Entrevista:O Estado inteligente

sábado, abril 08, 2006

MIRIAM LEITÃO Trocas sem abalos

O GLOBO

Olhem a seqüência dos fatos: o ministro da Fazenda cai em meio a um escândalo que é um desdobramento de grave e longa crise política e é substituído por um economista que, em vários momentos, fez críticas à política monetária; uma semana depois, alguns diretores do Banco Central deixam seus cargos.

Isso seria ingrediente suficiente para uma onda de abalos no mercado financeiro. Mas a troca de diretores do Banco Central foi absorvida esta semana sem o mais leve tremor no mercado. O novo ministro abandonou as críticas que fazia antes à política econômica e diz agora que ninguém rasga nota de 100, referindo-se a estragar o que está dando certo.

Tudo isso é sinal de normalidade. No Brasil, as atenções sempre estiveram concentradas demais na economia e qualquer mudança de integrantes da equipe econômica produzia uma série de especulações e incertezas. A mudança no Banco Central foi bem preparada e bem executada. Não se deixou espaço vazio. O BC anunciou a saída de Alexandre Schwartsman e de Sérgio Darcy já com os nomes dos que iriam substituí-los. Paulo Vieira da Cunha tem o perfil perfeito para o cargo. Passou grande parte da sua vida trabalhando no exterior, tem contatos, experiência e conhecimento para ser o diretor internacional. A ida de Alexandre Tombini para o cargo de Sérgio Darcy e a nomeação de Mário Mesquita para a diretoria mantém a qualidade da equipe. Mas, em outras épocas, mesmo as trocas bem preparadas, geravam confusões no mercado.

O Brasil ainda está longe, infelizmente, de ser um país normal, mas o fato de as mudanças e crises das últimas semanas não terem abalado os mercados é um ótimo sinal de que se caminha para a normalidade.

Outro sinal de normalidade é a manutenção de certas políticas, apesar da troca de ministros. Mesmo pessoas que passaram a vida inteira vendendo soluções fáceis, ao se sentarem à mesa de ministro da Fazenda, recebem um banho de realidade. Não existe almoço grátis em economia. As soluções vêm da estabilidade das regras e da persistência dos propósitos.

Mas os perigos permanecem à espreita. Esta semana já ficou claro que faz falta ao país um ministro da Fazenda que saiba dizer "não". Há um equívoco em que muitos incorrem quando olham os dados fiscais brasileiros. O fato de se atingir a meta fiscal não significa que tudo esteja certo com as contas públicas. As despesas continuam aumentando todos os anos e em percentuais insustentáveis a médio prazo. Populismos previdenciários são um grande perigo. O pacote agrícola é um gasto excessivo de recursos públicos e tem uma contradição interna. Se o câmbio é resultado de decisões de política econômica e se a política econômica está certa, pelo menos, nas suas linhas centrais, então não se pode indenizar os produtores rurais pelos efeitos dessa política. Uma coisa é socorrer agricultores atingidos por desastres naturais ou fatos fora de controle, como secas e gripe aviária. Outra coisa, bem diferente, é transferir renda para os agricultores para compensar perda de lucratividade com o câmbio baixo. Até porque ele permanecerá baixo. As previsões de bancos são de que, nos próximos dois anos, o câmbio manterá uma discreta desvalorização chegando ao fim do ano que vem em R$ 2,40.

O câmbio está baixo, de fato. É o efeito, entre outras causas, do rigor da política monetária que agora, felizmente, está sendo afrouxada. Mas quando o real esteve muito desvalorizado não se ouviu sinal de que os produtores pretendessem entregar sua rentabilidade extra ao governo. Seria bom para a cultura econômica do Brasil que os momentos de abundância fossem usados pelos produtores rurais para desenvolver, eles mesmos, mecanismos de seguro contra as incertezas naturais da atividade. O pacote anunciado esta semana preocupa porque se soma a outros sinais de frouxidão fiscal do governo Lula neste período eleitoral. No ano passado, nem com o tratoraço que parou Brasília, foi concedido tanto aos agricultores. Este não é o primeiro sinal de abertura dos cofres. É sempre bom lembrar que a agricultura brasileira já recebe empréstimos a juros bem menores do que os pagos pelo governo em suas captações.

Há vários bons sinais na economia brasileira. A inflação está em queda, o dólar sem sombra de oscilações bruscas, as taxas de juros caindo e os primeiros sinais de recuperação econômica estão se confirmando. Tudo está preparado para que o país atravesse, sem maiores volatilidades, um duríssimo período eleitoral que se aproxima. Mas não há qualquer garantia de que será assim indefinidamente. Em período de turbulência, é que se testa o piloto. No mercado, há muitas dúvidas sobre a capacidade de o ministro Guido Mantega saber se manter no rumo caso haja alguma grande crise externa. Felizmente ela não parece muito provável no futuro próximo.

Por enquanto, o mundo está crescendo e isso mantém a força dupla sobre a economia brasileira: de um lado aumentam-se as exportações; de outro, aumentam os preços dos produtos exportados pelo Brasil. Este ano, o saldo comercial deve cair, pelo menos, US$ 5 bilhões, mas isso não será problema porque continuará muito alto.

Momentos de tranqüilidade costumam ser perigosos porque passam a falsa impressão de que está tudo sob controle.

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