Entrevista:O Estado inteligente

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terça-feira, julho 19, 2011

O facínora amigo - Alon Feuerwerker

Correio Braziliense,
Para azar de Dilma e do chanceler Antonio Patriota, o futuro próximo reservava uma surpresa e tanto ao Brasil e ao resto da humanidade. O futuro espreitava logo ali, na esquina

Tenho escrito frequentemente sobre o cinismo nascido do cruzamento entre a política partidária-governamental e a militância pelos direitos humanos. Esta última só consegue realizar-se, na plenitude, quando toma distância prudente daquela.

Um exemplo é a duplicidade da reação brasileira às decisões hemisféricas sobre o tema.

A posição interamericana sobre a necessidade de levar os torturadores ao banco dos réus é tratada pelo establishment petista como palavra final, irrecorrível.

Já as restrições à construção de Belo Monte são recebidas como ingerência indevida nos assuntos internos do Brasil.

O PT gostaria de rever a Lei da Anistia, mas também pretende construir a hidrelétrica no Xingu. Daí a preferência pelo cardápio à la carte. O que convém é saudado, o que não convém é repudiado.
E com igual ênfase, sempre evocando os princípios. Que os há para todos os gostos.

Embora os direitos humanos estejam no coração de cada um dos dois assuntos. Se vale num caso, deveria, em tese, valer no outro. Se o Brasil deve abrir mão da soberania na Anistia, por que não deveria também subordinar-se quando entra em pauta Belo Monte?

Por falar nisso, o que sobrou mesmo da "nova política externa" do governo Dilma Rousseff e do chanceler Antonio Patriota? Alguém sabe onde foi parar? Alguém viu?

A administração Dilma ganhou um gás de marketing na largada, ao votar contra o Irã na ONU. A ministra dos Direitos Humanos chegou a declarar que doravante os direitos humanos seriam inegociáveis.

Os apressados saudaram então a suposta ruptura com o período anterior.

Para azar de Dilma e do chanceler Antonio Patriota, o futuro próximo reservava uma surpresa e tanto ao Brasil e ao resto da humanidade. O futuro espreitava logo ali, na esquina.

Após décadas (ou séculos, conforme a contabilidade) de opressão, 2011 ficará como o ano em que o mundo árabe desencadeou o basta aos regimes ditatoriais e corruptos.

Não chega a ser uma completa novidade histórica, pois meio século atrás a região assistiu a uma onda parecida, de viés nacionalista, socialista e militar. Cujos líderes, com o tempo, preferiram reproduzir o formato das monarquias que um dia tinham proposto derrubar.

Naturalmente agora com eles próprios no comando.

A atual revolução árabe é plural, ainda que o fundamentalismo religioso mantenha certa preponderância. Mas esse é assunto só dos povos árabes, que responderão pelas suas escolhas. Na paz ou na guerra. Como vem acontecendo.

Quem vê a coisa de fora e se diz movido pela defesa dos direitos humanos não tem como vacilar.
Se o governo brasileiro desejasse mesmo levar à prática o anunciado lá atrás, deveria estar na linha de frente da condenação aos regimes autoritários e do apoio aos movimentos democráticos.

Mas não tem sido assim. O Brasil, desde quase sempre, desde bem antes dos governos do PT, olha para as ditaduras de lá como se fossem realidades congeladas.

No fritar dos ovos, talvez o Brasil tenha sido, e ainda seja, o melhor amigo dos ditadores, dos corruptos, dos genocidas daquele pedaço do mundo.

No caso líbio o Brasil ainda ficou meio em cima do muro, mas agora na Síria a diplomacia brasileira tem se destacado pelo esforço de lançar boias para salvar o facínora de Damasco.

Enquanto a coisa estava restrita ao Egito, à Tunísia, ao Iêmen e ao Barein, aliados dos Estados Unidos, a festa no petismo corria solta. Agora que chacoalham adversários dos Estados Unidos, volta a campo a retórica das "soluções negociadas".

Sonoro, mas é apenas um jeito limpinho de tentar ajudar Bashar Assad a preservar o pescoço.

