Entrevista:O Estado inteligente

quinta-feira, junho 15, 2006

Lula, Ronaldo, essa vida banal... Por Reinaldo Azevedo

Primeira Leitura

Os antropófagos estão com sede e com fome. E querem Ronaldo, o
Fenômeno, em postas. Dá nojo ler os sites esportivos, especialmente o
texto de alguns cronistas que não abrem mão de fazer proselitismo
petista nem quando comentam um jogo de futebol. Vá lá: no país em que
o presidente faz política como quem joga uma pelada, a pelada pode
perfeitamente bem ser analisada segundo alguns critérios que dizem
respeito à política e seus rituais. Os dois discursos fora de lugar
revelam um pouco do que nós somos como país. Então lá vou eu de Lula
e Ronaldo.

Lula
O peladeiro não cansa de nos chocar. Os tolinhos dizem que apontar
suas batatadas (leia texto de Rui Nogueira) é manifestação de
preconceito contra um ex-operário ou algo assim. Jornalistas que
também não se cansam de ser oficialistas tratam com desdém os
críticos do líder petista: sentem-se parte de sua trajetória e olham
para o presidente com condescendência e generosidade. Não importa a
quantidade de bobagens que pense, diga ou faça, o homem deve ser
saudado como uma espécie de doce vingança do reprimido que,
finalmente, acordou “neste país”. E teria acordado manso, não
disposto a comer o nosso fígado, os culpados pelas iniqüidades da
terra...

É bem verdade que, dia desses, ele passou a mão na cabeça dos líderes
do PCC — foram crianças abandonadas, chutou — e que seu governo
estimula o vandalismo dos sem-terra, seja lá qual for a sua bandeira.
Também é certo que gastou 68 vezes mais para eleger Aldo Rebelo
presidente da Câmara do que investiu no Fundo Nacional de Segurança
no ano passado. Mas tudo isso se perdoa. Eles, de fato, acreditam que
“nunca antes neste país” etc. e tal. Trata-se de uma leitura
preconceituosa porque faz de Lula um inimputável. Ele, espertíssimo,
sabe disso e avança firme na trilha. Contará com a boa vontade
daqueles que têm certeza de que o país é assim desde 1500 — ou, pior,
desde a formação de Portugal...

Quando se trata de evidenciar virtudes, Lula se diz sempre inaugural;
quando os defeitos de seu governo vêm à luz, eles seriam apenas a
reiteração do que sempre se viu. E apontá-los se torna manifestação
de um preconceito. “Fosse um sociólogo, ninguém estaria protestando”,
dizem. Que os marqueteiros façam isso, ok. Que uma parte da imprensa
caia... Bem, das três, uma: burrice, má-fé ou ideologia. Uma soma de
tudo também não se descarta.

Dias desses, todos noticiamos que o tucano Geraldo Alckmin afirmou
que, se eleito, manteria o Bolsa Família. E ele lembrou que o
programa teve início no governo FHC. A mídia deu destaque à coisa.
Mas atribuiu a informação sobre a paternidade do programa a Alckmin,
como se fosse matéria controversa; como se, sei lá, um petista
pudesse aparecer para dizer: “Mentira! Nós começamos tudo”. Haverá o
dia em que Lula fará um auto-elogio por conta da Lei de
Responsabilidade Fiscal e das privatizações, e o jornalismo se
calará. Noé, Moisés, Lula: a única corte de apelação é Deus.

Ronaldo
O moço teve a ousadia de dar ao presidente uma resposta de que muita
gente mais lida e estudada do que ele se dispensa. E jogou muito mal
— ou não jogou nada — contra a Croácia. Pronto! “Amarelou”, “estava
grogue”; quem era “o bêbado” ali? Tanto o seu talento fora de série
nos faz falta, que ter estado praticamente ausente em campo
evidenciou o quanto se depende dele. A alternativa é Parreira chamar
Ronaldinho Gaúcho, propor a naturalização ao resto do time do
Barcelona e pedir o chapéu.

Mas isso ainda é o de menos. O jogador que deu ao país o
pentacampeonato, em 2002, é tratado como carne queimada. Alguns têm a
petulância de apelar às instâncias da fria racionalidade — como se
fosse sinônimo de estupidez — para propor a sua imediata
substituição, sem nem mesmo uma segunda chance. Já cumpriu a sua tarefa.

Ofereça-se ao povaréu um bode expiatório para que ela possa se
regalar, demonstrando que não pode mesmo haver grandeza; que um mesmo
e miserável destino a todos iguala; que a decadência chega para todo
mundo. Volto à minha personagem símbolo da mesquinhez humana: a
criada Juliana, de Primo Basílio, de Eça de Queiroz. Não tem essa de
“madame”, de “Fenômeno”, de aristocratas do espírito: todo mundo
morre, mano! Todo mundo é cadáver adiado.

É claro que tal noção de igualdade poderia contribuir para que vícios
e virtudes convergissem para uma espécie de estabilidade da
mediocridade, num país meio insosso, sem grandes talentos, mas também
sem manifestações de horror. Um país onde fosse sempre terça-feira.
Nem a melancolia das segundas, quando nos damos conta de nossa
condição de miseráveis famélicos à cata do pão nosso, nem aquela
ânsia triste das quintas, condenados a sair por aí, a pedir
emprestado um pouco das falsas felicidades alheias, como a desafiar o
mundo: “Sou mais do que esse corpo que se vai”.

Mas não conseguimos ainda a terça-feira da mediocridade estável.
Queremos, como povo, bodes expiatórios para malhar nossas frustrações
e bodes exultórios que nos possam levar a algum futuro incerto, ainda
que por força de uma magia que rejeita a consideração do esforço.
Nossos mitos todos exaltam apenas o presente eterno, trocando um
bezerro de ouro por outro.

É grande a chance de Lula ser reeleito e de Ronaldo ser substituído.
As nossas terças-feiras estão bem abaixo da linha da mediocridade.

De volta a Lula
Toda aquela aparente grosseria é método. Um dia depois de Kaká ter
feito o gol da vitória do Brasil sobre a Croácia, Lula se deixa
fotografar com uma camiseta verde e amarela com o trecho extraído do
Salmo 22: "O Senhor é meu pastor; nada me faltará". Reportagens já
cansaram de noticiar que essas são as palavras que mais mobilizam o
jogador evangélico.

É isso aí. Lula já pegou carona na volta por cima de Ronaldo, o
Fenômeno (que lhe deu uma tamancada), e, nesta quarta, surfou na onda
de Ronaldinho Gaúcho e de Kaká. Parece jogar sozinho.

[reinaldo@primeiraleitura.com.br]
Publicado em 14 de junho de 2006.

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