ESTADÃO
Pindoramania
sinopse daniel piza
Num texto de 1967 sobre 'o caráter nacional brasileiro no século 20', escrito para uma revista de sociologia de Filadélfia e incluído na antologia Palavras Repatriadas, Gilberto Freyre comenta a observação de Aldous Huxley sobre o desdém da cultura nacional ao esforço sistemático e à ação metódica, à ciência e ao planejamento. E completava: 'Brasileiros de nossos dias podem ainda ser fracos em física ou em ciências naturais. Alguns deles, mesmo sendo católicos, podem continuar acreditando na astrologia, no espiritismo e na feitiçaria.' Freyre, que apoiou o golpe militar de 1964, diz em seguida que o caráter nacional está mudando e planejamentos econômicos estão sendo feitos, mas 'não tanto', pois seria 'improvável' sua adesão absoluta a essa mentalidade.
Observo algumas coisas curiosas. Primeiro, fica claro que Freyre, ao contrário dos que o tentam transformar num definidor da identidade nacional, não considera esse 'caráter' pronto. Poucos parágrafos antes, afirmou que 'os brasileiros estão a tornar-se plenamente conscientes da originalidade da sua civilização (...) e suficientemente arrojados para se apresentar perante o mundo como um povo que, na sua música, na sua arquitetura, na sua cozinha, na sua forma de jogar o futebol, é diferente dos povos mais maduros e clássicos, de civilizações mais apolíneas'. Isso não significa que considere a vocação brasileira a índole 'dionisíaca' que gente como Zé Celso e Armando Nogueira insiste em classificar. Para ele, a civilização brasileira é de 'síntese', um meio-termo criativo e precursor entre apolíneo e dionisíaco, capaz de conjugar doses de método com improvisação, a ciência com o ócio.
Mesmo assim, é um pensamento ingênuo. Basta ver que é dele que parte seu elogio ao regime militar. Para Freyre, o 'movimento revolucionário de 1964' conjugava idealismo com realismo e, portanto, se desenvolvia 'de uma forma suavemente brasileira, como se desenvolveram as revoluções da independência, do abolicionismo e da República, as quais acabaram realizando o que era essencial aos seus objetivos'. Essencial? Os marcos históricos brasileiros se caracterizaram na maioria das vezes por não ir a fundo, por não encarar a sério os desafios da modernidade democrática. A tal suavidade, admirável em tantos aspectos, é de certo modo um disfarce dos problemas.
Mas na ideologia conciliatória de Freyre não havia espaço para ironias e ambigüidades.
Essa ingenuidade é, claro, causada por sua visão antropológica de que o dado racial é fundamental. Ao exaltar a miscigenação, que seria a única arma contra o racismo - e para ele o racismo brasileiro tinha a virtude de não ter 'traços grosseiros', como se isso fosse mais facilmente superável -, Freyre associou a ela o tal caráter sintético da civilização 'eurotropical' brasileira. No texto anterior do livro, Mistura de raças e interpenetração cultural: o exemplo brasileiro, escrito para um seminário na ONU em 1966, ele observou que a maioria dos brasileiros já havia perdido então o 'complexo de inferioridade' derivado dos preconceitos raciais de outrora; eles não tinham mais vergonha de seus hábitos, de suas combinações, e estavam felizes e orgulhosos. Freyre não viu nem que essa era uma meia-verdade - pois o brasileiro continua a oscilar do complexo de inferioridade para o de superioridade, mais vítima da síntese do que sua vitória - nem que não fazia sentido criar uma mitologia, um auto-enfeitiçamento a partir dela. Traços são traços, não a composição toda.
Diante das violências e mazelas brasileiras 40 anos depois, Freyre não saberia o que dizer. Idem, diante da resistência ainda presente a esforços sistemáticos e métodos científicos. Esse 'vitoriano dos trópicos', como o chamou Maria Lúcia Garcia Pallares-Burke em livro recente que já citei aqui, não percebia que, para o brasileiro em geral, é como se a afetuosidade e o planejamento fossem antônimos - e que inclusive no planejamento tecnocrático dos economistas do regime militar havia o mesmo descaso dos 'intuitivos' com as sutilezas da realidade. Continuamos fracos em física e ciências naturais, e até em escritores de gênio como Guimarães Rosa encontramos excessiva desconfiança em relação ao chamado 'progresso técnico'.
