Gafes e protestos monopolizaram a atenção no primeiro encontro na Casa Branca entre os presidentes Bush, dos EUA, e Hu Jintao, da China. Prevaleceu o detalhe. Perdeu-se a dimensão do evento.
De acordo com dados do Banco Mundial para 2004 e utilizando o critério de paridade do poder de compra da moeda, Bush e Hu representam, respectivamente, a primeira e a segunda economia do mundo em termos de PIB, algo superior a um terço da produção de bens e serviços do planeta!
Mas não importa apenas o tamanho. Do ponto de vista da geração de crescimento, esses dois países constituem o eixo dinâmico da economia internacional. Isto é, geram os estímulos de crescimento de produtividade e demanda com efeitos multiplicadores nas demais regiões do mundo.
Além disso, formam aquilo que os economistas Michael Dooley, David Folkerts-Landau e Peter Garber chamaram em trabalho para a National Bureau of Economic Research de uma versão renovada do sistema de Bretton Woods. Como se sabe, a ordem monetária internacional foi reorganizada a partir de acordo realizado em Bretton Woods no Estado de New Hampshire em julho de 1944, na fase final da 2ª Guerra.
A partir daí, prevaleceu um regime de paridades fixas com o dólar e desse com o ouro até o início dos anos 70. A paridade do dólar com o ouro ficou insustentável, e a partir desse momento a maioria dos países passou a adotar regimes variados de flutuação com o dólar. Além disso, com o surgimento de novos pólos econômicos de importância, surgiram novas moedas de referência, como o marco alemão e agora o euro e o iene.
Em sua versão renovada, o sistema encerraria parte do segredo do crescimento chinês. Constituiria regime no qual a paridade fixa com o dólar (ou quase, com a recente flexibilização do yuan), a forte desvalorização da moeda e a acumulação de obrigações denominadas em dólar constituem mecanismo de crescimento acelerado liderado pelas exportações.
Nesse contexto, o déficit comercial recorde dos EUA com a China de mais de US$ 200 bilhões não representaria desequilíbrio, mas conseqüência natural dessa forma de saltar da periferia para o clube dos ricos. Tampouco seria uma maneira original, pois trajetórias semelhantes já teriam sido trilhadas na recuperação da Europa Ocidental e do Japão no pós-guerra.
Bush e Hu, portanto, não fizeram uma reunião qualquer. Comandaram uma reunião do novo sistema de Bretton Woods. O problema é que a agenda Bush-Hu está longe de contemplar os principais temas que interessam ao mundo. Nesse ponto, reside uma das principais contradições da economia globalizada. As questões são globais, mas inexistem instâncias multilaterais com suficiente poder e legitimidade.
Embora incompleta, a agenda Bush-Hu contém itens explosivos. Grande parte daquilo que pode ameaçar a atual bonança externa para os países emergentes está na mesa de discussão entre os dois líderes. Um eventual conflito com o Irã representaria enorme tensão e desorganização no mercado mundial de energia. As elevadas taxas de crescimento da China são insustentáveis diante de restrições sérias de matérias-primas e de energia em particular.
Por sua vez, qualquer retração mais séria da expansão chinesa comprometeria o atual ciclo favorável de commodities. Foram o salto da demanda externa e a melhora dos termos de troca dos países emergentes que provocaram o forte crescimento da periferia do sistema mundial. Por seu turno, os superávits comerciais da periferia permitem financiar os déficits crescentes dos EUA, manter elevada a liquidez e baixa a taxa de juros internacional.
Além disso, as fontes de preocupação transcendem os mecanismos de complementaridade entre China e EUA. O protesto de Wang Wenyi que constrangeu a cerimônia de recepção de Hu Jintao na Casa Branca é apenas um lembrete das enormes tensões que a China deverá enfrentar nas próximas décadas. É impossível conciliar uma sociedade urbana e crescentemente informada com uma ditadura.
Assim como o dólar deixou de ser uma referência única e inquestionável ao longo do tempo, escassearam as grandes lideranças mundiais. Em meio a muitas dúvidas sobre o futuro, resta apenas a certeza de que não será George W. Bush que cumprirá esse papel.
Entrevista:O Estado inteligente
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sábado, abril 22, 2006
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