Entrevista:O Estado inteligente

domingo, janeiro 15, 2006

Daniel Piza Pindoramania

ESTADÃO
Pindoramania
            
    sinopse daniel piza
Num texto de 1967 sobre 'o caráter nacional brasileiro no século 20', escrito para uma revista de sociologia de Filadélfia e incluído na antologia Palavras Repatriadas, Gilberto Freyre comenta a observação de Aldous Huxley sobre o desdém da cultura nacional ao esforço sistemático e à ação metódica, à ciência e ao planejamento. E completava: 'Brasileiros de nossos dias podem ainda ser fracos em física ou em ciências naturais. Alguns deles, mesmo sendo católicos, podem continuar acreditando na astrologia, no espiritismo e na feitiçaria.' Freyre, que apoiou o golpe militar de 1964, diz em seguida que o caráter nacional está mudando e planejamentos econômicos estão sendo feitos, mas 'não tanto', pois seria 'improvável' sua adesão absoluta a essa mentalidade.
Observo algumas coisas curiosas. Primeiro, fica claro que Freyre, ao contrário dos que o tentam transformar num definidor da identidade nacional, não considera esse 'caráter' pronto. Poucos parágrafos antes, afirmou que 'os brasileiros estão a tornar-se plenamente conscientes da originalidade da sua civilização (...) e suficientemente arrojados para se apresentar perante o mundo como um povo que, na sua música, na sua arquitetura, na sua cozinha, na sua forma de jogar o futebol, é diferente dos povos mais maduros e clássicos, de civilizações mais apolíneas'. Isso não significa que considere a vocação brasileira a índole 'dionisíaca' que gente como Zé Celso e Armando Nogueira insiste em classificar. Para ele, a civilização brasileira é de 'síntese', um meio-termo criativo e precursor entre apolíneo e dionisíaco, capaz de conjugar doses de método com improvisação, a ciência com o ócio.
Mesmo assim, é um pensamento ingênuo. Basta ver que é dele que parte seu elogio ao regime militar. Para Freyre, o 'movimento revolucionário de 1964' conjugava idealismo com realismo e, portanto, se desenvolvia 'de uma forma suavemente brasileira, como se desenvolveram as revoluções da independência, do abolicionismo e da República, as quais acabaram realizando o que era essencial aos seus objetivos'. Essencial? Os marcos históricos brasileiros se caracterizaram na maioria das vezes por não ir a fundo, por não encarar a sério os desafios da modernidade democrática. A tal suavidade, admirável em tantos aspectos, é de certo modo um disfarce dos problemas.
Mas na ideologia conciliatória de Freyre não havia espaço para ironias e ambigüidades.
Essa ingenuidade é, claro, causada por sua visão antropológica de que o dado racial é fundamental. Ao exaltar a miscigenação, que seria a única arma contra o racismo - e para ele o racismo brasileiro tinha a virtude de não ter 'traços grosseiros', como se isso fosse mais facilmente superável -, Freyre associou a ela o tal caráter sintético da civilização 'eurotropical' brasileira. No texto anterior do livro, Mistura de raças e interpenetração cultural: o exemplo brasileiro, escrito para um seminário na ONU em 1966, ele observou que a maioria dos brasileiros já havia perdido então o 'complexo de inferioridade' derivado dos preconceitos raciais de outrora; eles não tinham mais vergonha de seus hábitos, de suas combinações, e estavam felizes e orgulhosos. Freyre não viu nem que essa era uma meia-verdade - pois o brasileiro continua a oscilar do complexo de inferioridade para o de superioridade, mais vítima da síntese do que sua vitória - nem que não fazia sentido criar uma mitologia, um auto-enfeitiçamento a partir dela. Traços são traços, não a composição toda.
Diante das violências e mazelas brasileiras 40 anos depois, Freyre não saberia o que dizer. Idem, diante da resistência ainda presente a esforços sistemáticos e métodos científicos. Esse 'vitoriano dos trópicos', como o chamou Maria Lúcia Garcia Pallares-Burke em livro recente que já citei aqui, não percebia que, para o brasileiro em geral, é como se a afetuosidade e o planejamento fossem antônimos - e que inclusive no planejamento tecnocrático dos economistas do regime militar havia o mesmo descaso dos 'intuitivos' com as sutilezas da realidade. Continuamos fracos em física e ciências naturais, e até em escritores de gênio como Guimarães Rosa encontramos excessiva desconfiança em relação ao chamado 'progresso técnico'.
Afinal, a civilização é triste, nós é que estamos mais perto da alegria coletiva, não é mesmo? Este mal poderia ser batizado de Pindoramania: o conceito de que o Brasil é muito diferente de seus colonizadores e só será a grande nação que nasceu para ser se atender ao coração e desligar a cabeça.
Por outro lado (ih, lá vem essa mania colonizada de respeitar a complexidade das questões...), não faltam exemplos de que não é preciso abrir mão dos dons musicais e futebolísticos para produzir ciência e tecnologia de nível internacional. De Santos-Dumont e Oswaldo Cruz aos projetos como o genoma e muitos outros da Fapesp, do eixo Campinas-São Carlos, da Embraer ou da Embrapa, há provas nas diversas disciplinas e regiões. O que falta é aprofundar e ampliar, é investir pesado nessas áreas que hoje mais do que nunca são fundamentais para a consistência de uma civilização. Para além de costumes e credos, civilização não existe sem esforço.

