Poleto, que levou os dólares cubanos até São Paulo, é pilhado mentindo ao negar a viagem. Por pouco não sai preso da CPI
Ailton de Freitas/Ag. O Globo![]() | |
| Poleto, durante seu depoimento à CPI dos Bingos, o repórter Policarpo Jr. e a capa de VEJA sobre o caso dos dólares de Cuba: a verdade começa a vir à tona | |
Ana Araújo ![]() | |
Na quinta-feira passada, o economista Vladimir Poleto prestou depoimento à CPI dos Bingos sobre a viagem na qual, a bordo de um Seneca, transportou 1,4 milhão de dólares de Brasília para Campinas, em São Paulo. O dinheiro, vindo de Cuba, foi entregue nas mãos do então tesoureiro Delúbio Soares, abastecendo o caixa da campanha de Lula – o que é ilegal. Nervoso e constantemente atendido por seu advogado, Poleto abriu seu depoimento lendo uma declaração de doze páginas, em que desmentia tudo o que dissera a VEJA em reportagem de capa publicada na edição 1.929. Garantiu aos senadores que jamais transportara dinheiro de Brasília para Campinas e que sua conversa com o repórter Policarpo Junior, de VEJA, realizada no bar do hotel Plaza Inn, em Ribeirão Preto, no dia 21 de outubro passado, não fora uma entrevista. O economista disse que não autorizou o repórter a gravar seu depoimento, que falou sob a ameaça chantagista de ter revelados detalhes de sua vida íntima e, por fim, que estava com seu "discernimento comprometido" pelo chope e pela "cachacinha" que bebera antes e durante a conversa com VEJA.
Pela primeira vez no atual escândalo, um depoimento foi desmascarado ao vivo, antes que a testemunha levantasse da cadeira. O senador Demostenes Torres (PFL-GO) pediu que se executasse em plena sessão uma gravação de quase oito minutos divulgada por VEJA em seu site (ouça o trecho). Na fita, Policarpo Junior começa informando o momento e a identidade do entrevistado, num sinal eloqüente de que a gravação não foi feita às escondidas. Em seguida, Poleto, sem exibir nenhuma contaminação alcoólica na voz, responde às perguntas que lhe são formuladas num tom sereno e firme. Na conversa, Poleto diz que levou três caixas de bebida de Brasília para Campinas e, mais tarde, ao ser presenteado com uma "garrafinha de Havana Club", uma marca de rum cubano, soube que havia 1,4 milhão de dólares dentro de uma das caixas. Com isso, ficou claro que Poleto mentia à CPI. Encerrada a execução da fita, o senador Tasso Jereissati (PSDB-CE) pediu o "imediato indiciamento" do depoente. Não fosse o habeas corpus que pedira previamente à Justiça, Vladimir Poleto teria saído da CPI preso e algemado. Pessoas que saem presas das CPIs são levadas para uma delegacia da Polícia Federal e interrogadas. Elas são postas em liberdade horas depois, em geral por força de um habeas corpus concedido pelos juízes de plantão. É um mecanismo mais pedagógico do que punitivo.
O depoimento de Poleto foi um completo desastre para ele mesmo e para seus patrocinadores, mas trouxe um raio de luz ao caso dos dólares etílicos voadores. Quando VEJA publicou reportagem sobre o assunto, dirigentes do PT e do governo, mas também vozes apartidárias, disseram que a matéria era "fantasiosa" e "inverossímil". Com o testemunho de Poleto, tão acintosamente mentiroso, a impressão de que a história seja uma fantasia começou a cair por terra – pelo menos para os analistas honestos. Quando VEJA revelou o caso dos dólares cubanos, o jornalista Merval Pereira, colunista do jornal O Globo, por exemplo, fez reparos à matéria e apontou aspectos da história que lhe pareceram inverossímeis. Depois do depoimento de Poleto, na sexta-feira o jornalista voltou ao assunto em sua coluna: "Eu mesmo escrevi aqui que a história de Veja parecia inverossímil em vários pontos, mas, diante das mentiras flagradas de Poleto, fica claro que naquelas caixas de uísque e rum havia mais coisa do que simplesmente bebida". Por sua clareza e honestidade, ambos os textos, o que fez críticas e o que reconheceu as mentiras de Poleto, são exemplos da seriedade do colunista diante dos fatos disponíveis para sua análise.
O que terá levado Poleto a ser tão claro – sobre o vôo, sobre as caixas, sobre o dinheiro – em sua entrevista a VEJA e, depois, mudar tão radicalmente de comportamento? Não se sabe, mas não é muito difícil imaginar, considerando-se que uma doação de dinheiro estrangeiro, de Cuba ou de qualquer outro país, é um crime eleitoral de primeira gravidade – e, se for comprovado, pode levar até mesmo à cassação do registro do PT. É um caso de difícil comprovação, pois naturalmente o dinheiro que chegou a Brasília não deixou rastro atrás de si. Uma alternativa, que não autoriza nenhum otimismo, é que os envolvidos contem o que sabem a respeito do assunto. O advogado Rogério Buratti tem feito isso. No mesmo dia em que Poleto falou à CPI dos Bingos, Buratti também depôs e reafirmou o que contara a VEJA. Disse que fora consultado por Ralf Barquete, a pedido do ministro Antonio Palocci, sobre formas de trazer dinheiro de Cuba para o Brasil. Mais tarde, soube que os recursos chegaram e que somavam 3 milhões de dólares.
"ERA 1,4 MILHÃO DE DÓLARES"
Confira um trecho
da entrevista de
Vladimir Poleto a VEJA
Veja – E o que tinha dentro dessas caixas, segundo te disseram?
Poleto – Uma coisa é o que me dizem, outra coisa é a realidade...
Veja – E o que te disseram?
Poleto – Que tinha dinheiro numa das caixas. Só isso.
Veja – Quem disse isso?
Poleto – Ralf Barquete.
(...)
Veja – Qual o valor que foi falado?
Poleto – É...
Veja – Segundo a informação que eu tenho, o valor transportado teria sido 3 milhões de dólares.
Poleto – Não. O valor que me disseram era 1 milhão e 400 000 dólares.

