terça-feira, janeiro 16, 2007

Entrevista - Antonio Patriota: Embaixador quer levar aos EUA visão brasileira da região


ELIANE CANTANHÊDE
Folha de S. Paulo
16/1/2007

Diplomata pretende evitar que americanos julguem casos como o de Chávez de maneira "estereotipada"

ANTONIO Patriota assume em março a mais disputada embaixada do Brasil, a de Washington. Segundo explica ele, em típico "diplomatês", uma de suas funções será apresentar "a nossa compreensão do quadro regional" para evitar que os EUA julguem fenômenos como Hugo Chávez de maneira "precipitada ou estereotipada".

FOLHA - A percepção de que o Brasil deu preferência a outros países em detrimento dos EUA pode criar embaraço à sua nova função?
ANTONIO PATRIOTA - Discordo. Talvez a explicação para essa percepção é que o que há de mais inovador na política externa do governo Lula não é a relação com os EUA, porque essa relação é importante, complexa, já há muito tempo. O que há de mais novo são as iniciativas envolvendo Índia, Brasil, África do Sul, a Cúpula Mercosul-Oriente Médio. Mas vamos olhar os números das exportações para os EUA. Nos quatro anos que antecederam a posse do presidente Lula, elas aumentaram US$ 5 bilhões. Nos quatro anos do governo Lula, aumentaram US$ 10 bilhões. Pode-se falar num amadurecimento da relação, que significa atenção às análises que não sejam coincidentes.

FOLHA - A Alca está morta?
PATRIOTA - Não. Houve uma redefinição de contornos que levou ao acordo de Miami, prevendo acordos plurilaterais nas áreas em que um ou outro participante não quisesse assumir novas responsabilidades. Víamos como problemático o fato de a Alca parecer menos uma iniciativa voltada para a abertura de mercado -que nos interessa muito e pela qual vamos continuar trabalhando- e mais um esforço de harmonização de regulamentos e leis, por exemplo, na área de propriedade intelectual.

FOLHA - O ministro Amorim diz: o Brasil queria abertura de mercado, e os EUA queriam exportar suas leis, defender suas patentes.
PATRIOTA - Exatamente. Na área também de investimentos, de compras governamentais. Aí não interessou para o Brasil, porque aquele modelo teria sido problemático para o nosso desenvolvimento industrial. Interessante registrar que essa avaliação se disseminou muito, até mesmo em setores que pareciam mais simpáticos à Alca.

FOLHA - Então, a Alca morreu.
PATRIOTA - Olha...Algumas pessoas preferem dizer que está hibernando.

FOLHA - Quais os prazos para fechar um acordo?
PATRIOTA - Se houver um esforço de conclusão acelerado, ela pode se concluir ainda antes do fim da vigência do TPA [Trade Promotion Authorities], a autorização especial que o Congresso dá para o Executivo negociar acordos comerciais.

FOLHA - Até junho ou julho?
PATRIOTA - Há vozes no Partido Democrata admitindo até a possibilidade de prorrogação do TPA para além de junho ou julho. Mas o desejável seria que o acordo fosse fechado antes.

FOLHA - E quanto à vitória dos democratas nas últimas eleições? São mais protecionistas e poderiam ser mais duros nas negociações?
PATRIOTA - O que se comenta é que farão um esforço para promover a inclusão de cláusulas trabalhistas e ambientais nos acordos, inclusive nos que estão em pauta para serem aprovados pelo Congresso dos EUA, com Peru e Colômbia.

FOLHA - Isso pode servir como barreira a exportações brasileiras.
PATRIOTA - Pode, mas pode favorecer a integração regional.

FOLHA - Sabe como isso soou? Uma aliança latino-americana contra o protecionismo americano. Uma ameaça?
PATRIOTA - Não acredito que se chegue a isso, até porque o governo americano dá demonstrações de querer relançar as negociações na OMC, coisa que interessa muito à região. Não tive intenção de fazer ameaça. Há mais de uma maneira para olhar isso. Tem que ver crise como oportunidade também.

FOLHA - Há possibilidade de o Brasil negociar acordos em separado, como fizeram outros países?
PATRIOTA - Apesar dos acordos bilaterais, o comércio do Brasil com os países sul-americanos aumentou muito mais do que o comércio dos EUA com esses mesmos países. Indica que estamos acertando na região.

FOLHA - Chávez na Venezuela, Morales na Bolívia, Noriega na Nicarágua. Esse perfil não pode prejudicar as relações com os EUA?
PATRIOTA - A Venezuela é o segundo parceiro comercial dos EUA na América Latina, e o Brasil é o terceiro. Retórica à parte, isso já diz tudo.

