Entrevista:O Estado inteligente

domingo, junho 10, 2007

DANIEL PIZA

Novas famílias

sinopse

Aforismos sem juízo

'Há um tom estudado na reação de Lula ao episódio, na
base do 'paciência, mas não acredito'

'Crianças podem entender que têm duas casas, ou meio-irmãos inteiros, basta que se sintam amadas'

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Daniel Piza, E-mail: daniel.piza@grupoestado.com.br

O otimismo é uma herança infantil. O pessimismo, seu refluxo.

Há alguns anos ouvi uma mulher contando sobre sua terapia semanal a um colega, que quis saber quando ela a tinha começado. 'Ah, foi na adolescência. Sabe como é... porque meus pais estavam se separando', respondeu ela. E ele, de imediato: 'Ah, a minha também... Mas porque meus pais não se separavam.'

O caso, real, aponta para a necessidade de abandonar certas visões do comportamento atual que se repetem na sociedade e na mídia. Há uma nova geração crescendo acostumada a outros arranjos familiares ou até mesmo à ausência deles, e mesmo assim há muitas pessoas - que vão do presidente Lula ao dito neoliberal Francis Fukuyama - que insistem em falar de 'lar estruturado', em usar termos como 'núcleo' e 'célula mater', em associar esse tema a pátria e religião, em afirmar que é mais 'natural' ao ser humano dividir uma vida inteira com um só indivíduo. Bem, conheço diversas pessoas que abrem mão de suas inclinações naturais em nome dos filhos - 'vão viver sob o mesmo teto até que a casa caia', como diz Chico Buarque - e sofrem muito com isso, mesmo depois de exatos 30 anos de divórcio legal no Brasil.

Não tenho nada contra casamentos 'eternos' e, como tantos, acho bonito ver um casal que está junto há décadas e consegue manter individualidade e romantismo. Mas é minoria. A maioria se dissolve no ácido das picuinhas e mesquinharias, na falta de tesão e assunto. Há as mais variadas razões, mas suspeito que a principal delas seja tão antiga quanto o Homo sapiens: porque ainda casamos com uma pessoa mais ideal do que real. Foi por isso, a propósito, que Cyril Connolly escreveu que o segundo casamento é o melhor, já que entramos nele com menos ilusões. Ou que Chamfort, morto tragicamente depois de descrever a estranha ética dos jacobinos ('Seja meu amigo ou eu te mato' - qualquer semelhança não é coincidência), definiu: 'O divórcio é tão natural que, em muitos lares, ele se deita todas as noites entre um marido e sua esposa.' (As Máximas e Pensamentos de Chamfort, exaltado por Connolly em The Unquiet Grave, acabam de ser editados no Brasil pela José Olympio.)

E olhe que Chamfort e Connolly viveram em tempos em que a mulher não era como a de hoje, que trabalha, aos poucos ganha o mesmo ou mais que o homem, segue atraente por muito mais tempo - para felicidade de todos, exceto os caretas. Ao mesmo tempo, note que eles defendem o casamento, não como 'instituição', mas como enriquecimento da experiência vital.

O mesmo vale para Fabrício Carpinejar, tanto em suas crônicas na internet como em seu mais recente livro de poesia, Meu Filho, Minha Filha (Bertrand Brasil). É sobre a conseqüência que os conservadores vêem dessa realidade na psique das crianças. (Justiça seja feita aos recentes esboços de planejamento familiar lançados por Lula, como a inclusão da vasectomia no SUS.) É preciso distinguir o sujeito que não está nem aí para a criação dos filhos, que deixa tudo para a mulher por egoísmo e/ou porque só quer saber de dinheiro - e mesmo aquele ou aquela que opta por não ter filho e/ou viver só -, e o pai contemporâneo, que vejo muitas vezes por aí, capaz de educar com carinho e sem sufocar os filhos com suas próprias frustrações e desequilíbrios.

'Não chama nenhum dos meus filhos/ de meio-irmão. Que metade é essa/ apartada de sua inteireza? Qual é o complemento que falta/ para que o sangue seja legítimo?/ Será bastarda a perna esquerda ou a direita?', começa Carpinejar um dos melhores poemas. As crianças podem, sim, entender que têm duas casas, ou que têm meios-irmãos inteiros, ou que são mais novas que seus sobrinhos, ou que foram adotadas por pais do mesmo sexo. Basta que se sintam amadas e informadas. E que os traumas não se deitem entre elas e seus pais.

RODAPÉ (1)

Felizmente o Brasil volta a traduziros grandes autores modernos do Japão, e não me refiro à onda de mangás, os quadrinhos que a garotada de hoje adora. Desde as primeiras edições de Mishima nos anos 80, pela Brasiliense (Paulo Leminski, por exemplo, verteu Sol e Aço), o trabalho parecia interrompido. Mas, graças especialmente a editoras como a Estação Liberdade, que publicou livros como As Irmãs Makioka, de Junichiro Tanizaki, e A Casa das Belas Adormecidas, de Yasunari Kawabata, o terreno foi recuperado nos últimos anos, ainda que faltem obras de um Kobo Abe. Agora a Companhia das Letras traz Em Louvor da Sombra, belo ensaio de Junichiro Tanizaki. São todos autores que refletem sobre o Japão do século 20, 'ocidentalizado', ciente da tarefa nada simples de conciliar a tradição e a modernidade.