Afinal, a civilização é triste, nós é que estamos mais perto da alegria coletiva, não é mesmo? Este mal poderia ser batizado de Pindoramania: o conceito de que o Brasil é muito diferente de seus colonizadores e só será a grande nação que nasceu para ser se atender ao coração e desligar a cabeça.
Por outro lado (ih, lá vem essa mania colonizada de respeitar a complexidade das questões...), não faltam exemplos de que não é preciso abrir mão dos dons musicais e futebolísticos para produzir ciência e tecnologia de nível internacional. De Santos-Dumont e Oswaldo Cruz aos projetos como o genoma e muitos outros da Fapesp, do eixo Campinas-São Carlos, da Embraer ou da Embrapa, há provas nas diversas disciplinas e regiões. O que falta é aprofundar e ampliar, é investir pesado nessas áreas que hoje mais do que nunca são fundamentais para a consistência de uma civilização. Para além de costumes e credos, civilização não existe sem esforço.
DE LA MUSIQUE
O CD de Seu Jorge e Ana Carolina tem alguns momentos bons, principalmente quando um canta para o outro (Carolina e Comparsas). A dupla em É Isso aí, versão da canção de Damien Rice para o filme Perto demais - canção que padece de outra versão, mais açucarada ainda, cantada por Simone -, mostra o poder de suas vozes e tem feito sucesso nas rádios. E a de Tom Zé traz achados ('tem sempre alguém se dando bem/ de São Paulo a Belém'), além de ser uma rara crítica à corrupção no governo petista.
Mas não é nada mais que isso, e Ana Carolina estraga a linda
Beatriz (Chico Buarque e Edu Lobo), cuja interpretação canônica é, para mim, a de Milton Nascimento um cantor que pinta toda a delicadeza da música, enquanto Carolina prefere trincar a louça.
CADERNOS DO CINEMA
É uma boa diversão Os Produtores, de Mel Brooks, apesar das diferenças para o elenco do original de 1968 (principalmente de Matthew Broderick para Gene Wilder), e algumas seqüências da coreografia são memoráveis, como a das velhinhas com seus andadores, para não falar da apresentação do boeing Uma Thurman, que nos faz até perdoar a cena em que o Rio aparece ao som de rumba. O que importa mesmo, ainda que letras e melodias sejam de qualidade, é o humor politicamente incorreto de Mel Brooks.
POR QUE NÃO ME UFANO
A leitura combinada de O Mundo É Plano, de Thomas L. Friedman (Objetiva), e O Fim da Pobreza, de Jeffrey Sachs (Companhia das Letras), é frutífera, até para ver que os dois autores têm em comum uma boa dosagem de otimismo. Friedman parece supor que a internacionalização de serviços é suficiente para fazer da globalização um processo predominantemente virtuoso, e Sachs dá a entender que eliminar a miséria em 20 anos é uma questão de ampliar a ajuda internacional. Mas, se erram na receita, acertam no diagnóstico.
A tese de Friedman é que a interligação do conhecimento pelo planeta aponta para um progresso global, pois permite a colaboração de indivíduos. Dá destaque à terceirização de serviços como 'call centers' para a Índia, o que preocupa muitos americanos antiglobalização como ameaça aos trabalhadores. Segundo ele, isso aumenta as possibilidades de negócios e exportações para empresários americanos, o que por sua vez gera outros empregos. Friedman, como Sachs, não se detém sobre o caso brasileiro, mas diz coisas aplicáveis: 'Os países escapam da pobreza não apenas quando gerenciam de cima suas políticas fiscais e financeiras de maneira responsável, isto é, com reformas abrangentes. Escapam quando ao mesmo tempo criam por baixo um ambiente favorável para que as pessoas iniciem negócios, levantem capital e se tornem empresários, e quando impõem a seu povo pelo menos certo grau de concorrência externa, porque as firmas que têm concorrentes sempre inovam mais e com maior rapidez.' Sem confiança e competição, nenhuma economia vai muito longe.
Sachs, ao analisar os problemas da Bolívia, faz exame semelhante: 'A estabilidade dos preços e as reformas do mercado restabeleceram o crescimento, mas este foi muito pequeno e demasiado desigual em seu impacto para tirar toda a população da miséria.' E recomenda também mais globalização, e não menos, notando que ela 'reduziu o número de miseráveis na Índia em 200 milhões e na China em 300 milhões desde 1990'.
Infelizmente, a América Latina parece que voltou a preferir o caminho do populismo.
Aforismos sem juízo
Tudo que é hiperespecializado tende a atrofiar.
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