Entrevista:O Estado inteligente

sábado, novembro 12, 2005

VEJA CPI Ex-ministro de Lula confessa que sempre fez caixa dois

Fiz mesmo, e daí?

O ex-ministro Anderson Adauto
diz que usou caixa dois a vida toda


Juliana Linhares



Com um depoimento-confissão, dado à CPI do Mensalão na semana passada, o ex-ministro dos Transportes Anderson Adauto emulou o ex-funcionário dos Correios Maurício Marinho, que, filmado em flagrante embolso de propina, protagonizou no último mês de maio a mais explícita cena de corrupção já vista no Brasil. Adauto chegou perto: sua auto-incriminação só não teve imagens. Atual prefeito de Uberaba (MG), ele declarou aos integrantes da CPI que usou dinheiro proveniente de caixa dois nas onze campanhas eleitorais das quais participou na vida. Contou ainda ter recebido, na condição de ministro, 410.000 reais do valerioduto. O dinheiro, afirmou, foi usado para quitar dívidas contraídas na campanha de 2002, em que concorreu a uma vaga na Câmara dos Deputados. E foi além: sugeriu que considerava preferível lançar mão desse recurso a desviar dinheiro da pasta que comandou até fevereiro de 2004. "Eu sei que poderia muito bem ter resolvido os meus problemas de campanha com os fornecedores do Ministério dos Transportes. É claro que eu sabia disso. Sabia que poderia, mas não fiz." Raras vezes os integrantes das CPIs presenciaram um depoente usar de tamanha sinceridade para admitir um ilícito e a freqüência com que eles costumam ser cometidos na administração federal.

Beto Barata/AE
Delúbio Soares: o homem da mala


O governo Lula deve a Adauto sua estréia no (hoje se sabe) fertilíssimo campo das denúncias de corrupção e malversação de recursos públicos. Adauto foi indicado ministro em 2003, na cota do vice-presidente da República, José Alencar (PL). Desde o início, sua gestão foi marcada por uma sucessão de embaraços. Ao assumir a Pasta dos Transportes e tomar conhecimento da situação de precariedade em que se encontravam as estradas federais, decidiu fazer um apelo para que a população deixasse de viajar. A patetice logo deu lugar a acusações sérias: veio à tona a informação de que ele era suspeito de envolvimento com empresas e políticos acusados de desvio de recursos na prefeitura de Iturama (MG). Adauto caiu após longa fritura, treze meses depois de assumir o cargo. As marcas que deixou no governo, no entanto, sobreviveram à sua queda.

Em junho deste ano, VEJA reuniu relatos dando conta de que foi no seu gabinete, e na sua presença, que, no segundo semestre de 2003, o então presidente do PTB, Roberto Jefferson, dois deputados e o então tesoureiro do PT, Delúbio Soares, se reuniram para dividir uma bolada de dinheiro de origem nebulosa e finalidade desconhecida. O dinheiro, segundo relatos, teria sido levado por Delúbio Soares em uma mala – esse objeto tão familiar aos petistas. Agora, eis que Adauto ressurge para aumentar as sombras que pairam sobre o governo Lula e seus métodos. Segundo o advogado Alberto Rollo, especialista em legislação eleitoral, o depoimento de Adauto na CPI pode render-lhe processos por crimes de falsidade ideológica e de responsabilidade . A pena para este último é de inabilitação para funções públicas – o que, no caso de Adauto, poderia significar a perda do seu mandato de prefeito de Uberaba.
Foto Dida Sampaio



O ex-ministro e prefeito mineiro: versão sem fita de Maurício Marinho

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