segunda-feira, janeiro 15, 2007

Férias e fatos- Rubem Azevedo Lima

Férias e fatos


Correio Braziliense
15/1/2007

As notícias, verdadeiras ou falsas, voam e se espalham sem parar no universo informático. Por isso, embora importantes ou incomuns, muitas passam despercebidas entre milhões de informações produzidas e renovadas, dia a dia, pelos internautas. Isso deve ter ocorrido, no Brasil, com a crítica do papa Bento XVI à mídia e com outros acontecimentos.

Para o papa, se não acordarmos da hipnose da comunicação, não veremos, sem apoio crítico, os interesses ocultos na economia e na política e faltará sentido humano à história do mundo, que crie cultura humanística, para restituir protagonismo e responsabilidade às pessoas, sem sujeitá-las à força e a processos contra os quais se acha inútil lutar.

Foi uma das coisas boas da semana, enquanto Lula, de férias e sem fazer declarações, pescava no Guarujá. Do mesmo naipe foram as páginas de Bill Moyers, em The Nation, de janeiro, sobre elites políticas e midiáticas, republicanas e democratas, nos EUA, responsáveis pelo fato “de 1% dos americanos terem mais riqueza do que 90% de todos os outros, somados”.

Para Moyers, o neoliberalismo existe só para o livre mercado, violando, pois, a Constituição dos EUA, segundo a qual ricos e pobres são política e juridicamente iguais, independentemente de suas circunstâncias. As corporações poderosas, que investem pesado na política, para manter os privilégios, corrompem os políticos e destroem a democracia.

Incomum foi a mensagem eletrônica de Toyoko, com a interpretação de uma vestibulanda de 16 anos, na Universidade da Bahia, da quadra do soneto de Camões “Amor é fogo que arde sem se ver, /é ferida que dói e não se sente,/é um contentamento descontente,/dor que desatina sem doer”. Eis a interpretação da moça: “Ah! Camões, se vivesses hoje,/ tomavas uns antipiréticos,/ uns quantos analgésicos/ e Prozac para a depressão./ Compravas um computador,/ consultavas a internet/ e descobririas que as dores que sentias,/ os calores que te abrasavam,/ as mudanças de humor repentinas,/ os desatinos sem nexo,/ não eram feridas de amor,/mas somente falta de sexo”. O mestre deu-lhe 10. Tudo isso em janeiro, o mês das férias.

Deve ser coisa de adversários, mas já se diz que as férias de Lula foram melhores para os brasileiros do que para o presidente. Que intrigantes!

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