Entrevista:O Estado inteligente

quinta-feira, abril 20, 2006

Clóvis Rossi - Os bons companheiros





Folha de S. Paulo
20/4/2006

O velho sábio que habita esta Folha costuma dizer que viveu o suficiente para ver tudo acontecer -e seu contrário também. Será que imaginava ver Paulo Maluf inocentado e o PT acusado?
Pois é o que está acontecendo, num autêntico concentrado do fracasso brasileiro em construir instituições que realmente funcionem.
Maluf foi inocentado no caso dos Fuscas que doou, com dinheiro público, aos jogadores campeões do mundo em 1970. Inocentado agora, 36 anos depois. Justiça que demora tanto tempo para decidir sobre um caso banal não é Justiça.
Banal porque duvido que haja alguém, salvo o próprio Maluf, que não ache um escárnio utilizar dinheiro público para premiar profissionais muitíssimo bem pagos.
Mas o STF decidiu, burocraticamente, que a doação foi legal porque autorizada pela Câmara Municipal. Perfeito. Pena que não tenha havido nem mesmo tênue lembrança de que o país vivia os tempos mais duros do regime militar, em que o próprio prefeito não tinha legitimidade, posto que nomeado.
O problema é que não há mais nem ânimo para criticar Maluf, que, para boa parte do público, foi o maior símbolo da corrupção no país. Como criticá-lo se, mesmo nos seus piores momentos, não foi acusado de constituir uma "organização criminosa" para perpetuar-se no poder, ao contrário do que acontece agora com comandantes do lulo-petismo?
Desta vez, suspeito que Maluf é que se ofenderia se fosse comparado ao que o procurador-geral chamou de "quadrilha". Ou não. Afinal, são bons companheiros, a ponto de um membro do partido de Maluf ser ministro (Cidades), na cota de Severino Cavalcanti, aquele que renunciou para não ser cassado.
Aliás, eis dois bons nomes para formar a chapa com Lula em outubro. Maluf poderia vitaminar o desempenho pobre de Lula em São Paulo. Severino ajudaria na enorme vantagem que Lula tem nos grotões, onde tirar bêbado infrator da cadeia não só é legal como dá voto.

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