sábado, janeiro 20, 2007

Perfume – A História de um Assassino

Aroma de sucesso

Perfume é uma adaptação fiel, e engenhosa,
do best-seller do alemão Patrick Süskind


Isabel Boscov

Divulgação
Whishaw, como o protagonista, com Karoline Herfurth: em busca de uma fragrância sublime

DA INTERNET
Trailer do filme

Um dos maiores sucessos editoriais dos anos 80, o romance Perfume, do alemão Patrick Süskind, vendeu 15 milhões de exemplares em todo o mundo e foi tão comentado que, a certa altura, nem era mais preciso ler o livro para saber do que ele tratava: do fictício Jean-Baptiste Grenouille, nascido no reduto mais fétido da imunda Paris do século XVIII; largado pela mãe num monturo; criado como pária; e destinado a ser o mais assombroso de todos os perfumistas. Segundo descreve o autor, o olfato incomum de Grenouille lhe permitia distinguir, e memorizar, cheiros tão elusivos quanto os de pedra e vidro. Mas ele próprio nascera privado de qualquer odor pessoal – e, portanto, segundo seus critérios, desprovido de identidade. Logo, a busca do protagonista por uma essência que mimetize a dos seres humanos comuns se confunde com a obsessão por capturar o mais sublime de todos os aromas, que calha de ser, num lance não exatamente criativo, o de uma virgem. Ou melhor, de certas virgens, que Grenouille passa a assassinar para roubar-lhes as emanações. À parte suas limitações literárias, o fato é que Süskind topou com uma dessas fórmulas irresistíveis: um personagem singular, uma intriga com desdobramentos surpreendentes e, como apoio, as descrições minuciosas de uma França repleta de eflúvios e dos processos com que se fixam e combinam as fragrâncias da natureza. O curioso é que um best-seller como esse tenha demorado duas décadas até ganhar uma versão cinematográfica. Para os admiradores do livro, porém, a espera há de compensar. Perfume – A História de um Assassino (Perfume – The Story of a Murderer, Alemanha/França/Espanha, 2006), que estréia nesta sexta-feira no país, é uma adaptação fiel – e também engenhosa, na maneira como supre um sentido, o olfato, que o cinema não é capaz de estimular.

Süskind segurou os direitos sobre seu livro durante anos porque queria que eles fossem para Stanley Kubrick ou para Milos Forman. Nenhum dos dois se interessou, o autor se cansou de esperar e, afinal, vendeu o material ao também alemão Bernd Eichinger (produtor de A Queda – Os Últimos Dias de Hitler) – que, por sua vez, o entregou ao diretor Tom Tykwer. Trata-se de uma escolha excelente. Não obstante o jeito modernoso demonstrado em Corra, Lola, Corra, Tykwer é um cineasta de inclinação clássica. Ele organiza numa narrativa clara uma história que atravessa diversos anos e locais, reservando seus floreios para vencer o desafio particular de Perfume. Tykwer evoca os aromas, bons e ruins, do enredo da forma mais simples possível: com imagens detalhadas e exuberantes dos objetos que os emitem. A imaginação do espectador faz o resto. Outros truques do diretor demoram mais para se fazer compreender – como a escolha do calouro inglês Ben Whishaw para o papel principal. Grenouille mal se comunica e não faz muito mais do que decantar, destilar e imaginar. É um personagem inerte, e Whishaw leva bem uma hora de filme até superar esse obstáculo. Quando o faz, porém, é com uma atuação brilhante e criteriosa, que impede que a seqüência climática, de uma imensa orgia em praça pública, resvale para o ridículo. Perfume, enfim, é a tradução justa do livro que lhe deu origem: não chega a ser grande, mas tem originalidade suficiente para sobreviver – e bem – como entretenimento.

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