Sem contar que a retórica das "soluções negociadas" será convenientemente esquecida em setembro, quando o Brasil apoiará o unilateralismo palestino na Assembleia Geral da ONU.

sexta-feira, junho 10, 2011

Síntese de uma derrota - ALON FEUERWERKE

Por ironia da História, o governo brasileiro que impediu Battisti de apodrecer até o fim dos dias num cárcere italiano é produto exatamente da estratégia contra a qual o italiano pegou em armas quando jovem


A recusa final do Brasil a extraditar Cesare Battisti foi, em linguagem de bilhar, uma bola cantada. Este governo brasileiro, povoado por remanescentes da guerrilha urbana, não iria mesmo incorporar ao currículo a pecha de ter entregue à Justiça de outro país um sujeito autodeclarado de esquerda, e por crimes cometidos num contexto político de luta armada.

É só isso. Escrevo "num contexto político" para não resvalar na penosa e inútil discussão sobre a classificação dos crimes imputados a Battisti. Que se debata o tema até o final dos tempos. Ou até cansar. Ou até perder a importância. Se é que já não perdeu.

Teses pinçadas apenas para adornar propósitos. O governo brasileiro não queria entregar Battisti à Itália e construiu uma argumentação que desse tinturas jurídicas ao ato de vontade. Ficou meio tosco, mas no final prevaleceu a força do poder e a premissa — razoável — de que quem faz política externa é o chefe do Executivo.

É também razoável a observação, dos acusadores de Battisti, de que as atividades do italiano a partir de uma certa hora escorregaram para o puro e simples banditismo. Mas esse tampouco é um fenômeno incomum em situações guerrilheiras.

Nem é preciso ir longe. Temos ao lado o nada edificante exemplo das Farc.

Na faina para acolher Battisti, o governo brasileiro enveredou por atalhos conceituais bizarros. O mais de todos foi colocar em dúvida o estado de direito democrático italiano.

A Itália era uma democracia quando Battisti e seus "Proletários Armados para o Comunismo" aderiram à ação política violenta. Continuava sendo uma democracia quando o italiano foi ali julgado pelos crimes a ele atribuídos. E continua sendo uma democracia agora que pede a extradição.

Battisti também deu sorte de o primeiro-ministro da Itália chamar-se Silvio Berlusconi. A resistência à extradição pôde ganhar uma aura militante, contra o burlesco chanceler.

Só que aí tem um problema: quem mais lutou e luta lá para que Battisti seja extraditado não é a direita berlusconiana. É a esquerda. Ou melhor, a centro-esquerda herdeira do Partido Comunista Italiano (PCI).

Num plano intelectual, os movimentos armados de então na Itália apresentavam-se como alternativa à política dos comunistas, que tinham decidido buscar alianças com os conservadores para chegar ao poder por meio de eleições e realizar reformas progressistas no capitalismo.

Hoje a estratégia universalizou-se, e talvez o exemplo mais vistoso seja o PT. Mas na época o reformismo era um pecado capital aos olhos do revolucionarismo radical, então bem na moda.

Na prática, a luta armada italiana serviu apenas de instrumento da direita para atrasar a chegada da esquerda ao poder, algo que ali só se realizaria após o fim da União Soviética e da Guerra Fria.

Não à toa o episódio emblemático daquela guerrilha foram o sequestro e assassinato de Aldo Moro, exatamente o líder conservador mais propenso a formar um governo em aliança com a esquerda.

A História e suas ironias. O governo brasileiro que impediu Battisti de apodrecer até o fim dos dias num cárcere italiano é produto exatamente da estratégia contra a qual Battisti pegou em armas quando jovem.

Ele pôde viver para assistir a essa síntese do fracasso político dele próprio. Pena que as vítimas não puderam.

Murismo
O Brasil absteve-se na votação da Agência Internacional de Energia Atômica que denunciou a Síria ao Conselho de Segurança da ONU por atividades nucleares clandestinas.

De abstenção em abstenção, vamos construindo um sólido protagonismo no ponto mais alto.

Do muro.

