O GLOBO
O encontro das Américas tem tudo para ser perda de tempo de todos os lados. Os diplomatas tentarão salvar a face e os textos, mas dificilmente sairia algum coelho dessa cartola. Primeiro, porque o dono da cartola está no seu pior momento: o governo Bush enfrenta queda de popularidade e de confiança da população pelos erros sucessivos cometidos nos últimos anos.ø
Segundo, porque tem muita gente lá querendo jogar para a platéia interna, em vez de procurar algum entendimento proveitoso para os países.
Hugo Chávez tem desperdiçado o melhor momento dos preços do petróleo — para um país que é o quinto maior produtor do mundo — sem ter um projeto que promova o crescimento sustentado do país.
Apesar dos rios de dólares que a Venezuela recebe do comércio internacional de petróleo, Chávez não tem conseguido reduzir a imensa pobreza do país. Por temperamento ou opção, prefere a retórica e o populismo. Para Chávez é muito cômodo esse pretenso conflito com os Estados Unidos, porque isso encobre o fracasso de sua política social e dá a justificativa para seus bizarros gastos militares e o treinamento dos seus círculos bolivarianos, que servem também para intimidar a oposição interna.
O governo Bush acaba dando ares de verdade a esse conflito. Documentos do Pentágono publicados pelo jornal "Washington Post" põem a Venezuela na lista dos países contra os quais é preciso preparar um plano de contingência de um possível conflito militar.
Um diplomata brasileiro que acompanha a relação entre os Estados Unidos e a América Latina afirmou que hoje os americanos têm sido obsessivos com a Venezuela. Apesar da diferença de tamanho entre as duas economias, é a Venezuela e não o Brasil que concentra as atenções de Washington.
O que eles querem saber é que força terá Chávez na região, se Evo Morales será um segundo Chávez ou não, se Néstor Kirchner é ou não um possível aliado do líder venezuelano e de que lado está o Brasil.
Do nosso ponto de vista é patético que tenhamos de ser analisados tendo como referência o governo da Venezuela. O Brasil tem tamanho e importância para ser analisado separadamente e não como parte de um estranho imbróglio criado por Chávez.
Para o Brasil, o fundamental é aumentar o comércio, ter mais acesso ao mercado americano e manter um clima de entendimento com todos os países da região. Por isso, tem que continuar sendo a força moderadora que sempre foi no passado entre os países da região.
Os Estados Unidos são e continuarão sendo o principal parceiro comercial do Brasil. Apesar disso, não somos dependentes dos Estados Unidos como o México é. O Brasil tem competitividade para conquistar uma fatia maior do mercado americano, mas terá de fazer isso pela força dos exportadores brasileiros. A possibilidade de um grande acordo continental que reduza barreiras ao comércio está adiada.
Nas reuniões preparatórias, representantes de alguns países brigavam sobre se deveria ou não ser incluída a Alca na declaração dos presidentes. É indiferente. Nos últimos anos os dois co-presidentes da Alca, Brasil e Estados Unidos, gastaram tempo e dinheiro do contribuinte em reuniões nas quais escaramuças de ambos os lados ajudaram a minar a possibilidade de um acordo.
O avanço no ponto que nos interessa mais diretamente, que é a redução dos subsídios agrícolas, depende de um entendimento entre Estados Unidos e Europa na Rodada Doha. E a posição dentro da Europa depende principalmente da queda-de-braço entre os mais liberais, como a Inglaterra, e os mais protecionistas, como a França. Em resumo: não será em Mar del Plata que serão tomadas decisões relevantes na abertura do comércio agrícola mundial, por mais que os diplomatas queiram valorizar o encontro.
No encontro entre os presidentes Bush e Lula, um dos assuntos certamente será a preocupação do Brasil em ter um assento na ONU. Aqui dentro, essa preocupação da diplomacia brasileira tem sido muito criticada, mas a posição do Brasil está correta no ponto principal: a estrutura de poder mundial envelheceu. Ela não é apenas injusta, é completamente estranha diante de um mundo que mudou muito desde a Segunda Guerra Mundial.
