Entrevista:O Estado inteligente

quinta-feira, maio 08, 2008

Alberto Tamer - Sem recessão, mas com inflação



O Estado de S. Paulo
8/5/2008

O risco de recessão foi embora, o da inflação chegou. A economia mundial, mesmo crescendo menos, resiste. Não são só as commodities. É o preço que se paga por seis anos de crescimento vigoroso, provocado por juros baixos com inflação decrescente, crédito fácil, liquidez em excesso, uma exuberância irracional nas bolsas e no mercado financeiro.

Quem afirma que é a inflação e não a recessão o novo inimigo não é a coluna - que já havia apontado a volta da inflação há meses -, é o BIS, o banco que congrega todos os bancos centrais (BCs) do mundo, em sua reunião desta semana na Basiléia. O alerta, quase dramático, chamando a atenção de todos os governos para o novo (velho de meses) desafio da alta generalizada dos preços.

ATÉ TU, GREENSPAN?

Até o nosso respeitadíssimo Alan Greenspan, que enfrentou com êxito crises profundas, prepara-se para jogar a toalha. Em entrevista à televisão americana, na segunda-feira, ele afirmou que os EUA “caíram numa recessão terrivelmente pálida”. “O declínio do emprego não tem sido tão grande como esperávamos.” Ele está sendo cuidadoso, pois foi o primeiro a afirmar que havia 80% de risco de a economia americana cair em recessão, depois reduziu a margem para 50% e agora diz que ela é “terrivelmente pálida”. Nada mais daquela “recessão profunda e demorada”.

Só uma dúvida, sr. Greenspan: se a economia americana não recuou dois trimestres sucessivos, como chamar o que está acontecendo de recessão? Não seria, como dizem os economistas mais lúcidos, apenas uma forte desaceleração? Afinal, se fosse recessão, ela não estaria sendo debelada tão rapidamente. Greenspan fala agora de estagnação.

Para atenuar o seu recuo, ele acrescenta que a economia “deve” (não afirmou que vai) permanecer estagnada até o fim do ano. Greenspan duvida que haja uma recuperação imediata, pois é preciso esperar que os preços dos imóveis se estabilizem e se atenue as pressões sobre as empresas financeiras.

Greenspan teve o mérito de ter sido o primeiro a afirmar, bem antes da eclosão da crise imobiliária, que a economia americana ia se desacelerar. E isso porque vinha crescendo muito havia seis anos e dava sinais de exaustão. Na época, Ben Bernanke discordou, dizendo que “não há na literatura econômica nada que prove esse fenômeno”. Se não havia, agora há.

MERCADO CALMO, BERNANKE, NÃO

Enquanto isso, o mercado financeiro caminha em céu azul, com as bolsas em sua quarta semana de calma e até mesmo leve alta. Aqui, a Bovespa só falta estourar champanhe, se já não estourou,batendo todos os recordes graças, em grande parte, ao ingresso de capitais externos, ao bom desempenho econômico e aos lucros das empresas - essas que reclamam do juro alto do BC. É uma festa, mas guardaram lágrimas de crocodilo para quando as cotações recuaram 3%. Uma tragédia.

O único preocupado é Bernanke. Ele foi incisivo, categórico e até agressivo ao alertar para o sério risco representado pelo aumento das execuções de hipotecas. Em 2007, foram 1,5 milhão de novos processos de despejo, 53% mais que em 2006, e Bernanke prevê um aumento maior neste ano. “As condições do mercado hipotecário permanecem muito difíceis.”

Há riscos que precisam ser desativados já, enquanto é tempo. E isso exige ação urgente do Congresso. No momento, há uma proposta da Câmara dos Deputados de um crédito de US$ 300 bilhões para socorrer mutuários que estão em processo de despejo. Isso só pode agravar um cenário que se distende, mas ainda é, para Greenspan e os parlamentares, tenso e perigoso. Bush reluta, mas, aparentemente, essa não é a posição de Bernanke. Ele se recusou a falar da proposta, mas seu pronunciamento foi claríssimo: “É preciso injetar dinheiro para socorrer os mutuários ameaçados de despejo e, assim, aliviar as tensões no mercado financeiro e no preço dos imóveis.

RECEITA QUE ESTÁ DANDO CERTO

Ao contrário dos seus colegas, Bernanke afirma que o risco iminente e grave não é a inflação, mas a recessão, tanto é que o Fed está disposto a reduzir ainda mais os juros para estimular a demanda. A crise está sendo debelada por quatro frentes de ação conjunta:

1 - a injeção de quase US$ 500 bilhões no sistema financeiro, feita pelos bancos centrais - e pode vir mais para socorrer os bancos em dificuldade;

2 - O auxílio aos americanos, em dinheiro vivo, de cheques no valor de até US$ 160 bilhões para que consumam;

3 - juros ainda mais baixos que 2% ao ano com o mesmo objetivo;

4 - o próximo socorro, de US$ 300 bilhões ao mutuários, que a Câmara promete aprovar nos próximos dias.

Essa é a fórmula correta do governo americano para afastar o risco de recessão e reanimar o crescimento americano e mundial. Bernanke sabe que isso significa mais dólares no mercado e inflação, mas sabe também que é um risco inevitável até que se consiga reequilibrar a economia mundial. A outra opção é crise no sistema financeiro, falta de crédito, desemprego e desestabilização econômica. E os resultados até agora obtidos, com os EUA se afastando da recessão, mostram que ele está dolorosamente certo.

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