Entrevista:O Estado inteligente

quarta-feira, abril 19, 2006

Zuenir Ventura Uma praga distante

O GLOBO


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Ao contrário das imagens de atrocidades, que causam espanto e horror, a foto de ontem, em que iranianos aparecem se inscrevendo como voluntários para morrer, nem chega a provocar revolta, mas uma sensação de incapacidade para tentar entender as motivações que levam aqueles jovens a se despojarem conscientemente daquilo que nos prende ao mundo: o instinto de conservação, ou seja, o medo da morte e a vontade de viver. Estão ali com a tranqüilidade de quem se candidata a um emprego de futuro, não ao suicídio com uma bomba amarrada na cintura.

Não é a primeira vez que se vê uma fila de voluntários querendo ir lutar numa frente de batalha. Foi comum nas I e II Grande Guerra, assim como em todas as outras. O voluntariado é uma prática que foi sempre estimulada. A diferença é que antes os jovens se arriscavam a morrer para voltar como heróis. Não iam em busca da morte e sim da glória aqui na Terra. Agora não. Aqueles homens-bomba iranianos não pensam em voltar. A exemplo dos seus colegas fundamentalistas iraquianos, eles buscam o martírio, querem se imolar; utilizam a autodestruição para alcançar a glória — do lado de lá, no além, num paraíso cheio de virgens (cada vez menos, como dizia uma daquelas charges amaldiçoadas da Dinamarca).

O Irã não é o Iraque. Tudo indica que, se ainda não possui todas as condições de produzir sua bomba atômica, pode estar a caminho e já tem mísseis balísticos com alcance de 10 mil quilômetros. Dois especialistas do Conselho Nacional de Segurança dos EUA concordam que uma intervenção militar no país de Mahmoud Ahmadinejad seria mais desastrada para os interesses americanos do que a guerra no Iraque. "O Irã dispõe de forças muito superiores às da AlQaeda", disse um deles ao "New York Times" no domingo.

Além dos 40 mil homens-bomba prontos para atacar alvos nos EUA e na Europa — conforme anunciou o jornal britânico "Sunday Times" — o Irã contaria ainda com a colaboração do Hezbollah, a organização terrorista libanesa. Segundo o outro especialista americano, o Irã tem possibilidades de complicar a situação no Iraque. "A brigada Badr e outras milícias xiitas poderiam lançar uma campanha ainda mais assassina contra as tropas americanas e britânicas."

É isso que faz do terrorismo moderno essa força diabólica que não vencerá, mas que talvez também não seja vencido, o que não o impede de continuar infernizando o mundo. Ainda bem que pelo menos dessa praga estamos distantes, embora o filósofo francês Alain Finlielkraut advirta para a "globalização do ódio" e chame os terroristas de "fanáticos sem fronteiras".


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