FERNANDO RODRIGUES
DA SUCURSAL DE BRASÍLIA
Numa eventual saída do ministro, presidente cogita nomear alguém que surpreenda opositores e não descarta inflexão na economia
Embora tente de todas as formas preservar Antonio Palocci, o seu ministro da Fazenda, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva diz também estar propenso a "dar um susto" na oposição, caso seja necessária uma substituição.
Lula acredita que se Palocci for obrigado a depor em alguma das três CPIs em andamento no Congresso, o ministro poderá ser obrigado a deixar o cargo.
Nessa hipótese, segundo a Folha apurou, o presidente cogita nomear alguém que surpreenda a oposição, que hoje se esforça para desestabilizar politicamente o titular da Fazenda.
Em conversas reservadas ao longo da semana, Lula tem demonstrado muita insatisfação a respeito dos ataques recebidos por Palocci. "Acham que eu vou nomear alguém que eles querem? Eles vão se arrepender", disse o presidente em um momento em que comentava o atual cenário.
Inflexão
Na avaliação de governistas ouvidos pela Folha, a observação do presidente tem dois significados principais. Primeiro, está claro que Lula hoje considera como uma possibilidade real a saída de Palocci do governo.
A outra sinalização do presidente é que ele poderá aproveitar a eventual saída de Palocci para fazer algum tipo de inflexão na atual política econômica ortodoxa, de grandes superávits e baixos investimentos.
O consenso em Brasília era de que a saída de Palocci seria sem solavancos. Estaria pronto para assumir Murilo Portugal, secretário-executivo do Ministério da Fazenda.
Conhecido como o "Senhor Não" pela sua obsessão pelo controle dos gastos públicos, Portugal seguiria na mesma toada de seu antecessor, tendo ainda a vantagem de ter trabalhado como secretário do Tesouro durante parte do período de Fernando Henrique Cardoso na Presidência da República (1995-2002).
Ocorre que cresce dentro do governo, ainda mais agora com as críticas abertas da ministra Dilma Rousseff (Casa Civil) à política econômica, a idéia de que o crescimento do país será a única âncora eleitoral para o projeto de reeleição de Lula em 2006.
Nesse caso, é necessário fazer o ajuste já, para que possa ser sentido a tempo pelos eleitores de daqui a um ano.
Pessoas do governo que convivem mais de perto com Palocci acham que o ministro passa pelo seu pior momento, tanto do ponto de vista político como pessoal. Em outras situações em que foi atacado por adversários, ele sempre se comportou de maneira serena e foi para o enfrentamento. Agora, retraiu-se.
Segundo a Folha apurou, uma das principais preocupações de Palocci é que ele venha a ser atacado não só por fatos ocorridos quando foi prefeito em Ribeirão Preto, no interior de São Paulo.
Garagem
Ontem, Palocci e Dilma participaram da reunião do Conselho de Administração da Petrobras no prédio do Ministério de Minas e Energia em Brasília. Habitualmente, essas reuniões são realizadas na sede da Petrobras no Rio de Janeiro.
O encontro durou mais de quatro horas. A Folha apurou que Palocci relutou em participar da reunião por ainda estar ressentido com a ministra.
Para evitar o assédio da imprensa, Dilma e Palocci deixaram o ministério pela garagem em vez de usar a saída principal.
Embora a reunião estivesse marcada para começar às 10h, a assessoria de imprensa do Ministério da Fazenda só divulgou o encontro aos jornalistas depois das 11h, quando o ministro já estava dentro da sala da reunião.
Desde que as divergências entre os dois ministros aumentaram, ele vem evitando se encontrar com jornalistas. Na última quinta-feira, Palocci não apareceu na Fazenda e despachou de sua sala no Palácio do Planalto para escapar da imprensa.
Ontem, chegaram a circular na Esplanada dos Ministérios boatos de que Palocci aproveitaria o feriado da próxima semana para tirar alguns dias de férias. A assessoria de imprensa do ministro não confirmou a informação até o fechamento desta edição.
Colaborou JULIANNA SOFIA, da Sucursal de Brasília