Entrevista:O Estado inteligente

segunda-feira, janeiro 22, 2007

O pater familias do Planalto

O presidente Lula é mestre em criar falsas esperanças. Em discurso - o que mais podia ser? - para 130 prefeitos reunidos no Palácio do Planalto, ele disse o seguinte, ao falar do ainda nebuloso Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), a ser anunciado hoje, com pompa e circunstância: “Não quero que seja mais um daqueles programas que o governante vai à TV e anuncia, anuncia, anuncia e anuncia, e termina o mandato e vocês não vêem. Eu quero anunciar exatamente aquilo que a gente puder cumprir.” À primeira vista, com essas palavras Lula teria produzido a mais franca, corajosa e fiel descrição do que foi essencialmente o seu comportamento ao longo do primeiro mandato - uma autocrítica pela sucessão de promessas reiteradas e descumpridas: do espetáculo do crescimento à transposição das águas do São Francisco, da retomada da Ferrovia Norte-Sul ao Primeiro Emprego, da melhoria do sistema de saúde pública ao engajamento federal no combate à criminalidade, entre tantas iniciativas anunciadas, anunciadas, anunciadas e anunciadas, e, terminado o mandato, ninguém viu...

Se a isso se limitasse o presidente, indicando que aprendeu com os próprios erros, reconhecidos de peito aberto, seria legítimo identificar na sua fala o primeiro indício de que o segundo mandato será diferente do outro - e não para pior, como vinha parecendo. No entanto, escravizado mais uma vez ao som da própria voz, ele enveredou pelo constrangedor território da apoteose mental, ao prometer que dirá “diariamente”, sobre o andamento do PAC, “quais são as deficiências, o que está pronto, o que não está, o que falta aprontar, o que falta fazer, porque assim é que a gente vai poder passar a certeza de que as coisas que nós falamos vão acontecer em nosso país”. Pronto: eis, de corpo inteiro, o conhecido e inabalável padrão Lula de administrador público, nessa realidade paralela em que a palavra é princípio, meio e fim. Pois, se o presidente levar ao pé da letra o desvelo diuturno com que se comprometeu, isso não garantirá que as medidas para a aceleração do crescimento serão aprontadas sem falhas, a tempo e a hora. A única certeza deixada no ar é que o PAC será mais um pretexto para o exercício da inesgotável oralidade presidencial - a cada dia não a sua agonia, como dizia o apóstolo Paulo, mas a sua cota de palavreado.

Lula não muda, nem evolui, ao contrário da espécie de que ele costuma falar, tocando Darwin de ouvido. A sua visão de governante e dirigente político é invariavelmente a de um pater familias, extremoso, equânime e benevolente. Isso é o que lhe ocorre, entre outras situações, quando se vê diante de uma enrascada, pela qual a rigor só tem a culpar a si próprio, como é o caso da disputa entre dois aliados pela presidência da Câmara, fragmentando a sua ambicionada coligação de governo antes mesmo que exista na vida real. Lula lidou com a candidatura do companheiro Arlindo Chinaglia - de contestação à permanência no cargo do deputado Aldo Rebelo, com o endosso inicial do presidente - com a coerência de uma biruta quando os ventos mudam de direção. Tendo fracassado em afastar um deles da disputa, Lula apelou para a esfarrapada alegação da não-ingerência em assuntos internos do Congresso, quando abordado pelos repórteres ao final do encontro com os prefeitos. Podia ter ficado por isso mesmo - mas não. Desmanchou-se em sentimentalismo. “Vocês sabem da relação que tenho com o Aldo, com o Arlindo”, começou. “E eu trato os dois como filhos. Eu nunca vou a favor de um filho, eu vou sempre tentar a conciliação.”

O ponto, evidentemente, não é nem o argumento amanteigado - que levou Rebelo, 50 anos, a se dizer “rejuvenescido”. Mas a naturalidade, esta sim ancorada em sentimentos autênticos, com que o presidente se afasta do princípio republicano da impessoalidade na esfera pública. Ele encarna o “homem cordial” concebido pelo historiador Sérgio Buarque de Holanda ao falar do predomínio do afetivo e do privado no modo de ser dos brasileiros. No plano das relações de poder, isso se manifesta sob a forma de dois entranhados arcaísmos bem conhecidos dos estudiosos da política: o personalismo e, não raro literalmente, o filhotismo. O Lula “cordial”, em suma, prevalece assim sobre o Lula tido como sinônimo de mudança e renovação.

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