FOLHA - E as investidas de Chávez e Morales rumo à nacionalização de setores importantes para os EUA?
PATRIOTA - Se olharmos para a América do Sul, todos os governos foram democraticamente eleitos. Quais são as outras regiões do mundo em desenvolvimento sobre as quais se possa dizer isso? Acho que nenhuma outra. Isso é que importa.

FOLHA - Na visita de Condoleeza Rice ao Brasil, ela disse que a legitimidade eleitoral era apenas um dado da democracia.
PATRIOTA - É um dado, mas é fundamental. Outro aspecto é que têm sido eleitos na região líderes que dão importância à agenda social. Isso é relevante numa região tão marcada por desigualdades. O agravamento dessas desigualdades pode levar ao enfraquecimento da democracia. A ênfase no investimento social é positivo.

FOLHA - As últimas novidades do governo Chávez, como reeleições sucessivas, se enquadram em passos pela democracia?
PATRIOTA - Até 1950 e poucos, os americanos tinham reeleições por tempo indeterminado. Franklin Roosevelt foi eleito quatro vezes.

FOLHA - O Brasil se orgulha de servir como mediador de crises na região. O sr. vai ser parte dessa tática?
PATRIOTA - O presidente tem dito que você não pode buscar o desenvolvimento ignorando os países à volta. Estamos todos no mesmo barco. Isso contaminou a ação externa brasileira.

FOLHA - A Unctad (órgão da ONU), detectou que a América Latina foi a única região que perdeu investimento estrangeiro em 2006. O Brasil não é afetado por essas investidas da "república socialista do século 21" de Chávez?
PATRIOTA - Você me fez lembrar de uma frase da Condoleeza Rice: "Eu me recuso a "chaveizar" a relação do Brasil com os EUA". Eu também. Temos uma boa relação com a Venezuela, e é preciso olhar o capitalismo do século 20 da Venezuela e ver que também não tinha nada para ser aplaudido. Um país com tantos recursos naturais que não traduziu isso num desenvolvimento econômico e social.

FOLHA - O sr. poderá ser porta-voz da região junto aos EUA?
PATRIOTA - No máximo, podemos apresentar da maneira mais clara possível nossas análises, ponderações e a nossa compreensão do quadro regional para que não haja uma tendência a categorizar de maneira precipitada ou estereotipar, para que haja uma compreensão dos fenômenos dentro de sua dimensão real.

FOLHA - O sr. disse que o Brasil poderá ter um papel de mediador entre Cuba e os EUA.
PATRIOTA - Não disse que o Brasil pode ser mediador. Disse que não nos furtaremos a compartilhar com os americanos nossas análises e ponderações.

FOLHA - Traduzindo do "diplomatês", o que significa?
PATRIOTA - Cuba é assunto da política interna nos EUA. A comunidade de origem cubana em Miami tem peso político grande. Há um prisma muito particular pelo qual os EUA vêem a questão cubana. E não é o prisma brasileiro.

FOLHA - Qual é o prisma brasileiro?
PATRIOTA - Com Cuba, particularmente, temos o desejo de evitar que haja acirramento de tensões desnecessariamente.

Diplomata atuou na ONU com Amorim

Antonio de Aguiar Patriota é casado há 27 anos com a americana Tania, que conheceu como estudante de filosofia em Genebra, onde ambos acompanhavam os pais diplomatas. Hoje, ele está a caminho da embaixada de Washington e Tania trabalha há três meses num órgão da ONU no Haiti.
Como despedida, caminhou por cinco dias pela Chapada Diamantina, na Bahia. Caminhar é um dos seus "hobbies".
Aos 52 anos, ele é considerado excessivamente "jovem" para comandar a principal embaixada do Brasil -ou melhor, de qualquer país do mundo. Mas se diz animado.
Filho do embaixador Antonio Patriota, ele já morou na Europa, na Ásia, na América do Sul e nos EUA. E tem um padrinho forte: o ministro Celso Amorim, com quem serviu diretamente na missão da ONU em Nova York, em negociações multilaterais em Genebra e em Brasília.
Atualmente, é subsecretário de assuntos políticos, que "cuida do mundo desenvolvido" e chefia, por exemplo, a futura embaixadora na ONU, Maria Luiza Viotti.
A tese de Patriota no curso do Itamaraty foi sobre o Conselho de Segurança da ONU, mas ele jura que não embarca para Washington com a idéia fixa de uma cadeira permanente para o Brasil na entidade.

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