Se o Brasil não tivesse reivindicado um posto no conselho de segurança talvez estivesse sendo criticado. O erro maior da diplomacia nesse caso tem sido submeter todos os outros interesses e fazer todo tipo de concessão em troca de ilusórios votos favoráveis ao Brasil, como fez ao declarar que a China é uma economia de mercado.
Haveria muito o que conversar entre os países da região em termos de aumentar o comércio regional e reduzir os entraves ao crescimento. Mas para que a conversa fosse produtiva seria necessário que o presidente Bush tivesse real interesse na América Latina. Ele nunca teve; depois do 11 de Setembro virou completamente as costas para os vizinhos, com a exceção do Canadá, claro, e, em alguma medida, o México. Seria necessário que Hugo Chávez não estivesse tão interessado em provocar algum incidente para atrair a atenção. Seria necessário que Néstor Kirchner tivesse um comportamento menos errático. E que o Brasil não perdesse a noção do que é importante do nosso ponto de vista.
Diplomacia é sempre o melhor caminho para resolver qualquer desentendimento e pavimentar o caminho para o progresso futuro. Por isso, ainda resta alguma esperança de que o encontro de Mar del Plata não seja mais um encontro sobre nada, repleto de factóides e sem substância.
Entrevista:O Estado inteligente
- Índice atual:www.indicedeartigosetc.blogspot.com.br/
- INDICE ANTERIOR a Setembro 28, 2008
Arquivo do blog
-
▼
2005
(4606)
-
▼
novembro
(452)
- PT, a frustração de Marx
- Pisavam nos astros, distraídos... CÉSAR BENJAMIN
- Quem pode ser contra as políticas sociais?
- José Nêumanne O mandato de Dirceu vale uma crise?
- LUÍS NASSIF Tem marciano no pedaço
- FERNANDO RODRIGUES Os sinais das bengaladas
- CLÓVIS ROSSI De "exército" a supérfluos
- EDITORIAIS DA FOLHA DE S PAULO
- MERVAL PEREIRA Continuidade
- ELIO GASPARI As leis da burocracia no apocalipse
- MIRIAM LEITÃO Destinos da América
- EDITORIAIS de O ESTADO DE S.PAULO
- EDITORIAIS de O ESTADO DE S.PAULO
- Nota (infundada) de falecimento Luiz Weis
- DORA KRAMER Controle externo subiu no telhado
- Lucia Hippolito As trapalhadas do Conselho de Ética
- O PT reescreve a história
- LUÍS NASSIF A dama de ferro
- Fazenda promete liberar R$ 2 bi para investimentos...
- JANIO DE FREITAS Pinga-pinga demais
- ELIANE CANTANHÊDE Não é proibido gastar
- CLÓVIS ROSSI Votar, votar, votar
- Jarbas Passarinho Maneiras diversas de governar
- EDITORIAIS DA FOLHA DE S PAULO
- EDITORIAIS de O ESTADO DE S.PAULO
- DORA KRAMER Movimento dos sem-prumo
- ALI KAMEL Não ao Estatuto Racial
- Arnaldo Jabor Vamos continuar de braços cruzados?
- MERVAL PEREIRA A paranóia de cada um
- Luiz Garcia Joca Hood
- MIRIAM LEITÃO Meio-termo
- AUGUSTO NUNES Iolanda só quer morrer em casa
- A hora das provas
- Carlos Alberto Sardenberg Menos é melhor
- EDITORIAIS de O ESTADO DE S.PAULO
- Denis Lerrer Rosenfield A perversão da ética
- Alcides Amaral O circo de Brasília
- FERNANDO RODRIGUES Uma boa mudança
- EDITORIAIS DA FOLHA DE S PAULO
- EDITORIAIS DA FOLHA DE S PAULO
- EDITORIAIS DA FOLHA DE S PAULO
- Lucia Hippolito O Supremo entrou na crise
- Lula é que é a verdadeira urucubaca do Brasil. Há ...
