Entrevista:O Estado inteligente

sábado, novembro 12, 2005

ZUENIR VENTURA O coquetel explosivo

O GLOBO


Há pouco mais de um mês, quando lá estive, nada parecia abalar a imagem de Paris como sonho de cidade: a ordem, a paz urbana, a disciplina do trânsito. Andando por suas ruas sem sobressalto a qualquer hora do dia ou da noite, sentia saudades do Rio dos anos 50, o dos "anos dourados" — a mesma tranqüila inconsciência do que estava se formando à sua volta: na periferia, no caso de lá; em cima, nas favelas, no caso de cá.


O estouro da banlieue não tem surpreendido apenas os eventuais visitantes, mas até mesmo os próprios franceses, apesar de já acostumados a surtos e explosões da História como a Comuna de 1848, queda da Bastilha, Maio de 68. "A insurreição", alguém escreveu, "ultrapassou a compreensão da mídia". O primeiro-ministro Dominique de Villepin disse que a França não estava se reconhecendo. Um seu colega de ministério, o linha-dura Nicolas Sarkosy, chamou os insurretos de "escória". Um deputado chegou a propor uma censura voluntária: "Pelo menos por alguns dias, a imprensa deveria ter a coragem de não falar dos acontecimentos."

Não adianta procurar paralelo com o que aconteceu, por exemplo, nos anos 60. A geração de 68 saiu às ruas achando que podia mudar o mundo por meio de uma violência pedagógica. A de agora parece querer apenas incendiá-lo. Tudo é novo, incompreensível e assustador nessa espécie de luta de classe contra a própria classe. Os vândalos estão destruindo seus estabelecimentos e escolas, e queimando os carros de vizinhos tão pobres quanto eles. Além disso, a irrupção combina a fúria desenfreada e selvagem com o que há de mais avançado em tecnologia da comunicação: a internet. Interagindo por meio de e-mails, blogs, chats e sites, esses jovens preparam suas ações obedecendo não a um líder, mas ao princípio de rede. "Quantos carros você queimou ontem?", perguntava um deles esta semana. No mesmo chat, outro combinava encontro à noite para "tacar fogo".

Com a adoção de medidas repressivas do tempo da guerra da Argélia, como o toque de recolher, é provável que a violência dos subúrbios pobres de Paris e outras cidades francesas venha a ser contida. Mas não suas causas, que misturam desemprego, discriminação, racismo e exclusão social num explosivo coquetel de rancor. A França, que sempre recebeu exilados políticos, não sabe como incorporar os seus "bárbaros" (no sentido em que os romanos designavam os que viviam fora do império e falavam outra língua). É bem verdade que ela não está sozinha, tem a companhia de muitos vizinhos. Daí o medo de que, por contágio, parte da Europa vire uma grande banlieue em chamas.

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