O ensaio de 1933 de Tanizaki, que tem pouco mais de 50 páginas, é exatamente sobre isso, rejeitando tanto o purismo quanto a subserviência. Tem todas as marcas de Tanizaki: descrições granuladas, viradas imprevisíveis, experiências diretas. Fala sobre criações japonesas do cotidiano como as latrinas com vista para o verde, os papéis com textura, o shoyu, o sushi com folha de caqui, a laca - e foi esta que lhe revelou a importância da penumbra no gosto japonês, visível também nos beirais e paredes de sua arquitetura. Acho que há certo 'ocidentalismo' em sua visão, ao deixar de citar grandes amantes de sombras da cultura européia, como Rembrandt ou Dickens, mas não resta dúvida de que o mundo tecnológico as repudia.

RODAPÉ (2)

Os aforismos de Chamfort e a literatura japonesa são apenas duas das iniciativas interessantes desse curioso mercado editorial que é o brasileiro. Há algumas, de cunho, digamos, mais erudito, que são grandes acontecimentos. Infelizmente, publicações que volta e meia fazem matérias sobre os clássicos não traduzidos não lhes dão o devido tratamento quando o são, especialmente por editoras menores. Dois exemplos: Beowulf, em edição bilíngüe (inglês antigo - português), tradução de Erick Ramalho (editora Tessitura), e Os Deveres do Homem e do Cidadão, de Samuel Pufendorf (Topbooks).

Beowulf, escrito ao redor de 680-725 d.C., é o poema épico anglo-saxão mais importante. Borges, Tolkien, Ezra Pound e Seamus Heaney - que fez uma linda versão para o inglês moderno - são alguns dos estudiosos que se encantaram com ele, que também é uma das fontes mitológicas de J.K. Rowling em Harry Potter. Não tenho conhecimento suficiente para julgar a tradução, mas, como leitor, acho que o excesso de parênteses e travessões cortam um pouco da fluência que Heaney, por exemplo, mantém. Mesmo assim, ficamos absortos na história e também na riqueza sonora: 'Cantou, gládio de guerra, um canto ávido.'

O livro do pensador alemão Pufendorf, publicado em latim em 1673, é um dos marcos do direito natural. Faz parte da revolução liberal que separou Igreja e Estado, criando um corpo de conceitos que atribui ao governo o papel de promotor da justiça e da paz, não de autoridade moral. Intelectualmente, é um herdeiro de Montaigne, Descartes, Hobbes e Grotius, dos ensaístas que abriram caminho para o iluminismo e para uma ideologia que, como disse Sérgio Buarque de Holanda, não participou da fundação brasileira. Por falar em iluminismo e em boas iniciativas editoriais, a Martins Fontes segue com seu projeto 'Voltaire Vive' e acaba de lançar edição de suas Cartas Filosóficas.

POR QUE NÃO ME UFANO (1)

Achei divertida a matéria da revista Piauí, escrita por Daniela Pinheiro, sobre os plágios freqüentes da moda brasileira. Jum Nakao, um dos entrevistados, critica com acerto a imprensa especializada que ou não vê ou finge que não vê os abusos. Influência e citação, mesmo sem crédito, não são a mesma coisa que copiar disfarçadamente. E isto é o que se vê demais no Brasil - nesta Terra dos Papagaios, como já me queixei há tempos - e não só na moda, mas em todas as áreas criativas, da publicidade à imprensa, do cinema à arquitetura, da ciência à televisão. E, mesmo quando não são cópias, apenas 'inspirações', quase sempre ficam muito atrás do original.

POR QUE NÃO ME UFANO (2)

É interessante: sempre que aparece um escândalo de corrupção, vemos sábios nos jornais propondo soluções para 'acabar' com ela. E propõem voto distrital misto, nova lei de licitações, etc. e tal. É óbvio que o Brasil precisa de reformas política e tributária e de mudanças em leis e procedimentos. Mas não se trata de solução direta e definitiva para o problema. Só com as instituições e normas disponíveis, muito mais se poderia fazer para fiscalizar e punir, para reduzir de forma consistente a drenagem cotidiana do dinheiro público. Veja o caso de Vavá, o irmão lobista de Lula, e de Dario Morelli, compadre do presidente, que estão sendo investigados por suposta ligação com a máfia dos caça-níqueis. Muito antes da operação da PF, Xeque-Mate, esses nomes já apareceram em diversas apurações de tribunais e Ministério Público. Se a mentalidade fosse outra, elas já teriam sido avaliadas e julgadas.

Como disse Dora Kramer, há um tom 'estudado' na reação de Lula ao episódio, que foi na base do 'paciência, mas não acredito'. Delúbio, Freud Godoy, Morelli, Okamoto, Teixeira... Você sabe escolher amigo e compadre, não, presidente?

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