Trombada
Nas aparências a relação entre o PMDB e Dilma Rousseff não vai bem. Na vida real ela vai um pouco pior.
No episódio da troca na Casa Civil o peemedebismo concluiu que a presidente anda muito disposta a escanteá-lo.
E até as agora novas paredes do Palácio do Planalto sabem que Dilma está incomodadíssima com a eventualidade de precisar administrar uma relação difícil com o PMDB ao longo de todo o governo.

O PMDB desejava ser tratado como sócio e acha que não vem sendo.

Dilma queria o PMDB como aliado incondicional e acha que ele não está sendo.

terça-feira, janeiro 20, 2009

O sonho americano nas mãos de Obama: Isabel Fleck

Obama renova o sonho por um mundo melhor



Correio Braziliense - 20/01/2009
Primeiro líder afro-americano do país toma posse hoje como 44º presidente com os objetivos de “renovar a promessa” da nação e restaurar a confiança da população


Barack Obama ajuda a pintar a parede de abrigo para crianças carentes, em Washington: serviço voluntário na véspera de se tornar presidente
O dia em Washington começará mais cedo hoje. A partir das 7h (10h de Brasília), centenas de milhares de pessoas já deverão estar nas ruas à procura de um bom lugar para assistir à posse do primeiro presidente negro dos Estados Unidos. A expectativa é de que Barack Obama atraia cerca de 2 milhões de admiradores para o National Mall, onde ocorrerá o juramento do novo presidente e seu aguardado discurso. Às vésperas do grande evento, Obama prestou serviço voluntário, visitou um hospital militar e causou ainda mais expectativas ao jurar “renovar a promessa” do país.

“Amanhã (hoje), vamos nos unir, como um só povo, na mesma esplanada onde o sonho de Martin Luther King ainda ecoa. Por isso mesmo, reconhecemos que aqui, na América, nossos destinos estão intrinsecamente ligados. Percebemos que devemos andar juntos”, declarou Obama, em referência ao dia de homenagens ao ativista negro, celebrado ontem. “Estamos determinados a avançar juntos. Ao buscar renovar a promessa deste país, lembremo-nos da lição de King: os sonhos de cada um de nós formam na verdade apenas um”, completou.

O presidente eleito aproveitou ainda o simbolismo do feriado do Dia Nacional do Serviço Comunitário para demonstrar que está pronto a “servir” o país. Primeiro, visitou soldados feridos no Centro Médico Walter Reed das Forças Armadas, nos subúrbios de Washington — local que ficou conhecido em 2008 pelas denúncias de falta de estrutura e negligência com os pacientes. Depois, foi a vez de Obama arregaçar as mangas da camisa social para pintar de azul a parede do Sasha Bruce, um abrigo para jovens e moradores de rua na periferia da capital.

Seu vice, Joe Biden, também não teve descanso. Ele participou da preparação de almoço para famílias carentes nos arredores de Washington. A primeira-dama, Michelle, e a esposa de Biden, Jill, marcaram presença ainda em um baile de caridade para crianças. As filhas do casal Obama, Natasha (Sasha) e Malia, acompanharam os pais em alguns dos cerca de 10 mil atos de trabalho social realizados em todo o país. O presidente eleito encerrou o dia anterior à posse jantando com o antigo rival, John McCain, e o ex-secretário de Estado Colin Powell — ambos republicanos.

Expectativa
Muitos americanos aproveitaram o feriado de ontem para visitar o local onde Obama fará história hoje. A área em frente ao Capitólio foi tomada por admiradores do futuro presidente, numa espécie de festa antecipada. Sobre o histórico discurso, assessores próximos revelaram que Obama vai se concentrar em temas como responsabilidade e a necessidade de restaurar a confiança da população. De acordo com Robert Gibbs, o próximo secretário de imprensa da Casa Branca, o discurso foi escrito pelo próprio presidente no último fim de semana.

Antes de pronunciá-lo, Obama terá de cumprir um extenso protocolo. Pela manhã, ele e Michelle sairão da Blair House, residência para os hóspedes da presidência, onde eles estão desde o último sábado, para participar de uma cerimônia religiosa na tradicional St. John’s Episcopal Church. Depois, o casal — com Joe e Jill Biden — será recebido pela última vez por Bush na Casa Branca. Todos vão juntos para o palanque em frente ao Congresso, onde a cerimônia começará às 11h30 (14h30 em Brasília). O juramento será feito sobre a mesma Bíblia utilizada por Abraham Lincoln, seguido pelo discurso do novo presidente.

