Entrevista:O Estado inteligente
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sábado, novembro 12, 2005
MIRIAM LEITÃO Os espantos
O GLOBO
Já nada mais espanta, exceto a naturalidade com que coisas espantosas acontecem. O ex-ministro Anderson Adauto avisou que praticou crime, mas que o Brasil o agradeça porque poderia ter praticado outro muito maior. O carregador de caixas voadoras Vladimir Poleto disse que não disse o que havia até gravado. A ministra Dilma Rousseff serviu picadinho de Palocci num jantar do PMDB e em duas entrevistas.
"O diabo na rua, no meio do redemoinho." Essa frase de Guimarães Rosa não me sai da cabeça esta semana, não sei muito bem por quê. Acho que é porque ela parece se referir a uma grande confusão. Foi uma semana e tanto!
Anderson Adauto foi um caso espetacular, daquele tipo que renova as pessoas: quando a gente pensa que já viu tudo, mais alguma coisa acontece.
— Eu poderia ter resolvido meus problemas de campanha com os fornecedores do Ministério, poderia, eu sabia que poderia, mas não fiz — disse ele.
Alguém precisa dizer ao ex-ministro que não, ele não poderia. Que crimes não podem ser cometidos, por isso são crimes.
Vladimir Poleto foi outro caso extraordinário. Alegou amnésia alcoólica ao ouvir sua própria voz, vinda de um gravador, desmentindo o que tinha acabado de dizer. Depois teve uma amnésia sóbria, quando disse que não estava vendo diferença entre o que dizia sua voz gravada e sua voz ao vivo. Houve um momento em que o senador Tasso Jereissati pegou uma carona no microfone do senador Heráclito Fortes e tentou esclarecer o episódio do aluguel, por seis meses, de uma casa em Brasília, pelo qual Poleto pagou R$ 60 mil cash .
— Vossa senhoria costuma guardar suas economias em dinheiro vivo? — perguntou Tasso Jereissati.
— Tenho um mecanismo de transformação em liquidez imediata.
— Que mecanismo?
— Dólar.
— Que dinheiro era esse que pagou o aluguel?
— Recebi uma indenização trabalhista da prefeitura de São Bernardo do Campo, que me demitiu injustamente.
— A prefeitura pagou uma indenização trabalhista em dólar?
A essa altura, quem assistia a mais essa cena da temporada de mentiras no Congresso deve ter se sentindo alcoolizado. Tudo era extravagante demais.
A ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff, sustentou que tropeçou apenas em uma palavra, ao explicar por que atingiu os colegas. Falou rudimentar no sentido de incipiente. Rudimentar é primitivo, tosco; incipiente qualifica o que está no começo. Mas, que fique o incipiente pelo rudimentar; o problema é onde pôr todas as outras palavras usadas por ela, substantivas, adjetivas e verbais, com as quais disse, em duas entrevistas e um jantar com políticos, que o ministro da Fazenda estava errado.
Diante dos ataques públicos ao seu ministro da Fazenda, que já está enfrentando um duro momento, o presidente Lula decidiu resolver tudo. Chamou Palocci e Dilma e deu uma bronca em ambos. Não resolveu coisa alguma. Palocci, que não respondeu publicamente a Dilma, nem a qualquer outro colega que o tenha criticado nesses 33 meses de governo, ficou mais fraco depois desta semana. Até porque o país ficou sabendo que a chefe da Casa Civil discorda inteiramente dele, acha que sua política é equivocada, conservadora, que ele só ouve sua igrejinha, que apóia idéias rudimentares, que está impedindo o Brasil de crescer. E ficou sabendo também que o presidente Lula imagina que esse tipo de fratura se cola com um sabão em ambos, entre quatro paredes. Rudimentos de técnica gerencial mostram que o chefe, em momentos assim, precisa escolher claramente de que lado está. Como fez o ex-presidente Fernando Henrique quando Clóvis Carvalho fez uma crítica, bem mais incipiente que essa, a Pedro Malan. A ambigüidade agora é a pior escolha.
Mas o presidente não parece se importar com o destino de sua atual administração. Está de olho na próxima. Fez de cada momento seu esta semana um gesto de campanha. Cancelou uma viagem que faria à Bahia para não criar constrangimento ao MST, que invadiu terras da Suzano, empreendimento que ele visitaria. Na viagem que fez a Teófilo Otoni, dedicou-se à única coisa que demonstra prazer em fazer: campanha. Por isso, adiou ao máximo o ato de descer do palanque e agora antecipa a hora de subir. Num estilo populista-eleitoreiro, proclamou-se uma pessoa que tem "liga" com o povo, a mesma liga que Fernando Henrique não tem. Os "outros", avisou Lula sobre os antecessores, "eram mais cultos, leram mais livros, eram mais inteligentes", mas não tinham essa "liga". De novo, o mesmo subtexto dos últimos três anos, em que cultura e livros são apresentados como defeitos, como elementos que afastam o político do povo. Perigoso discurso, não porque atinja a quem quer que o tenha antecedido no cargo, mas porque enfraquece o livro como valor num país que precisa desesperadamente de livros. Depois ele conclui, reensaiando o discurso do ano que vem: de que está sendo criticado porque ele cuida dos pobres, ao contrário dos outros.
De forma ainda incipiente, esta semana o governo desenhou o contorno da campanha: o presidente-candidato vai dizer que nada sabia, que os crimes não foram provados — como falou na entrevista ao "Roda Viva" — vai dizer nos palanques que ele é quem entende o povo e por isso está sendo perseguido, vai acenar à militância com a ambigüidade em relação à política econômica, elegendo alguém forte para levantar a falecida bandeira do "contra-tudo-isso-que-está-aí". O plano é rudimentar e deu errado: o governo ficou mais fraco esta semana.
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