Um dia, no começo de janeiro, oito homens jogavam futebol na quadra de uma escola primária em Putnam County, 80 km ao norte de Nova York. O vigia percebeu e mandou que saíssem, porque era hora de aula. Quando se recusaram, chamou a polícia. Levados ao juiz, foram acusados de violação de propriedade.
Ainda assim, o juiz fixou em US$ 1 mil a fiança para que sete deles pudessem responder ao processo em liberdade. O oitavo, por não ter prova de residência, teria de pagar US$ 3 mil. Enquanto isso, desconfiando de que eram estrangeiros clandestinos, o xerife do lugar acionou a Imigração. Antes que os agentes chegassem, os sete deram um jeito de pagar a fiança e partiram. O oitavo, sem o dinheiro, acabou indiciado por entrada ilegal nos EUA e removido para um presídio federal, onde está até hoje. Ele ganhava a vida consertando telhados. Tem 33 anos, cinco filhos e ficha limpa. Decerto será um dos 160 mil deportados da América a cada ano.
Até há bem pouco, a polícia acionava a Imigração apenas diante de crimes graves contra a pessoa. Hoje, um indocumentado pode passar meses na cadeia e ser expulso do país por uma infração banal de trânsito. Pouco importa que tenha emprego (como 92% dos seus iguais) e aceite ser investigado (96% deles).
Outra novidade são os Minutemen, voluntários que se organizam em comandos de caça aos imigrantes clandestinos - um divertimento mais patriótico do que jogar boliche e tomar cerveja. É verdade que nunca antes houve tantos "latinos" ilegais nos EUA: entre 11 e 12 milhões. Os brasucas, que não entram nessa conta, passam facilmente de 1 milhão.
O horror dos "anglos" - a América branca - em face deles lembra sua hipocrisia no combate à droga, que pune a oferta e poupa a procura. Em relação às respectivas populações, há seis vezes mais negros que brancos nas cadeias americanas. Grande parte dos primeiros, por posse ou tráfico. Já a sua freguesia está livre. O padrão como que se repete no caso da imigração ilegal, salvo uma ou outra ação policial para mostrar serviço.
A América atrai sobretudo os mexicanos, indocumentados ou não, e deles depende porque fazem o trabalho que os nacionais desdenham, no imenso mercado de serviços braçais ou assemelhados, por uma paga vil (ainda assim, quatro vezes maior, em média, do que a outro lado da fronteira). Na Europa, a atitude é a mesma: só muda a origem dos indesejáveis indispensáveis.
O que, aliás, levou o italiano Romano Prodi a rebater as catilinárias antiimigrantes do então primeiro-ministro Silvio Berlusconi, na campanha eleitoral italiana, com uma obviedade demolidora: "Você não pode recorrer aos estrangeiros de dia e escorraçá-los à noite." Mas nos EUA, onde o poder da direita é o que é, ela foi às vias de fato.
A maioria republicana na Câmara dos Representantes aprovou um projeto medieval que prevê, notadamente, cadeia e deportação para os imigrantes clandestinos, processos criminais contra quem os socorra e a construção de um Muro de Berlim às avessas na fronteira mexicana, com 1.100 km de extensão.
Um contraprojeto civilizado, de matriz bipartidária, para legalizar os ilegais, oferecer trabalho temporário a novos imigrantes e reforçar os insuficientes controles de fronteira nos EUA, empacou no Senado - e seu futuro é incerto. Os extremistas republicanos acham que a cartada xenófoba lhes dará votos em penca na eleição de meio de mandato de novembro.
Lembrando a campanha da direita pelos "valores familiares" e contra o casamento gay na disputa de 2004, a deputada democrata Hilda Solis, da Califórnia, disse dias atrás que a direita quer transformar os indocumentados em "bodes expiatórios", para desviar as atenções de problemas macro como a guerra civil no Iraque e o trilionário déficit do governo Bush.
Tem lógica. Os americanos estão amargamente divididos em relação aos imigrantes hispânicos (mas não aos asiáticos e eslavos, por exemplo). Seus detratores, cruzando a fronteira do preconceito, os acusam de resistir à assimilação. Falso: a mesma pesquisa que revelou que 92% deles trabalham e 96% aceitam ser investigados se isso lhes facilitar a cidadania indica que 98% querem aprender inglês.
Outro argumento é que a imigração ilegal, à razão de 600 mil pessoas por ano no último decênio e meio, graças à expansão continuada da economia americana - no mesmo período em que a América Latina dava marcha à ré ou empacava -, aumenta a exposição do país ao terrorismo. Pode ser. Mas não custa lembrar que todos os perpetradores do 11 de Setembro entraram legalmente no país.
A xenofobia seletiva da América branca, enfim, vem do seu medo de deixar de ser maioria. Nisso está provavelmente certa. Para muitos demógrafos, não se trata de discutir se, mas quando os americanos brancos serão a maior das minorias nos EUA. Isso já é real nos seus dois Estados mais populosos, Califórnia e Texas. A vez de Nova York, Arizona e Flórida está chegando. E é para o bem.
A fúria dos gringos de pele clara contra os de pele azeitonada só aumentou com as manifestações sem paralelo das semanas recentes, que reuniram bem mais de 1 milhão de indocumentados e documentados numa centena de cidades americanas - 500 mil só em Los Angeles e Dallas. O âncora Brit Hume, da Fox News, falou em "espetáculo repelente".
Para os que pensam como ele é pior: o projeto antiimigração aprovado na Câmara "despertou o gigante adormecido da política americana", constata a revista britânica The Economist. "Uma comunidade que tentava permanecer invisível subitamente concluiu que a sua invisibilidade apenas a tornava mais vulnerável", observou, por sua vez, o especialista Frank Sharry, no Washington Post.
E o blogueiro Gary Young ressaltou na edição eletrônica do Guardian, de Londres: "As demonstrações foram o primeiro exemplo global de resistência em massa ao desejo do Ocidente de criminalizar trabalhadores migrantes e transformar fronteiras nacionais em fortalezas."
A mágoa, em suma, fez os ilegais perderem o medo.