Obama e sua família participarão de um almoço com os congressistas no Capitólio, onde será servido um cardápio inspirado no ex-presidente Lincoln, à base de sopa de marisco, faisão e torta de maçã. O evento oficial será encerrado com um desfile, em carro fechado, pela Avenida Pensilvânia até a nova residência. Barack Obama nem mesmo deve fazer todo o percurso com a janela de sua limosine blindada aberta. Tudo para garantir que ele chegue onde é o seu lugar por direito: a Casa Branca.

Gabinete será o mais diversificado da história


Quatro negros, dois hispânicos, cinco mulheres. O gabinete do novo presidente dos Estados Unidos será o mais diversificado da história do país. No círculo mais próximo a Barack Obama estarão ainda dois republicanos, argumento usado pelo próprio líder para demonstrar que fará um governo apartidário. Do grupo que por décadas ocupou a quase totalidade dos principais cargos em Washington — homens brancos —, só restarão sete no mandato de Obama. Segundo o próximo governo, as escolhas não foram motivadas pela intenção de agradar os diversos grupos de eleitores que votaram no democrata, mas pelo currículo de cada um deles.

“A busca pela diversidade não era a principal motivação”, garantiu o chefe de gabinete da Casa Branca, Rahm Emanuel. O importante, de acordo com ele, era conseguir “uma grande equipe de gente com experiência, tanto no terreno político como no momento de tomar decisões”. Entretanto, Obama sabe o quanto é importante ter representantes das diversas comunidades ao seu lado. Os latinos, por exemplo, o ajudaram a se eleger em estados como Colorado, Nevada e Novo México, conquistados por George W. Bush em 2004. Nestas eleições, pela primeira vez, grupos de afro-americanos se mobilizaram para comparecer em massa às urnas — apoio que o presidente eleito também não pode esquecer.

Hispânicos
Entre os hispânicos escolhidos, estão os secretários do Trabalho, Hilda Solís, e do Interior, Ken Salazar. A comunidade latina espera que a vaga deixada pelo governador do Novo México, Bill Richardson, que desistiu do cargo de secretário de Comércio por causa de uma investigação federal, seja preenchida por outro hispânico. Os negros estarão representados pelo secretário de Justiça, Eric Holder, a embaixadora dos EUA nas Nações Unidas (ONU), Susan Rice, o representante de Comércio Exterior, Ron Kirk, e a responsável pela Agência de Proteção do Meio Ambiente, Lisa Jackson.

Além de Hilda, Susan e Lisa, a governadora do Arizona, Janet Napolitano, e a ex-primeira-dama Hillary Clinton integrarão a ala feminina do gabinete, nos cargos de secretárias de Segurança Nacional e de Estado, respectivamente. Para Bonnie Erbe, colunista do jornal US News, o número de mulheres no governo deveria ser ainda maior. “No começo de seu governo, Bush nomeou quatro mulheres para seu gabinete. Bill Clinton convidou cinco mulheres, e George H. W. Bush e Ronald Reagan, duas. Obama não avançou nisso.”

Obama terá a missão de equilibrar os egos entre a equipe formada por intelectuais da Ala Oeste da Casa Branca e o seu executivo. Os chefes de gabinete podem acabar competindo pela simpatia do presidente com seus assessores. “O presidente se cercou de personalidades que podem expressar vigorosamente suas eventuais divergências. (…) Tudo dependerá das relações estabelecidas entre os secretários e os funcionários da Casa Branca”, afirma o especialista William Galston, do Instituto Brookings.

quarta-feira, outubro 01, 2008

Eles brigam. Nós pagamos



Coluna - Nas Entrelinhas
Correio Braziliense
1/10/2008

Os americanos não estão debruçados sobre uma crise mundial. Disputam, na verdade, votos no próprio quintal e não parecem dispostos a cooperar em escala planetária

Tal qual Lula, acordei invocado. Mas não liguei para o Bush. Em vez disso, resolvi olhar pelo buraco da fechadura da política do império. Que visão perturbadora, meus amigos! Ao fim e ao cabo, comecei a torcer secretamente por um evento fantástico e solitariamente capaz de resolver a nova crise mundial: o sobrevôo de uma nave extraterrestre em Mannhatan. Explico-me, explico-me. Antes, porém, um resumo panorâmico do que está em jogo.

