O GLOBO
Escrevi dia desses sobre uma epígrafe que está no livro "The captive mind", de Czeslaw Milosz (Penguin Books), que recomendo vivamente. É uma espécie de ditado ou um aforismo espichado atribuído a um velho judeu da Galícia, que traduzo assim: "Quando alguém está 55% certo, isso é muito bom e não há discussão. Se alguém está 60% certo, isso é maravilhoso, é uma grande sorte, ele que agradeça a Deus. Mas o que dizer sobre estar 75% certo? Os prudentes já acham isso suspeito. Bem, e sobre estar 100% certo? Quem quer que diga que está 100% é um fanático, um facínora, o pior tipo de velhaco."
A inteligência está de tal sorte em baixa, que um leitor me mandou um e-mail dizendo que eu era o próprio velhaco. O sujeito não entendeu o texto como uma ironia. Não percebeu que o autor da fala defende é a convicção, não o contrário. A onda do momento, aqui e alhures, é aquiescer com a razão dos inimigos. A suposição boboca é esta: se a sua "verdade" fosse universal, é claro que o outro também estaria convencido. Se não está, talvez reste a ele alguma razão — quiçá toda ela.
A dúvida revela, a um só tempo, uma crença ingênua numa espécie de supra-razão, a que todos poderíamos chegar se convencidos por bons argumentos, e um relativismo extremo: "O que é verdade para mim pode não ser para o outro." E é assim que somos levados, cotidianamente, a duvidar dos mais óbvios e elementares valores da nossa civilização — a começar da democracia. Enquanto uns acreditam no iluminismo a ser descoberto pelos bárbaros, outros procuram elevar a metafísica bárbara à condição de um saber superior, algo que nosso racionalismo mesquinho não nos teria permitido vislumbrar.
Isso explica que sejam tantos os "orientalismos" a que se dedicam os ocidentais. Chegam a ir para a Índia para aprender verdades essenciais que teriam escapado a Santo Tomás, Voltaire, Montesquieu ou Locke. Os indianos, por sua vez, alheios à possibilidade de que, de reencarnação em reencarnação, uma lagartixa possa virar Schopenhauer, desenvolveram tecnologia nuclear e tendem a dominar o mercado de software. Eles não se importam em emprestar alguns mantras ao Ocidente desde que tenham acesso a tecnologia e mercados. O mesmo vale para a China e seus saberes milenares. O trabalho escravo rende mais do que a meditação. Melhor se a meditação faz render mais o trabalho escravo.
A crença do momento de um bom imbecil relativista é que os EUA, com seu unilateralismo (?), estaria empurrando o pobre Irã para o radicalismo. A teoria conspiratória que censura a deposição do facinoroso Saddam Hussein está em curso novamente: Washington só estaria interessado no petróleo dos aiatolás. Ainda que fosse, e daí? É o mínimo que espero do império. Ou deveria ele ceder às chantagens do delinqüente Mahmoud Ahmadinejad e, à moda de Lula, o Apedeuta, oferecer ao mundo, como alternativa, proálcool e biodiesel de mamona, babaçu e saliva?
Na questão específica da energia nuclear, entre a estupidez e a cara-de-pau, pergunta-se: "Se Israel pode ter a bomba nuclear, por que o Irã não pode?" Porque um já teria sido varrido do mapa sem ela (embora tenha vencido todas as guerras convencionais), e o outro quer a arma justamente para varrer o primeiro do mapa. É a diferença entre armamento de ataque e de dissuasão. Quem ignora a distinção faz a defesa objetiva do terrorismo nuclear.
É óbvio que não vou dar uma piscadela a meus adversários teóricos e reivindicar apenas 55%, 60% ou mesmo os já suspeitos 75% de certeza. Quero os 100%, bem próprios daqueles aos quais a esquerda e os politicamente corretos chamam de "velhacos" ou "facínoras". O Irã não pode desenvolver tecnologia nuclear que leve à bomba. E se insistir? Então será preciso que o Ocidente — e vamos ver como se comporta a Europa, no meio do caminho de uma guerra atômica — faça com as instalações nucleares do Irã o mesmo que Israel fez com as do Iraque em 1981. Nem que esse ataque seja só o começo. Também tenho 100% de certeza de que a alternativa, se contada desde o fim, é muito pior.
REINALDO AZEVEDO é jornalista. E-mail: (mahfud@uol.com.br).
Entrevista:O Estado inteligente
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