O GLOBO
Émais do que sabido, embora as autoridades não tomem providências, que a nossa rede pública de saúde está em crise, à beira de um colapso total. Algumas das cenas mais recorrentes nos noticiários da televisão são aquelas filas aviltantes que varam a noite nos hospitais, pacientes em estado grave atirados sobre macas à espera de atendimento, médicos se queixando da falta de equipamentos e condições mínimas de trabalho — imagens do caos.
Há alguns anos um ortopedista em busca de aperfeiçoamento profissional foi fazer uma espécie de pós-graduação em Kosovo durante a guerra que devastou a região. Voltou logo porque o que viu não era assim tão diferente da situação que ele já conhecia. Guerra por guerra, tinha a daqui. Mas que a rede privada estivesse enfrentando problemas como falta de leitos constituiu para mim novidade. Nada como sentir na pele ou de perto os infortúnios e as mazelas que nos chegam diariamente pelos jornais e pela tv.
De repente, ao atravessar a rua sem trânsito, à noite, você pisa distraidamente num dos incontáveis buracos e depressões que, além dos assaltos, ameaçam o nosso ir-e-vir, e é arremessado ao chão — como aconteceu com minha mulher — fraturando em quatro lugares a cabeça do úmero direito, aquele osso que sustenta o braço. Em seguida, a dor lancinante e a corrida aflita por atendimento.
Dias antes, uma senhora conhecida, vítima de uma disfunção cardíaca, passara a noite rodando de um lado para o outro dentro de uma ambulância tentando internação. Já de madrugada, conseguiu finalmente vaga num hospital cujas instalações deixavam muito a desejar. Não teve outro jeito. Nós, felizmente, fomos parar no que há de melhor. Minha mulher foi operada com sucesso no Copa D'Or de Copacabana.
Tomamos conhecimento então de várias histórias de superlotação na rede privada. Em um hospital, uma mulher com apendicite aguda não conseguiu se internar e teve que ser transferida. Em outro, uma jovem com meningite virótica permaneceu 24 horas num corredor aguardando atendimento. É bem verdade que, enquanto isso, elas foram medicadas e transferidas em segurança, o que em geral não ocorre nos hospitais públicos. "Mesmo assim, é inadmissível", disse-me o médico que relatou a história.
Fico sabendo por ele e outros colegas seus que, ao contrário de São Paulo, onde há um número suficiente de hospitais particulares de grande porte, o Rio apresenta um déficit de cerca de 800 leitos. A oferta não acompanha a crescente demanda proveniente da expansão dos convênios e planos de saúde. Fala-se num projeto de construção de mais duas unidades. Mas, e quem precisa agora? Quando se trata de emergência, pode-se pedir tudo ao paciente, menos que tenha paciência de esperar.