Num passado recente, naquela grande nação ao norte, o Banco Central deixou a taxa de juros menor do que a inflação. Queria estimular a economia para evitar uma recessão. Com a margem de lucro limitada pela política monetária, os bancos tiveram que ampliar a escala. Começaram a emprestar dinheiro a quem lhe passasse na porta. Os tomadores nem sempre tinham o perfil aconselhado pela boa técnica bancária para receberem o crédito. Mas fazer o quê? Pegaram o capital e foram às compras. Onde? No mercado imobiliário.

Quando alguém toma empréstimo em banco, os pagamentos futuros, “recebíveis” no jargão da área, tornam-se ativos da instituição financeira. Como tal, podem ser vendidos. Ou dados como garantia de outras operações — “alavancagem”, em financês. Pois os bancos americanos inundaram o mundo com suas carteiras de subprime (apelido dos empréstimos de má-qualidade no ramo imobiliário), seja vendendo-as a terceiros, seja alavancando posições com elas.

Mas e o Banco Central? Permitiu isso? Lá, ao contrário de cá, o sistema é auto-regulado. Nem o BC nem o governo se metem na vida de seus bancos nesse nível de gestão. Eles têm liberdade para fazer o que bem quiserem com o dinheiro que captam e com o crédito que concedem.

Aí, o perigo de recessão passou, mas o de inflação chegou. As taxas de juros voltaram a subir. E aqueles tomadores de empréstimos fizeram o que todo mundo faz quando o dinheiro falta: deram calote. Todos os bancos pelo mundo que adquiriram papéis de alguma forma relacionados com os subprime se viram, de uma hora para outra, com um baita buraco no caixa.

O sistema inteiro entrou em colapso e chegamos ao ponto atual. O governo Bush pediu autorização do Congresso para usar dinheiro dos impostos e comprar dos bancos americanos todas as carteiras de subprimes, sejam créditos diretos ou outros títulos neles lastreados. O pacote custaria US$ 700 bilhões!

É onde entra a política miúda. Maioria no Congresso, o Partido Democrata queria incluir no texto da lei mandada por Bush uma cláusula beneficiando mutuários que fazem parte de sua base eleitoral. Era uma espécie de chantagem. Algo como, “ok, republicanos, nós lhes salvamos se vocês perdoarem as dívidas dos nossos eleitores”.

Minoritário, o Partido Republicano representa o que se chama de “América profunda”. São aqueles caipiras conservadores, com certa ojeriza tanto ao modo de vida dos garotões ricaços do mercado financeiro, como às intervenções do governo sobre negócios privados.

O deputado texano John Culberson é um deles. Eleito pelos votantes do distrito de Houston, ele exerce o quarto mandato. Chegou à Casa dos Representantes pregando a limitação da ação governamental, a auto-regulação dos mercados e a liberdade individual. Foi quem liderou a reação ao pacote. “Não podemos endividar nossos filhos e netos em mais US$ 700 bilhões, além dos US$ 9,2 trilhões da atual dívida pública”, discursou. Em outras palavras, “nós, desbravadores do Oeste, não queremos pagar pelos erros daqueles sujeitinhos de Wall Street”.

