla maioria dos vereadores tucanos, parece ser uma conseqüência quase natural que a candidatura de Kassab ganhe corpo, enquanto a de Alckmin tende a se transformar em minoritária dentro do partido, se não já em julho na convenção municipal, provavelmente no decorrer da campanha. As pesquisas eleitorais já mostram uma queda consistente de Alckmin e uma conseqüente subida de Kassab. A candidatura extemporânea de Alckmin terá uma dificuldade de discurso que dificilmente será superada. Não poderá criticar a gestão de Kassab, que é composta de tucanos em sua grande parte, e segue o projeto deixado por Serra. Mas terá que acenar com um futuro melhor para um eleitor que, ou já gosta ou tende a gostar da gestão atual, ou está na oposição e já tem em Marta Suplicy, do PT, uma boa candidata para representar suas posições. Alckmin nesta eleição é um peixe fora d"água, não tem posição definida e, provavelmente, será engolido pela dinâmica própria da campanha eleitoral. Mas é inegável que ele tem votos em São Paulo. Por todas essas razões, não há explicação para a ferocidade com que estão tratando aquele que pode vir a ser o candidato oficial do PSDB à prefeitura. A melhor posição, diante da irreversibilidade de sua candidatura, seria fazer como o ex-presidente Fernando Henrique sugere: competir com civilidade, concedendo-lhe o direito de se apresentar como candidato, apoiá-lo apenas formalmente - o governador Serra estaria até dispensado dessa formalidade. Mas se ficasse demonstrado, no decurso ainda do primeiro turno, que sua campanha não estava mobilizando as bases partidárias, deixá-lo em condições de apoiar Kassab sem que pareça uma capitulação humilhante. E se, ao contrário, Alckmin confirmar uma força eleitoral capaz de vencer as máquinas estadual e municipal, o PSDB teria um candidato forte no segundo turno. A seção paulista do PSDB está fazendo com Alckmin o mesmo que a direção nacional do PT com o prefeito Fernando Pimentel em Belo Horizonte, destruindo um capital político do partido. A situação de Belo Horizonte só é pior que a da capital paulista porque foi oferecida a Alckmin a possibilidade de vir a disputar o governo de São Paulo em 2010, enquanto que no PT há grupos influentes tentando evitar que o prefeito Fernando Pimentel venha a ser o candidato oficial do partido à sucessão de Aécio Neves. Como sua tendência a escorpião, o PT prefere arriscar perder um governo praticamente ganho, como o de Minas Gerais, a fortalecer um possível candidato tucano à presidência em 2010. A aliança que o governador Aécio Neves e o prefeito Fernando Pimentel haviam montado em Minas garantia uma hegemonia que daria a prefeitura a um candidato do PSB, e o governo de Minas ao PT em 2010, passando o poder político mineiro para a base aliada do atual governo. A compensação seria o reforço à candidatura de Aécio Neves à Presidência da República pelo PSDB, e foi aí que a porca petista torceu o rabo. Com a demonstração de que Aécio poderia vir a ser um candidato "de consenso", com o apoio do próprio Lula e do PSB, cresceram dentro do PT as reações a essa nova hegemonia, que retiraria o poder centralizador da cúpula partidária petista. Se se mantiver essa tensão entre o diretório nacional do PT e o regional, é provável que a candidatura de Marcio Lacerda à prefeitura saia de uma coligação do PSB com o PSDB, deixando o PT de fora, relegado à sua própria fraqueza regional. E não é impossível que Fernando Pimentel, um dos melhores quadros petistas, deixe o partido para se candidatar ao governo de Minas pelo PSB, com o apoio do governador Aécio Neves, que manterá a postura de candidato de união, enquanto o governador José Serra poderá ver reafirmada a fama de trator político. |
Entrevista:O Estado inteligente
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