Entrevista:O Estado inteligente

quinta-feira, abril 20, 2006

A cor das idéias Demétrio Magnoli




Folha de S. Paulo
20/4/2006

Há algum tempo, convidado pela rádio CBN, participei de um debate telefônico com frei Davi, líder da ONG Educafro. O tema era o projeto de lei do Estatuto da Igualdade Racial, que critiquei por cancelar o princípio da igualdade política e jurídica dos cidadãos. Meu interlocutor retrucou proclamando que essa minha opinião só podia emanar da mente de um branco. Fiquei imaginando se, coberto de razão, ele chamaria a polícia e pediria o enquadramento no crime de racismo caso alguém ousasse associar as suas idéias à cor da sua pele.
Frei Davi é um extremista de um novo credo. Ele acredita que a humanidade se divide em raças e no corolário pelo qual as identidades raciais são as fontes da visão de mundo das pessoas. O problema é que esse credo alcançou no Brasil a condição de ideologia de Estado. A Seppir (Secretaria da Igualdade Racial) anuncia que está capacitando 2.000 professores para ensinar "história africana e afro-brasileira" a partir de um material intitulado "A Cor da Cultura". O objetivo é contribuir para que "crianças negras afirmem sua identidade" e "crianças não-negras evitem uma imagem estereotipada da história do Brasil, normalmente contada a partir do ponto de vista dos brancos".
O Estado tem a obrigação de financiar a educação pública, mas na democracia deve se abster da tentação de ensinar. O Estado-educador, autoritário ou totalitário, interessa-se por história e geografia, abomina a pluralidade e empenha-se na produção de narrativas identitárias. Os extremistas da Seppir decidiram que a história, assim como a cultura, tem cor e é "branca" ou "negra". Eles não querem escrever mais um livro, uma narrativa como as outras, sujeita ao intercâmbio intelectual e à crítica. Eles querem imprimir o livro oficial e adestrar os professores na difusão da palavra da verdade.
Fora do âmbito oficial, identidades são noções fluidas, imprecisas, precárias e mutáveis. Os jovens de Soweto, o gueto negro de Johannesburgo onde eclodiu, em 1976, uma revolta popular contra o apartheid, ouviam jazz e rock americanos e idolatravam os jogadores da NBA. Eles enfrentaram a polícia exigindo que as escolas ensinassem em inglês, a língua franca entre os negros das cidades da África do Sul, não em africânder, o idioma do apartheid. Aqueles estudantes eram muito mais "afro-americanos" do que os "afro-americanos" dos EUA.
A engenharia social do Estado-educador fabrica identidades fixas, por meio da emissão de documentos de identidade, da impressão de livros escolares oficiais e da promulgação de leis que classificam, separam e discriminam. A Seppir declarou guerra às confusas identidades "raciais" dos brasileiros, que declaram uma infinidade de tons intermediários de cor da pele e resistem à rotulagem inventada pelo "racismo científico" do século 19. Os extremistas segregam as pessoas nas categorias "brancos" e "negros" e preparam as guerras étnicas do futuro.
O empreendimento monstruoso, que é a única reforma radical do governo Lula, encontra-se no limiar da maturidade. Seu teste de fogo é a votação do projeto de lei das cotas raciais nas universidades federais, que entrará na pauta da Câmara em poucas semanas. A aprovação do projeto revogará a igualdade legal dos cidadãos, conferindo uma identidade racial oficial a cada um de nós.

 

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