O GLOBO
Dizer que a reunião da OMC em Hong Kong fracassou é dizer pouco. As negociações da Rodada de Doha chegaram num impasse completo. Cansado de esperar um avanço na redução de subsídios europeus, o Brasil endureceu, segundo o editorial do "New York Times". A revista "The Economist" disse que se houvesse corte nos subsídios, o Brasil poderia ter um ganho de US$ 3,6 bilhões por ano.
Somos pequenos em muita coisa no mundo, mas somos grandes no agronegócio, portanto parte do nosso futuro é jogada nas negociações da Rodada de Doha. Os países negociam aberturas comerciais, há 50 anos, em rodadas que levam anos para serem concluídas. Depois de cada uma delas, o comércio fica um pouco mais livre. Nas reuniões dos anos 70 e 90 — as Rodadas de Tóquio e Uruguai — foram discutidas reduções de barreiras apenas para produtos industriais e serviços. Em Doha pela primeira vez chegou-se ao ponto que nos interessa. E empacou, depois de quatro anos.
Segundo o jornal americano, o ministro Celso Amorim falou grosso: se os países ricos não cortarem os subsídios, as negociações industriais e de serviços vão demorar "não um mês, dois meses, um ano ou dois anos. As negociações simplesmente não vão andar".
O mundo desenvolvido gasta US$ 1 bilhão por dia em subsídios agrícolas. Com tal injeção, há uma superprodução, os preços caem, e a competição com os produtos de países pobres ou de renda média fica injusta.
O Brasil cresce no mercado de grãos e carnes porque tem outros incentivos. Não financeiros, mas sim naturais: água, solo e sol. A revista inglesa "The Economist", na edição da semana passada, trouxe uma reportagem de três páginas com uma chamada na capa: "Brasil, a superpotência agrícola." Nela, afirma que "o avanço inexorável do Brasil como uma superpotência agrícola é um importante pano de fundo das negociações comerciais".
Dados da revista: as safras de uvas maturam em 120 dias em Petrolina; São Paulo produz o açúcar e o suco de laranja mais baratos do mundo; o cerrado "sem fim" é ideal para produzir soja. O país é o maior exportador de carne, café, suco de laranja, açúcar, e está entre os maiores de soja, frango e suíno. "Ao contrário dos seus competidores, o Brasil não está ficando sem terra. A agricultura ocupa 60 milhões de hectares agora, mas pode se estender por outros 90 milhões de hectares, sem tocar na floresta amazônica", diz a revista, citando Silvio Crestana, diretor da Embrapa.
Mas a revista também reconhece outros elementos do sucesso brasileiro. Citando José Roberto Mendonça de Barros, o texto fala do "conhecimento aplicado à natureza" como a fundação do desenvolvimento brasileiro na área.
O volume de produção do Brasil cresceu muito nos últimos anos, e o país se tornou o terceiro maior produtor de alimentos do mundo, atrás dos Estados Unidos e da União Européia, sendo o primeiro a maior potência do mundo, o segundo, uma união de muitos países, e ambos fomentam sua produção com doses cavalares de subsídios.
O governo americano propôs reduzir em 60% seus subsídios — que chegam a US$ 80 bilhões — se a Europa e o Japão concordarem em cortar os deles em 83%. Os outros cortam mais porque subsidiam mais. Nada avançou. No mês que vem em Genebra os ministros deveriam fechar um acordo, que já foi adiado uma vez. A reunião da semana passada mostra que não vai muito adiante. O próprio "New York Times" termina seu editorial dizendo: "Se a União Européia vai realmente se recusar a consertar meio século de subsídios que distorcem o comércio, e que ajudaram os ricos às expensas dos pobres, então há uma resposta fácil: as conversações simplesmente não andarão."
A revista inglesa, pelo seu lado, mostra que o Brasil tem mais a fazer além de ficar parado na estrada esperando o fim desse meio século de distorções comerciais: o país tem infra-estrutura indigente, falhas sanitárias, agressões ambientais e denúncias de trabalho escravo, aponta.
"Os fazendeiros (principalmente no Norte) freqüentemente contratam trabalhadores de agenciadores chamados gatos, que muitas vezes abusam dos trabalhadores, expondo os produtores às acusações de trabalho escravo", diz a revista. Uma frase dessa, apesar de no meio da matéria, produz um enorme estrago. Para evitá-la só há um caminho: erradicar o vergonhoso trabalho escravo no campo brasileiro, pagando os salários, respeitando os direitos, melhorando a qualidade de vida dos funcionários. Não fazer isso é se expor às barreiras comerciais. Ou o produtor rural brasileiro pensa que pode ser o mais eficiente do mundo, ter tantas vantagens naturais, estar crescendo há tantos anos e deixar um ponto fraco como esse? Se a mancha não for eliminada, todos pagarão pelos erros de alguns.
É hora de se levantar do berço esplêndido. "Muitos fazendeiros tinham imaginado que o seu boi verde, protegido contra o mal da vaca louca, não precisava de nenhuma outra credencial", diz a revista. E aí vieram os focos de febre aftosa. Proteção ao meio ambiente é outra exigência que tem crescido. Uma manchete como a do jornal "Independent", em meados do ano, chamando o governador-produtor de soja Blairo Maggi de estuprador da floresta eleva os riscos de barreiras verdes contra o produto brasileiro.
O Brasil precisa ter visão estratégica. Além de ser um duro negociador, tem de combater os riscos de barreiras futuras. Afinal, como diz a "Economist", "graças ao sol, solo, ciência e água, a agricultura brasileira será, com certeza, uma vencedora".
Entrevista:O Estado inteligente
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