| O Estado de S. Paulo |
| 7/5/2008 |
Quem sai aos seus não degenera, é o dogma que vem de imediato à mente ante o relato dos fatos ocorridos na reunião de tucanos que referendou a “pré-candidatura” de Geraldo Alckmin à Prefeitura de São Paulo, na noite de segunda-feira. Para ser fiel à realidade, o sentido da regra acima ficaria mais bem traduzido no dito “filho de peixe”, mas aí se perderia o conceito da degenerescência, imprescindível à comparação adiante. O PSDB, como se sabe, nasceu de uma costela do PMDB. Justamente aquela que se auto-expeliu por rejeição ao restante do organismo, dominado pela doença senil do fisiologismo. Era início dos 80 e a primeira briga que resultou no racha se deu em São Paulo, numa convenção de tapas e desaforos como nunca se vira naquele que havia sido até então o reduto dos resistentes à ditadura. Mário Covas não suportaria mais, a partir dali, conviver sob o mesmo teto partidário com Orestes Quércia, que ganhara dele a vaga de vice na chapa de Franco Montoro para disputar o governo de São Paulo, na base da tropa de choque e a poder da força bruta. Anos depois surgiria o PSDB, um partido “de quadros”, quase todos fidalgos, senão de estirpe pelo menos de espírito. O destino dos dois viria se cruzar na política, nas eleições e no poder, mas a prática partidária cada um preservou a sua. O PSDB se notabilizaria pelas decisões de cúpula - restringindo os traumas às escaramuças entre cardeais - e o PMDB enveredaria de vez pelo caminho da baderna e das manobras em convenções. Em geral vexatórias, palcos de guerras de extermínio (do respeito mútuo) entre os grupos em conflito. Qualquer decisão no PMDB era precedida de arranca-rabos monumentais. Enquanto isso, os tucanos seguiam sua vidinha ao molde de um clube de lordes. Passaram oito anos no poder, perderam para o PT e, no momento em que começaram a tentar fazer o caminho de volta ao Palácio do Planalto, eis que surge o fantasma do legado com a marca indelével do modo pemedebista de conviver para vencer. Sob a sombra da figura de Orestes Quércia, agora ressuscitado como parceiro de uma das alas, o PSDB abriu às bases a decisão sobre a escolha do candidato a prefeito de São Paulo e produziu sua versão de efervescência partidária: gritos, vaias, desaforos, “autoritário” para cá, “vendido” para lá, muita manobra, nenhum entendimento e, quem viver, não será difícil que venha a ver o PSDB recorrer à Justiça contra o PSDB. Tudo, sem tirar nem pôr, à imagem e semelhança do PMDB, numa demonstração de que determinados atributos realmente vêm do berço. Pecado original Os casos dos prefeitos que conquistam sucessivos mandatos recorrendo ao estratagema da mudança de domicílio eleitoral - mostrados na edição de domingo do Estado - são exemplos de deformações que nada têm a ver com o instituto da reeleição, hoje apontado como um mal maior a ser extinto o quanto antes. Supondo que prospere a idéia defendida por quase todos os partidos e se aprove uma emenda constitucional acabando com a reeleição: o que impedirá prefeitos de continuarem a se eleger em cidades vizinhas depois de cumprido o mandato permitido por lei em seus municípios de origem? Nada. Ou melhor: os partidos teriam essa prerrogativa se estivessem realmente interessados em aperfeiçoar o sistema. Bastaria negar a legenda aos trânsfugas, com base nos respectivos estatutos, já que a lei lhes dá a posse dos mandatos. Da mesma forma, se resolveria o problema de candidatos com folha corrida em lugar de biografias. Para nada disso precisa reforma política. Basta ir à fonte do erro para encontrar a fórmula do conserto: na origem. Carochinha Nota da Força Sindical em defesa do deputado e presidente da central, Paulo Pereira da Silva, considera as denúncias contra ele fruto de “oposição acirrada, autoritária e conservadora” à “luta dos trabalhadores” pela redução da jornada de trabalho de 44 para 40 horas. É uma tese e cada um defende a sua. Agora, é o tipo da conspiração esquisita essa. Existe o alvo, Paulo Pereira, mas faltam os demais integrantes da trama: não há sinais da luta, não se ouve a voz da massa em defesa da causa e muito menos são audíveis os roncos da reação. Nas comemorações do 1º de Maio a temática sindical foi aquela, é verdade. Mas o atrativo aos trabalhadores foram os shows e sorteios. Se as direções montam essas agendas é porque conhecem o grau de despolitização da tropa, que escolheria outros afazeres no feriado caso a convocação se resumisse ao debate da pauta trabalhista. Os fatos, portanto, se encarregam de expor o artificialismo da alegação de um sindicalismo que precisa fantasiar perseguições para esconder seu gosto por outro gênero de transações. |
Entrevista:O Estado inteligente
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