- A voz forte da CPI
- AUGUSTO NUNES O atrevimento dos guerreiros de toga
- MERVAL PEREIRA Mentiras políticas
- MIRIAM LEITÃO A balança
- Gaudêncio Torquato Lula entre o feijão e o sonho
- Paulo Renato Souza Há dez anos nascia o Provão
- DORA KRAMER Crise faz Jobim antecipar decisão
- JOÃO UBALDO RIBEIRO Os Independentes do Ritmo
- RICARDO NOBLAT Lições esquecidas em Cuba
- Celso Ming - Má notícia
- Daniel Piza O homem-bigode
- Mailson da Nóbrega Cacoete pueril
- FERREIRA GULLAR Paraíso
- DANUZA LEÃO Bom mesmo é namorar de longe
- LUÍS NASSIF O iconoclasta internacionalista
- Negociações comerciais e desindustrialização RUBEN...
- ELIO GASPARI
- JANIO DE FREITAS De olho na TV
- ANTÔNIO ERMÍRIO DE MORAES Gargalos brasileiros Tra...
- ELIANE CANTANHÊDE O sonho da terceira via
- CLÓVIS ROSSI Nem para exportação
- EDITORIAIS DA FOLHA DE S PAULO
- As manchetes deste sábado ajudam a campanha da ree...
- VEJA Como Darwin influenciou o pensamento moderno
- VEJA André Petry Soltando os presos
- VEJA Tales Alvarenga Bolcheviques cristãos
- VEJA Diogo Mainardi Posso acusar Palocci?
- VEJA MILLÔR
- VEJA Roberto Pompeu de Toledo A farsa cruel de um ...
- VEJA PSDB e PFL pegam leve de olho na governabilidade
- VEJA Como a turma de Ribeirão quase virou dona de ...
- VEJA Palocci vence queda-de-braço com Lula
- Corrupção ontem e hoje ZUENIR VENTURA
- MERVAL PEREIRA Dilema tucano
- MIRIAM LEITÃO Boa forma
- Complacência da imprensa Mauro Chaves
- EDITORIAIS de O ESTADO DE S.PAULO
- EDITORIAIS de O ESTADO DE S.PAULO
- EDITORIAIS de O ESTADO DE S.PAULO
- DORA KRAMER Imponderados Poderes
- Fogo baixo GESNER OLIVEIRA
- FERNANDO RODRIGUES A tese da alternância
- CLÓVIS ROSSI A vassoura e a China
- EDITORIAIS DA FOLHA DE S PAULO
- EDITORIAIS DA FOLHA DE S PAULO
- EDITORIAIS DA FOLHA DE S PAULO
- LULA TEM JEITO? por Villas-Bôas Corrêa
- Lula sabia, diz empresária
- Cadastro de internet
- MERVAL PEREIRA Até Lúcifer
- LUIZ GARCIA Cuidado: eles cobram
- MIRIAM LEITÃO A lona cai
- EDITORIAIS de O ESTADO DE S.PAULO
- DORA KRAMER Impasse continuado
- LUÍS NASSIF Cartas à mesa
- "Sou Palocci desde criança" LUIZ CARLOS MENDONÇA D...
- ELIANE CANTANHÊDE Em pé de guerra
-
▼
novembro
(452)
- Blog do Lampreia
- Caio Blinder
- Adriano Pires
- Democracia Politica e novo reformismo
- Blog do VILLA
- Augusto Nunes
- Reinaldo Azevedo
- Conteudo Livre
- Indice anterior a 4 dezembro de 2005
- Google News
- INDICE ATUALIZADO
- INDICE ATE4 DEZEMBRO 2005
- Blog Noblat
- e-agora
- CLIPPING DE NOTICIAS
- truthout
- BLOG JOSIAS DE SOUZA