É verdade que o crescimento do PIB, de 5,2% em 2004, só foi menor do que a taxa de 5,85% alcançada em 1994, no primeiro ano do governo Fernando Henrique. Mas o passado é riscado do mapa. Por má-fé ou ignorância. Jamais Lula vai apontar as expressivas taxas do ciclo juscelinista, que oscilavam entre 8% e 10%, ou os índices da década de 70, quando o PIB, em 1973, chegou aos 14% de crescimento. Nada disso importa. O que vale é a "originalidade" de um programa de apoio financeiro a pescadores, que já tem 13 anos de vida. Ou o elogio ao programa Primeiro Emprego, que é um fiasco. O que importa é o programa Bolsa-Família, que se origina nas bolsas do governo anterior e, agora, é ampliado - de 8 milhões para 11 milhões de famílias. De caráter assistencial-paternalista, ele não tem nada de revolucionário. Trata-se de valiosa moeda de troca para uso em 2006. Exibe-se um plano de ajuste fiscal para gerar alto superávit primário, considerado "rudimentar" pela própria ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff, em entrevista ao Estado (9/11). A evidência de que Lula surfa nas ondas de seu governo é o fato, também revelado pela ministra, de que a proposta de ajuste nem foi a ele apresentada.
Quem ouve com freqüência o presidente já não se espanta com a sonoridade epopéica de suas falas. No Manual dos Inquisidores, um dos primeiros livros impressos, em 1503, em Barcelona, escrito pelo dominicano Nicolau Eymerich, há um relato sobre os dez truques dos hereges para responder sem confessar. Lula se enquadra em alguns deles, como a capacidade de responder de maneira ambígua, acrescentar uma condição, inverter a pergunta, mudar as palavras da questão e se autojustificar, dando-se ares de santidade, entre outras. Urge reconhecer: trata-se de um craque na arte de falar sem dizer, de cair na água sem se molhar. Alguns políticos adicionaram máximas e termos novos ao dicionário. Ademar de Barros, com o "rouba, mas faz", e Paulo Maluf, com o "malufar", são dois exemplos. Com a mágica de desafiar a lei da Física - um corpo não ocupa dois espaços ao mesmo tempo - quando diz que é capaz de ser e não ser, invertendo, aliás, a antinomia shakespeariana do ser ou não ser, Lula se habilita a engrossar o dicionário de verbetes com o termo "lular". Significa algo como entender o todo, mas não as partes. É o que se viu em sua performance no Roda Viva. Vejam: assume responsabilidade diante da crise, mas descaracteriza as causas da tensão. Crise é como fogueira. Se alguém admite ser responsável pelo fogo, também tem responsabilidades sobre a lenha.
Que Lula procure negar a existência de mensalão, vá lá. Confirmar a existência de uma bomba debaixo de seu assento seria o mesmo que suicídio. O caminho do impeachment estaria aberto. Mas dizer que nada está provado contra Waldomiro Diniz, ex-assessor de José Dirceu, flagrado cobrando propina de Carlinhos Cachoeira, é lular. Garantir que nada tem que ver com Duda Mendonça, o marqueteiro de sua campanha, que recebeu dinheiro no exterior, é também lular, além de ser traição ao amigo. Expressar a certeza de que José Dirceu, mesmo inocente, será cassado por motivação política, é mais que lular, é maquiavelismo. A exclusão de Dirceu ajudaria o presidente a apagar a fogueira. E, assim, o ex-todo-poderoso ministro da Casa Civil perde endosso para pedir absolvição ao plenário da Câmara. Assistir ao filme Os 2 Filhos de Francisco num DVD pirata, na viagem a Moscou, e combater a pirataria também faz parte do abecedário lulista. Equivale a dizer que não cria obstáculos à prorrogação da CPI dos Correios, enquanto, nos bastidores, tentou negociar seu término para o final do ano. Preço: aumento da emenda individual dos parlamentares no orçamento de R$ 3,5 milhões para R$ 5 milhões.
Já se disse que a imaginação é o brinquedo da psique. Por conseqüência, a natureza humana é essencialmente lúdica. Aceita a hipótese, o brasileiro seria o mais brincalhão da espécie humana. Brinca com tudo e por tudo. Enquadra-se nas quatro categorias do jogo lúdico descritas pelo pensador Roger Caillois. Na Agon, espaço da competição e do atletismo, elege o futebol; na categoria Alea, onde estão o azar, o acaso, o destino, faz fezinha no jogo do bicho e nas loterias; na Illinx, categoria da vertigem e do risco, o brasileiro identifica-se com as corridas, os recordes de velocidade, os números de grandeza; e na Mimese, que acolhe as representações, a alma tupiniquim entra na catarse do carnaval. Tudo isso para dizer que o nosso presidente é um brincalhão maior. Seus achados lingüísticos e metáforas homenageiam todas as faces do ludismo (e, claro, do lulismo). Mas a banda da representação é a mais forte. Lula esforça-se, e muito, para ser mais do que é.