Como se vê, os americanos não estão debruçados sobre uma crise mundial. Disputam, na verdade, votos em seu quintal. De onde concluo que só o vôo ameaçador de alienígenas sobre o céu da Grande Cidade os fará cooperar em escala planetária. Caso contrário, iremos todos juntos para o buraco, inclusive este velho e otimista país ao sul do Equador.

segunda-feira, setembro 29, 2008

BRASIL JÁ PAGA A CONTA DA CRISE

Vicente Nunes
Correio Braziliense
29/9/2008

Terremoto financeiro internacional chega ao país e restringe o crédito, eleva os juros dos empréstimos, faz o Banco Central queimar reservas e derrete o valor de mercado das empresas com ações na Bovespa

O governo resistiu o quanto pôde em assumir que o estouro da bolha imobiliária americana teria reflexos negativos no Brasil. Mas, desde o início deste mês, quando a crise realmente mostrou sua face mais perversa, a realidade falou mais alto. A fatura que cabe ao país passou a ser emitida. E do Banco Central ao Ministério da Fazenda, do Congresso ao Palácio do Planalto, a discussão, agora, é sobre como minimizar os estragos na economia brasileira. "Não tem jeito. Por melhores que sejam os fundamentos econômicos, não há como o Brasil ficar imune ao vendaval financeiro que varre o mundo", diz Ítalo Lombardi, analista para mercados emergentes da consultoria RGE Monitor.

Os efeitos da crise estão por todos os lados. A começar pelo crédito, que ficou mais escasso e caro. Na média, os consumidores que se dispuserem a comprar a prazo ou a tomar empréstimos vão arcar com as maiores taxas de juros desde o segundo semestre de 2006: 52,8% ao ano, em média. Operações que antes eram oferecidas sem restrições, como os empréstimos com desconto em folha, praticamente sumiram. No máximo, os bancos estão renovando os financiamentos e, mesmo assim, em prazos menores. "O consignado deixou de ser interessante para os bancos nesse cenário de juros mais altos", afirma o chefe do Departamento Econômico do BC, Altamir Lopes.

Também as empresas estão arcando com custos maiores nas linhas para capital de giro e para tocar a ampliação de fábricas — juros médios de 28,4% ao ano, os maiores em julho de 2006 —, uma vez que o crédito externo secou. Apenas nos primeiros 15 dias de setembro, R$ 2,1 bilhões deixaram de entrar no país. "O crédito é uma das alavancas do crescimento, pois estimula tanto o consumo das famílias quanto os investimentos produtivos. Ao ficar mais caro e com acesso mais difícil, vai prejudicar a expansão econômica do país", explica Fernando Montero, economista-chefe da Corretora Convenção.

Por isso, muitos analistas prevêem um tombo no ritmo de avanço do Produto Interno Bruto (PIB) em 2009. As estimativas apontam para incremento entre 2,5% e 3,5%, o que representa redução de até três pontos percentuais em relação ao resultado esperado para este ano, de 5% a 5,5%. "Que o Brasil vai crescer menos em 2009, não há dúvidas. E muito possivelmente menos de 3%", ressalta o economista-chefe da Confederação Nacional do Comércio (CNC), Carlos Thadeu de Freitas Gomes. A inevitável desaceleração da economia já foi, inclusive, devidamente comunicada ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva pelo presidente do BC, Henrique Meirelles, conforme informou ontem o Correio.

Mais prejuízos
O governo também está dando sua cota de sacrifício. O BC já queimou US$ 1 bilhão das reservas internacionais para aliviar a vida de empresas e bancos, que ficaram sem crédito para financiar o comércio exterior. O BC teve ainda de enfrentar o sufoco de 23 bancos de menor porte, que se viram sem dinheiro em caixa para emprestar. A secura foi tamanha, que a instituição liberou R$ 13,2 bilhões em depósitos compulsórios que estavam sob a sua guarda. E mais: mesmo pagando juros mais altos, o Tesouro Nacional conseguiu refinanciar, em setembro, pouco mais da metade dos R$ 20,7 bilhões da dívida pública.

É no mercado financeiro que os efeitos da crise são mais evidentes. O valor das empresas com ações na Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa) encolheu R$ 617,8 bilhões. Corretoras e fundos de investimentos tiveram dificuldades para honrar compromissos no pregão paulista. Grandes exportadoras, como a Sadia e a Aracruz Celulose, perderam mais de R$ 1 bilhão, ao serem surpreendidas com a disparada do dólar frente ao real. "Infelizmente, ainda vamos ver muito sofrimento no mercado", ressalta Alexandre Marques Filho, analista da Elite Corretora.

terça-feira, setembro 02, 2008

Brasília-DF - Grampos & empurra




Correio Braziliense
2/9/2008

O afastamento de toda a diretoria da Agência Brasileira de Inteligência (Abin) esfria mas não acaba com a crise entre os poderes da República. Da parte do Congresso, por exemplo, ninguém gostou de, na reunião no Planalto, algumas autoridades da área de inteligência terem insinuado que o grampo estaria no Senado. “A central fica numa sala-cofre, tem senha de acesso e, quem quiser entrar, tem que deixar a digital”, contou o diretor-geral, Agaciel Maia, ao presidente da Casa, Garibaldi Alves.

