Entrevista:O Estado inteligente

quarta-feira, abril 19, 2006

Merval Pereira Cultura da diferença

O GLOBO
   

LONDRES. A Academia da Latinidade, criada em 1999 para discutir a questão do multiculturalismo dentro de um universo já ameaçado pelas lógicas hegemônicas mesmo antes dos atentados de 11 de setembro nos Estados Unidos, começa hoje um seminário no Azerbaijão para discutir a "Cultura da diferença na Eurásia — Passado e presente no diálogo da civilização".

A idéia que originou a Academia era poder enfrentar o diálogo com o mundo islâmico nas suas diversas pontas: a do mundo iraniano, o que foi feito na conferência de Teerã (agora novamente em evidência com a crise envolvendo o enriquecimento de urânio pelo Irã); depois Alexandria, no Egito, e o mundo árabe, e em seguida o mundo turco, com as conferências de Ankara e Istambul do ano passado.

Trata-se, portanto, de uma seqüência de conferências até chegar ao Azerbaijão, para discutir o problema das comunidades islâmicas na região eurasiana, saídas da utopia comunista para reencontrar suas realidades culturais. Daí a proposta feita por especialistas russos como a professora Madina Tlostanova, de que a latinidade fosse ao Cáucaso para discutir o reviver islâmico na região. Ela fará uma palestra sobre as difíceis intermediações culturais entre as culturas islâmicas e a modernidade. A professora Nilufer Gole falará sobre o futuro do encontro entre a Europa e o Islã.

O secretário-geral da Academia, o sociólogo e filósofo brasileiro Cândido Mendes, ressalta a relevância de alargar a discussão após o conflito do Iraque e a campanha desenvolvida no Ocidente, classificada como "uma nova Cruzada". O objetivo principal dos seminários é pôr a Academia como canal de diálogo mais amplo com a inteligência ocidental, "numa busca crítica em relação aos Estados Unidos e à retomada dos fundamentalismos, baseada no impasse e em uma cultura de desconfiança universal ".

Segundo Cândido Mendes, "diante do risco da hegemonia anglo-saxônica com a globalização, a latinidade pode ser a diferença". Na sua definição, "insistimos na interlocução com base na multiplicidade da latinidade". E cita alguns dos integrantes da Academia como símbolos dessa multiplicidade que pode fazer a diferença: Frederico Maior, ex-diretor-geral da Unesco, pela Espanha; Mário Soares, essencialmente o português; Gianni Vatimo, talvez hoje o maior filósofo italiano, e a série dos franceses: Alain Touraine, Jean Baudrillard, Edgard Morin, como principais definidores da visão pós-moderna do pensamento francês." Alain Touraine, por exemplo, falará sobre a latinidade entre civilizações e as nações.

A América Latina, além do próprio Cândido Mendes, é representada pelo mexicano Carlos Fuentes, pelo sociólogo brasileiro Hélio Jaguaribe e pelo sociólogo uruguaio Enrique Larreta na região do Prata. A maioria deles estará presente na conferência do Azerbaijão, que está apoiada em algumas idéias centrais, na definição de Cândido Mendes: saber o que é cultura islâmica em países que mantêm a secularização e ainda têm a herança da pax socialista, e como se comporta a nova tendência turca, que tende a se ampliar.

Um tema fundamental será o oleoduto que vai jogar petróleo do Cáspio no Mediterrâneo, através da Anatólia, e reforça, numa nova emergência geopolítica, o Azerbaijão, a Georgia e a Turquia. É o famoso oleoduto Baku-Tbilisi-Ceyhan, que está sendo feito pelos Estados Unidos, uma alternativa na região de estabilização final do petróleo saudita e do Oriente Médio, criando toda uma nova perspectiva no Cáucaso, num mundo em que as fontes de energia se transformam cada vez mais em fontes de poder político.

Recentemente, o ministro do Exterior do Azerbaijao veio ao Brasil conversar com a Petrobras, e o Brasil vai dar autonomia à representação em Baku e abrir uma representação no Turquemenistão. Hoje o embaixador em Ankara, na Turquia, Cesário Meloantonio, acumula a representação no Azerbaijão, e estará presente a conferência para falar sobre a importância politica do oleoduto.

Outro debate fundamental será a entrada da Turquia na Comunidade Européia. Com o reforço do oleoduto, a Turquia tem um cacife do ponto de vista ocidental inteiramente novo, que ela vai jogar pesado nas negociações, inclusive, na análise de Cândido Mendes, com uma visão de autonomia diante da satelitização americana da Europa do Leste, "o que torna a Europa dos 25 muito mais fraca do que a Europa dos Seis".

Outro tema da conferência é como a latinidade pode ser protagonista desse multiculturalismo emergente. Ao mesmo tempo que tem uma raiz turca, os habitantes do Azerbaijão têm uma raiz mongólica, hoje são herdeiros do socialismo, e mantêm o secularismo de Estado. A professora Leyla Alieva falará sobre o Azerbaijão na fronteira de três poderes: Irã, Rússia e Turquia.

Na parte dedicada a temas como religião, secularização e modernização, Bayram Balci falará sobre políticas religiosas nas repúblicas turcas da Ásia Central e no Cáucaso, e Hikmet Hajizade sobre o eixo Ocidente-Oriente no Azerbaijão. O filósofo brasileiro e ex-ministro da Cultura Sérgio Paulo Rouanet falará sobre "razão e fé num contexto intercultural", enquanto a acadêmica norte-americana Susan Buck-Morss analisará a teologia política na era pós-moderna.

Uma parte da conferência será dedicada ao tema "Hegemonia e Dominação", onde Cândido Mendes falará sobre a sobrevivência do multiculturalismo e Gianni Vattimo sobre o papel da universidade no mundo globalizado.

Cândido Mendes está interessado em debater "como se pode pensar num mundo eurasiano que escape do diálogo chinês-russo, criando naquela região uma força política que, no jogo das hegemonias, permita uma visão diferente".

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