Entrevista:O Estado inteligente

segunda-feira, janeiro 16, 2006

KENNEDY ALENCAR Procura-se um estadista

folha
BRASÍLIA - A política brasileira vive crise profunda faz tempo. A eleição de Severino Cavalcanti para presidir a Câmara, em fevereiro de 2005, foi o primeiro sintoma grave do desacerto político que caracteriza o governo Lula desde o início. O presidente tem o péssimo hábito de atribuir ao PT e aos outros a culpa por seus erros. O principal deles tem sido a série de equívocos na grande política -exatamente onde prometera não errar. O vexaminoso "mensalão" é reflexo disso.
Com uma trajetória que civilizou a política brasileira, o PT não precisava de Marcos Valério. Por que recorreu a ele? Um petista na fila dos deputados ameaçados de cassação responde: "O PT nunca teve tanta facilidade para obter dinheiro. Se precisava de um milhão, dois milhões para o dia seguinte, ele dava um jeito". Ou seja, lambuzou-se com melado.
Lula chegou ao Palácio do Planalto com um cacife político muito mais valioso do que os milhões que Valério arrumou para Delúbio Soares comprar apoios no Congresso. Sua força era tanta que o senador Tasso Jereissati (CE), hoje presidente do PSDB e duro crítico do petista, foi ao cinema do Palácio da Alvorada em 2003. Foi um civilizado e auspicioso gesto de convivência entre governo e oposição que não deu frutos por erro de Lula. Gente lúcida no governo, como o então ministro Luiz Gushiken, entendia ser vital fugir de legendas fisiológicas (os partidos do "mensalão"), construindo uma aliança com os tucanos.
Avalizado por Lula, o delírio petista de se tornar hegemônico nas eleições municipais de 2004 minou a aproximação com o PSDB. O presidente enterrava ali oportunidade histórica: reunir os melhores quadros políticos do país em torno de um projeto de longo prazo sob sua liderança.
Nova guerra entre petistas e tucanos está em curso. Mesmo ferido, Lula continua no jogo. Se Alckmin e Serra não se devorarem, o PSDB se manterá favorito. Que o vencedor e o derrotado nas urnas em outubro tenham a grandeza de aprender com os erros do passado recente.

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