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Após algumas semanas de ataques de nervos e alta volatilidade nos
mercados financeiros, dá para fazer as primeiras avaliações desta
temporada de crise.
Dá, em primeiro lugar, para dizer o que não é. Não se trata do ajuste
macroeconômico global há tanto tempo esperado.
O maior desequilíbrio estrutural é o enorme rombo externo (déficit em
conta corrente) dos Estados Unidos, que, em março, estava em US$ 805
bilhões. É quanto os americanos gastam a mais do que faturam no mundo
em mercadorias, serviços e transferências unilaterais.
Esse rombo só não se transformou em hecatombe cambial porque Japão,
China, Índia e outro punhado de países asiáticos juntam reservas
constituídas basicamente de títulos do Tesouro americano cuja compra
leva de volta aos Estados Unidos os dólares que sobrariam no resto do
mundo.
Este é um mecanismo não sustentável de cobertura do déficit. Chegará
o dia em que os asiáticos não terão o que fazer com montanhas de
reservas ou em que não mais suportarão a inflação, porque a simples
estocagem de títulos americanos implica emissão de moeda local.
Por aí fica mais fácil entender que o ajuste macroeconômico exigirá
substancial desvalorização do dólar diante das outras moedas fortes
para que as exportações americanas cresçam e as importações encolham.
Até agora, as autoridades americanas vinham insistindo em que parte
desse efeito era produzido pela revalorização do yuan, a moeda
chinesa, providência que o governo de Pequim se recusa a tomar.
O treme-treme nos mercados está produzindo certa revalorização do
dólar, movimento contrário ao que se esperaria de um ajuste
estrutural da economia mundial. De 15 de maio até ontem, as cotações
do dólar subiram 1,58% em relação ao euro e 4,44% em relação ao iene
japonês.
Isso acontece porque os administradores de patrimônio financeiro se
deram conta de que a inflação americana é mais alta do que a
esperada. Isso, por sua vez, pede juros mais altos para ativos em
dólares, passo que o banco central americano (Federal Reserve, o Fed)
tratará de dar nos próximos meses.
Bastou que se consolidasse essa percepção para que fosse acionada uma
enorme recomposição de carteiras de aplicações em direção a ativos em
dólares com correspondente rejeição de outras aplicações,
especialmente ações, commodities e títulos de países emergentes.
Ao contrário do que muitos vêm automaticamente repetindo, esta não é
propriamente uma corrida para aplicações de segurança à moda antiga.
Basta conferir o que está acontecendo com o ouro, um dos milenares
refúgios para o capital amedrontado. Como o gráfico acima está
mostrando, os preços do ouro começaram a cair tão logo começou o
movimento de recomposição de carteiras. De 11 de maio até ontem,
baixaram nada menos que 22,2%.
O economista inglês John Maynard Keynes o chamou de relíquia bárbara.
De fato, ouro não é commodity. Só serve para próteses dentárias e
para enfeitar nossas mulheres. O mesmo Keynes sugeriu que o melhor
tratamento a dar para o ouro seria transferi-lo para um cargueiro que
seria afundado sobre uma dessas fossas abissais dos oceanos. Como
essa sugestão não foi aceita, o ouro continua desempenhando o papel
de ativo financeiro.
Com as commodities metálicas aconteceu coisa semelhante. No mesmo
período, as cotações do cobre caíram 17,1%; as do estanho, 18,1%;
alumínio, 19,2%; e zinco, 16,2%.
Quer dizer, desta vez, o efeito manada foi a corrida para o dólar e o
abandono de certas posições em ações, commodities e ouro, para
aproveitar os juros mais altos dos títulos públicos dos Estados Unidos.
No entanto, por mais que puxe pelos juros, o Fed muito dificilmente
os elevará para além dos 6% ao ano ou, quem sabe, até um pouco mais.
Assim, as cobiçadas T-Notes de 10 anos, não deverão pagar um retorno
(yield) substancialmente acima dos 6% ao ano, um pontinho porcentual
acima do que vem pagando hoje.
A pergunta seguinte está em saber se apenas essa diferença
justificaria esse desembestamento para ativos em dólar.
Enfim, a irracionalidade dos mercados também tem limites. Logo
chegará o dia em que a manada amedrontada se dará conta de que perdeu
rentabilidade. E voltará a procurar as ações, o ouro, as commodities
e os papéis de países emergentes.