Entrevista:O Estado inteligente

sábado, abril 22, 2006

Zuenir Ventura A metade que fica

O GLOBO

Depois de ter a casa assaltada com violência e ameaça de tortura — sua mulher quase teve um dedo decepado pelos bandidos — o senador Gilberto Mestrinho, do Amazonas, anunciou que não mais voltará ao Rio, "nem mesmo para fazer a mudança". Ele se junta assim aos 51% dos cariocas que, de acordo com o Instituto de Pesquisa Social, deixariam a cidade, se pudessem, por causa da insegurança. O levantamento não fornece as razões da quase metade que fica, ou seja, 47%, já que 2% não responderam. Numa mensagem carregada de desencanto e revolta em relação ao Rio, ou ao que foi feito do Rio, o leitor Marco Rocha, do Leblon, relacionou cerca de 20 categorias sociais que permaneceriam na cidade, segundo ele.

"Querem ficar os esmoleiros e falsos deficientes físicos das esquinas, mendigos que são tão assíduos em praças e jardins públicos quanto os bustos e as estátuas que os decoram", diz ele, para continuar: "Querem ficar os moradores de rua que dormem, comem, defecam, urinam e fazem sexo debaixo de qualquer marquise, a qualquer hora do dia ou da noite sem serem incomodados." "Querem ficar os pivetes soltos nas ruas que, sem nenhum receio, roubam para fumar maconha e cheirar cola, cocaína ou crack."

A lista inclui ainda os "funcionários públicos ineptos, mal-educados, arrogantes", os "malabaristas de sinais de trânsito", "os presos do chamado regime-aberto que estão livres durante o dia para roubar e matar", os "vendedores da fé", os policiais que se confundem com bandidos, os camelôs de mercadorias clandestinas. Não escapam nem os turistas ("geralmente desqualificados e de quinta categoria"), ou os jogadores de futebol "rejeitados por clubes de outros estados", nem os aposentados ("que recebem humilhação e um dinheiro miserável").

Embora pretenda ficar, não consegui me enquadrar em nenhum desses segmentos. À medida que ia lendo a relação, me dizia que, se o leitor fosse mesmo coerente, iria embora da cidade. Pois é o que ele anuncia. "De minha parte, vou seguir os passos dos cidadãos de bem que, depois de seqüestrados ou assaltados, foram viver em outras cidades. Vou seguir os passos das grandes empresas que foram embora do Rio à procura de lugares mais seguros. Até nunca mais, Rio. Eu também estou indo."

Espero que aconteça com ele o que acontece comigo. Quando tenho impulsos de me mandar, e não há quem não os tenha tido pelo menos uma vez, procuro dar uma escapada, se possível para longe e pelo tempo de sentir saudade. Acho ótimo viajar para fora do Rio, mas melhor ainda é voltar. Apesar de tudo.

Arquivo do blog