As garras da 'racaille'
Os distúrbios das últimas duas semanas na França revelam que um espectro ronda a Europa - não obviamente o do comunismo, de que falava Marx em 1848, mas o da fúria imitigada dos seus jovens cidadãos de segunda classe e pele escura. Na periferia geográfica, econômica, social e cultural desse Velho Mundo reinventado que se estende da Escandinávia à Ibéria e do Danúbio ao Atlântico, eles respiram na esqualidez e na brutalidade cotidiana de seu entorno o legítimo ressentimento de não terem as mesmas oportunidades que os seus coetâneos de primeira classe e pele clara. Estes se sentem em casa em qualquer dos centros urbanos da nova Europa estelar e desfrutam do que o capitalismo avançado ostenta de mais sedutor: o vasto arsenal de mercadorias de que Marx também falava. Ou, em linguagem atual e mais definidora, do vasto e permanentemente renovado repertório de bens de consumo e serviços da civilização pós-industrial que o proletariado de século e meio atrás - e muito menos o lumpemproletariado - não conseguiria conceber nem nas suas mais utópicas fantasias. Há uma distância abissal entre os incendiários da banlieue e os pobres de Paris das canções de outrora - quando, aliás, o que os ricos tinham para se deliciar era uma fração da cornucópia de objetos de desejo e facilidades hoje ao alcance dos seus descendentes. E não só deles, mas também, com as devidas diferenças de etiquetas, da imensa classe média que se expandiu na Europa desde o fim da 2ª Guerra Mundial, reproduzindo em muito menos tempo o processo de constituição da sociedade de massas original, made in USA. Os excluídos que povoam os subúrbios europeus, separados dos elegantes boulevares de suas metrópoles por nada mais do que um bilhete de metrô, diferentemente dos miseráveis de Victor Hugo, amontoados nos seus guetos, são os modernos metecos, como os atenienses se referiam aos forâneos entre eles, ainda que também fossem helênicos. São metecos porque a sua condição européia, de filhos e até mesmo netos de europeus, não os redime do estigma de estrangeiros - os "outros" que habitam o que, para muitos dos que não se despiram de suas heranças racistas, é o inferno sartriano. De fato, esses norte-africanos combinam alguns dos piores traços das sociedades patriarcais das quais migraram os seus ascendentes - a exacerbada agressividade, o tribalismo dos bandos prontos para a delinqüência - com o que há de pior na juventude das sociedades ocidentais contemporâneas: a negação da autoridade, a indiferença pelas instituições, o desdém pela política, a glorificação do consumo ritualizado da droga. Mas isso não atenua as culpas da versão européia do que os americanos costumavam chamar, com carradas de eufemismo, negligência benigna, em relação aos negros. Os beurs são os últimos a conseguir trabalho digno e os primeiros a perdê-lo; são os primeiros a ser maltratados pela polícia e os últimos a ser respeitados pelo Estado, sob a forma de serviços públicos, equipamentos sociais e habitações decentes, e efetivos programas de integração. E o ministro do Interior da França, Nicolas Sarkozy, ainda foi exumar o arcaísmo racaille (escumalha) ao reagir às pedradas com que o receberam no subúrbio parisiense de Argentueil, antes até das depredações em série. Por que as conseqüências haveriam de surpreender? "Se sou um cão", Shakespeare fez o judeu Shylock advertir os cristãos que o vilipendiavam, "cuidado com as minhas garras." Agora que a escumalha dos vilipendiados mostrou as suas, os franceses, sob o olhar aflito dos vizinhos, se perguntam como fazer para apará-las. Talvez pudessem começar entendendo o que um dos seus, o islamista Olivier Roy, diretor do Centro Nacional de Pesquisas Científicas da França, escreveu sobre os revoltosos, em artigo reproduzido ontem neste jornal: "(Eles) querem ser aceitos integralmente como cidadãos. Acreditaram no modelo francês (integração individual por meio da cidadania), mas sentem-se enganados por causa de sua exclusão social e econômica. Assim eles destroem o que consideram ferramentas da promoção social frustrada: escolas, escritórios de assistência social, ginásios (...). Afinal, lidamos aqui com problemas enfrentados por qualquer cultura na qual as desigualdades e as diferenças culturais entram em conflito com os nobres ideais (...). A luta pela integração de uma classe desfavorecida e furiosa é compartilhada por todo o mundo ocidental."
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Entrevista:O Estado inteligente
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