Entrevista:O Estado inteligente

sexta-feira, novembro 04, 2005

MIRIAM LEITÃO Perda de tempo

O GLOBO

O encontro das Américas tem tudo para ser perda de tempo de todos os lados. Os diplomatas tentarão salvar a face e os textos, mas dificilmente sairia algum coelho dessa cartola. Primeiro, porque o dono da cartola está no seu pior momento: o governo Bush enfrenta queda de popularidade e de confiança da população pelos erros sucessivos cometidos nos últimos anos.ø
Segundo, porque tem muita gente lá querendo jogar para a platéia interna, em vez de procurar algum entendimento proveitoso para os países.


Hugo Chávez tem desperdiçado o melhor momento dos preços do petróleo — para um país que é o quinto maior produtor do mundo — sem ter um projeto que promova o crescimento sustentado do país.

Apesar dos rios de dólares que a Venezuela recebe do comércio internacional de petróleo, Chávez não tem conseguido reduzir a imensa pobreza do país. Por temperamento ou opção, prefere a retórica e o populismo. Para Chávez é muito cômodo esse pretenso conflito com os Estados Unidos, porque isso encobre o fracasso de sua política social e dá a justificativa para seus bizarros gastos militares e o treinamento dos seus círculos bolivarianos, que servem também para intimidar a oposição interna.

O governo Bush acaba dando ares de verdade a esse conflito. Documentos do Pentágono publicados pelo jornal "Washington Post" põem a Venezuela na lista dos países contra os quais é preciso preparar um plano de contingência de um possível conflito militar.

Um diplomata brasileiro que acompanha a relação entre os Estados Unidos e a América Latina afirmou que hoje os americanos têm sido obsessivos com a Venezuela. Apesar da diferença de tamanho entre as duas economias, é a Venezuela e não o Brasil que concentra as atenções de Washington.

O que eles querem saber é que força terá Chávez na região, se Evo Morales será um segundo Chávez ou não, se Néstor Kirchner é ou não um possível aliado do líder venezuelano e de que lado está o Brasil.

Do nosso ponto de vista é patético que tenhamos de ser analisados tendo como referência o governo da Venezuela. O Brasil tem tamanho e importância para ser analisado separadamente e não como parte de um estranho imbróglio criado por Chávez.

Para o Brasil, o fundamental é aumentar o comércio, ter mais acesso ao mercado americano e manter um clima de entendimento com todos os países da região. Por isso, tem que continuar sendo a força moderadora que sempre foi no passado entre os países da região.

Os Estados Unidos são e continuarão sendo o principal parceiro comercial do Brasil. Apesar disso, não somos dependentes dos Estados Unidos como o México é. O Brasil tem competitividade para conquistar uma fatia maior do mercado americano, mas terá de fazer isso pela força dos exportadores brasileiros. A possibilidade de um grande acordo continental que reduza barreiras ao comércio está adiada.

Nas reuniões preparatórias, representantes de alguns países brigavam sobre se deveria ou não ser incluída a Alca na declaração dos presidentes. É indiferente. Nos últimos anos os dois co-presidentes da Alca, Brasil e Estados Unidos, gastaram tempo e dinheiro do contribuinte em reuniões nas quais escaramuças de ambos os lados ajudaram a minar a possibilidade de um acordo.

O avanço no ponto que nos interessa mais diretamente, que é a redução dos subsídios agrícolas, depende de um entendimento entre Estados Unidos e Europa na Rodada Doha. E a posição dentro da Europa depende principalmente da queda-de-braço entre os mais liberais, como a Inglaterra, e os mais protecionistas, como a França. Em resumo: não será em Mar del Plata que serão tomadas decisões relevantes na abertura do comércio agrícola mundial, por mais que os diplomatas queiram valorizar o encontro.

No encontro entre os presidentes Bush e Lula, um dos assuntos certamente será a preocupação do Brasil em ter um assento na ONU. Aqui dentro, essa preocupação da diplomacia brasileira tem sido muito criticada, mas a posição do Brasil está correta no ponto principal: a estrutura de poder mundial envelheceu. Ela não é apenas injusta, é completamente estranha diante de um mundo que mudou muito desde a Segunda Guerra Mundial.

Se o Brasil não tivesse reivindicado um posto no conselho de segurança talvez estivesse sendo criticado. O erro maior da diplomacia nesse caso tem sido submeter todos os outros interesses e fazer todo tipo de concessão em troca de ilusórios votos favoráveis ao Brasil, como fez ao declarar que a China é uma economia de mercado.

Haveria muito o que conversar entre os países da região em termos de aumentar o comércio regional e reduzir os entraves ao crescimento. Mas para que a conversa fosse produtiva seria necessário que o presidente Bush tivesse real interesse na América Latina. Ele nunca teve; depois do 11 de Setembro virou completamente as costas para os vizinhos, com a exceção do Canadá, claro, e, em alguma medida, o México. Seria necessário que Hugo Chávez não estivesse tão interessado em provocar algum incidente para atrair a atenção. Seria necessário que Néstor Kirchner tivesse um comportamento menos errático. E que o Brasil não perdesse a noção do que é importante do nosso ponto de vista.

Diplomacia é sempre o melhor caminho para resolver qualquer desentendimento e pavimentar o caminho para o progresso futuro. Por isso, ainda resta alguma esperança de que o encontro de Mar del Plata não seja mais um encontro sobre nada, repleto de factóides e sem substância.

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