Não aprecio a tese de Samuel Huntington sobre o choque de civilizações. E não que ignore a face regressiva do islamismo: meu guru é Bernard Lewis — sim, um judeu (ler mais a respeito). O perigo não vem de fora, como no poema "À Espera dos Bárbaros", de Kafávis, que recomendo (deve existir no Google). Não dou, não empresto e não vendo a minha tradução de Jorge de Sena. Eu mal tinha barba, e aquilo me encheu de alegria e desconsolo, como toda grande poesia. No poema, o "mal" que vinha de longe era uma solução.
Chegamos àquele desalento e à desídia de que fala o poeta. Os bárbaros não vão chegar porque já chegaram. Estão em nós. Somos nós. Pouco importa se sua face exibe o turbante do Islã, as rimas pobres do funk carioca e do rap paulistano, a estrela do PT ou as linhas tortas do jornalismo mais ignorante e brutal da história — aqui e alhures.
Não precisaram dar um tiro. Seqüestraram, primeiro, a nossa vontade, a nossa verdade, a nossa liberdade. Seqüestraram a legitimidade e a universalidade da democracia. E o que eles querem? Bárbaros nunca querem grandes coisas. Basta-lhes opor-se à ordem constituída, qualquer uma, e eliminar a hierarquia de valores. "A vanguarda do não avança e vence" (Mário Faustino).
E quem os fez triunfar? Tenho especial prazer em provocar os "doutores" da minha suposta e passadista paranóia anticomunista. Não os deixo passar vontade: as variadas formas de esquerdismo entregaram o poder aos bárbaros. E eles nos levam a duvidar de nós mesmos, a não acreditar no que vemos, a inverter os sinais do Bem e do Mal.
Abram os jornais ocidentais, especialmente os europeus, que deveriam congregar a inteligência do regime de liberdades públicas que, de resto, garante a sua existência: George W. Bush é visto como a outra face de Bin Laden. Submetidos os textos a uma leitura rigorosa, o terrorista ainda leva uma ligeira vantagem. Seu "povo" (qual?) teria sido vítima da "violência" colonial. Nada mais justo, então, que ele saia matando inocentes...
Os bárbaros, porque faceiros e múltiplos, como o demônio, são também sanguinariamente pacifistas. Ao menor sinal de que os EUA ou Israel não permitirão que os aiatolás facinorosos tenham bomba nuclear, logo se assanham e gritam o princípio da autodeterminação dos povos. Esse ente cavernoso é antigo. Já teve a face de Chamberlain e Daladier, quando, nas acariciantes chamas do inferno, firmaram com Hitler o Pacto de Munique.
No Brasil, dispensável dizer que os bárbaros estão no poder. São o establishment. Sua primeira providência foi eliminar a hierarquia dos crimes. Com o auxílio do nariz voltairiano (só o nariz) de Márcio Thomaz Bastos, decidiram que assalto organizado ao Estado e caixa dois de campanha são a mesma coisa. O diabo petista releu John Donne (e não Hemingway, que o citou): se a morte de qualquer homem nos diminui, tanto faz matar um ou cem.
O jornalismo, com exceções, é metástase desse mal essencial. Leio o que produz por obrigação profissional. É indisfarçável o furor bárbaro: os 400 ou 40 vestidos de Lu Alckmin estariam para o PSDB como o mensalão está para o PT. Seriam todos iguais. Mais do que isso: os bons selvagens do petismo — a versão benigna e encantada dos bárbaros — se conspurcaram, coitadinhos!, na convivência com os políticos profissionais. Antes, viviam numa terra edênica, pré-política. Lula era o Adão. Até o dia em que abraçou a serpente. Lixo.
E os ditos "liberais" fazem o quê? Ah, estão assinando pactos de não-agressão com os bárbaros, financiando suas ONGs, cedendo-lhes espaço na TV para o seu proselitismo, pagando o resgate para que, ao menos, "eles" deixem em paz os "mercados". É cada vez menor a diferença entre seqüestrados e seqüestradores. No "New York Times", no "Le Monde" e no "The Guardian", Bush e Bin Laden são iguais. Nas TVs e nos jornais nativos, Deize Tigrona tem mais "a cara do Brasil" do que Tom Jobim. Como diz uma apresentadora de TV, "a verdade está na periferia". É isso aí. A verdade está na periferia.
Agora só falta que o sétimo anjo diga: "Está feito".