Do hospital onde está internado, o senador Pedro Simon também não está convencido de que a crise acabou: “Foi uma decisão importante, somos solidários com o presidente Lula, mas agora é que se vai verificar o que está acontecendo. Da minha parte, não me passa pela cabeça que o Paulo Lacerda esteja envolvido nisso”. Pelo visto, o tema grampo ainda vai render.


Primeiro ato
Assim que o presidente Lula decidiu afastar a diretoria da Abin, a turma palaciana que observa os movimentos da Policia Federal e dos agentes da Agência passou a rezar na esperança de que a atitude presidencial seja suficiente para acabar com a disputa entre a ala que hoje comanda a PF e aquela que mandava na Abin.

Problemas à frente
Candidata do PCdoB à Prefeitura do Rio de Janeiro, Jandira Feghali começa a expressar seu descontentamento com o PT que, em vez de engrossar a sua campanha para lhe dar seis minutos na TV, preferiu lançar Alessandro Molón, que ainda não decolou. A turma comunista considera que Jandira teria mais chances se os dois estivessem numa chapa só. Está tudo no caderninho para cobrar depois do governo federal.

Divã tucano
Amanhã tem reunião da Executiva Nacional do PSDB. Além do caso da captação de conversas do presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), Gilmar Mendes, o comando tucano pretende avaliar a situação do partido nas capitais com ênfase em São Paulo. Os observadores que passaram por lá no fim de semana saíram com a impressão de que o afastamento entre José Serra e Geraldo Alckmin é irreversível.

Alívio
Começou a pingar algum dinheiro na campanha de Geraldo Alckmin. Seus aliados festejaram, mas, por enquanto, está que nem a chuva de Brasília. Só um pouquinho, para melhorar a oxigenação. Se vem mais, só Deus sabe.


Se não fosse o recesso…
…branco, o Senado poderia votar esta semana o projeto de lei que pune os grampos ilegais. Só que, nestes quatro dias letivos, os senadores estão cada um no seu quadrado. Sabe como é, dois terços deles estarão em campanha daqui a dois anos.

No cafezinho

Não colou/ Na reunião com os políticos ontem o presidente Lula aproveitou para comentar a eleição paulistana. “É, o Kassab falou que é meu amigo, que gosta de mim. Também gosto dele. Mas eu sou Marta”, comentou Lula, referindo-se aos elogios que tem recebido do prefeito-candidato de São Paulo, Gilberto Kassab.

Avisos de Lula e dos céus/ Antes do anúncio oficial do afastamento de Paulo Lacerda da chefia da Abin, políticos que estiveram com Lula disseram ter tido a impressão de que os elogios do presidente ao delegado eram do tipo “visita da saúde”, aquela que ocorre às vésperas da morte. Foi tanta tensão no fim de semana para decidir o que fazer que até choveu em Brasília, depois de 123 dias sem cair uma gota d’água.

Em forma I/ O senador Pedro Simon (PMDB-RS, foto) se recuperou rápido da queda em frente ao Ministério de Minas e Energia, na semana passada, que até já faz piada do incidente: “Tem duas versões para o meu tombo: a primeira é a que eu caí de velho. A segunda é que, quando souberam que eu ia ao Ministério, tentaram me derrubar antes de eu chegar lá”.

Em forma II/ Em tempo: Simon tem fama de ser craque em discursos que levam ministros a pedir demissão dos respectivos cargos. Foi assim com Luiz Carlos Mendonça de Barros, quando era ministro das Comunicações do governo Fernando Henrique Cardoso.

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