DE LA MUSIQUE
O CD de Seu Jorge e Ana Carolina tem alguns momentos bons, principalmente quando um canta para o outro (Carolina e Comparsas). A dupla em É Isso aí, versão da canção de Damien Rice para o filme Perto demais - canção que padece de outra versão, mais açucarada ainda, cantada por Simone -, mostra o poder de suas vozes e tem feito sucesso nas rádios. E a de Tom Zé traz achados ('tem sempre alguém se dando bem/ de São Paulo a Belém'), além de ser uma rara crítica à corrupção no governo petista.
Mas não é nada mais que isso, e Ana Carolina estraga a linda
Beatriz (Chico Buarque e Edu Lobo), cuja interpretação canônica é, para mim, a de Milton Nascimento um cantor que pinta toda a delicadeza da música, enquanto Carolina prefere trincar a louça.

CADERNOS DO CINEMA
É uma boa diversão Os Produtores, de Mel Brooks, apesar das diferenças para o elenco do original de 1968 (principalmente de Matthew Broderick para Gene Wilder), e algumas seqüências da coreografia são memoráveis, como a das velhinhas com seus andadores, para não falar da apresentação do boeing Uma Thurman, que nos faz até perdoar a cena em que o Rio aparece ao som de rumba. O que importa mesmo, ainda que letras e melodias sejam de qualidade, é o humor politicamente incorreto de Mel Brooks.

POR QUE NÃO ME UFANO
A leitura combinada de O Mundo É Plano, de Thomas L. Friedman (Objetiva), e O Fim da Pobreza, de Jeffrey Sachs (Companhia das Letras), é frutífera, até para ver que os dois autores têm em comum uma boa dosagem de otimismo. Friedman parece supor que a internacionalização de serviços é suficiente para fazer da globalização um processo predominantemente virtuoso, e Sachs dá a entender que eliminar a miséria em 20 anos é uma questão de ampliar a ajuda internacional. Mas, se erram na receita, acertam no diagnóstico.
A tese de Friedman é que a interligação do conhecimento pelo planeta aponta para um progresso global, pois permite a colaboração de indivíduos. Dá destaque à terceirização de serviços como 'call centers' para a Índia, o que preocupa muitos americanos antiglobalização como ameaça aos trabalhadores. Segundo ele, isso aumenta as possibilidades de negócios e exportações para empresários americanos, o que por sua vez gera outros empregos. Friedman, como Sachs, não se detém sobre o caso brasileiro, mas diz coisas aplicáveis: 'Os países escapam da pobreza não apenas quando gerenciam de cima suas políticas fiscais e financeiras de maneira responsável, isto é, com reformas abrangentes. Escapam quando ao mesmo tempo criam por baixo um ambiente favorável para que as pessoas iniciem negócios, levantem capital e se tornem empresários, e quando impõem a seu povo pelo menos certo grau de concorrência externa, porque as firmas que têm concorrentes sempre inovam mais e com maior rapidez.' Sem confiança e competição, nenhuma economia vai muito longe.
Sachs, ao analisar os problemas da Bolívia, faz exame semelhante: 'A estabilidade dos preços e as reformas do mercado restabeleceram o crescimento, mas este foi muito pequeno e demasiado desigual em seu impacto para tirar toda a população da miséria.' E recomenda também mais globalização, e não menos, notando que ela 'reduziu o número de miseráveis na Índia em 200 milhões e na China em 300 milhões desde 1990'.
Infelizmente, a América Latina parece que voltou a preferir o caminho do populismo.



Aforismos sem juízo


Tudo que é hiperespecializado tende a atrofiar.
   

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