O GLOBO
Uma vitória sempre é uma vitória, mas uma vitória apertada como a que o casal Garotinho obteve na noite de quinta-feira no Tribunal Regional Eleitoral do Rio pode dificultar a situação deles no Tribunal Superior Eleitoral, onde cabe recurso, e isso, segundo seus adversários, desgasta a candidatura de Garotinho dentro do PMDB.
Além de ter vencido pelo voto de minerva do presidente do TRE, os Garotinho, e os cidadãos de maneira geral, ainda tiveram que passar pelo constrangimento de ouvir comentários como o da desembargadora federal Vera Lúcia Lima e Silva, que votou contra a inelegibilidade com base em conceitos como "não é atribuição da governadora fiscalizar o dia-a-dia da aplicação de cada programa social de seu governo".
E fez ironias do tipo: "No contexto em que estamos vivendo, com as denúncias de mensalão, a quantia (os R$ 318 mil apreendidos na sede do PMDB em Campos sem origem comprovada) deixou de ser vultosa e passou a ser módica". Seu voto provocou murmúrios de revolta entre os advogados presentes ao tribunal, e fez com que o advogado Ivan Nunes Ferreira, que votou contra Garotinho, balançasse a cabeça em desaprovação.
O risco do casal no TSE ainda é grande, se lembrarmos que recentemente o senador João Capiberibe, do Acre, teve o mandato cassado por comprar dois votos a R$ 26. Com muito mais razão a Justiça Eleitoral teria que ser austera com os R$ 318 mil que a desembargadora Vera Lúcia Lima da Silva considerou quantia "módica". Garotinho ontem se dizia "aliviado em parte". Mas ele acha que a vitória apertada não vai influenciar o resultado do TSE, "porque aqui a votação estava muito apaixonada".
Na análise de seus assessores, é difícil que o TSE altere o resultado de um tribunal regional. Além do mais, como o recurso vai demorar, provavelmente a decisão do TSE sairá depois das prévias do PMDB, no início de março de 2007. Se Garotinho ganhar a indicação da legenda para disputar a Presidência da República, será politicamente mais difícil o TSE puni-lo. O resultado do TRE trouxe alívio a Garotinho, que ficaria inviabilizado em caso de derrota: "Ia ficar muito complicado eu sair pedindo voto com a possibilidade de inelegibilidade, mesmo podendo recorrer", admite.
Ele faz as contas e diz que do dia 19 de outubro, quando se inscreveu candidato, até hoje, já visitou 30 cidades em menos de 20 dias. Ontem estava em Goiânia, almoçando com o governador Íris Rezende e com o senador Maguito Vilela, e iria ainda a Jataí e Anápolis. Sua média tem sido visitar quatro cidades por dia. Ele diz que a tese da candidatura própria "é irreversível", embora isso não signifique que seja ele a opção do comando do partido. Ao contrário, ele quer ganhar as prévias para dificultar a ação da cúpula partidária, que trabalha contra sua candidatura. Para isso, a indefinição de outros candidatos para se inscrever nas prévias também o favorece.
O governador Germano Rigotto, do Rio Grande do Sul, pode até se candidatar, mas na sua avaliação, em janeiro "vai sair atrasado". "Não dá tempo de fazer campanha. Nesse ritmo em que estou indo, vou chegar em 5 de março tendo visitado quase 200 cidades", resume Garotinho. Assim, foi dele a idéia de realização das prévias, porque sabia que só teria chance de sair candidato no PMDB se o sistema de escolha fosse fora do usual.
Para bombardeá-lo, começaram a ampliar muito o colégio eleitoral, que hoje já engloba cerca de 20 mil votantes entre vereadores, presidentes de diretórios municipais, prefeitos, vice-prefeitos, deputados estaduais e delegados à convenção. Garotinho conseguiu então que o PMDB ponderasse o peso eleitoral de cada estado, para que estados como Minas, por exemplo, que tem muitos municípios, não desequilibrasse o resultado final.
Garotinho acha que vai disputar o segundo turno da eleição do próximo ano com o PSDB. Perguntado se considera que o PT está morto, Garotinho saca uma frase do primeiro-ministro britânico Winston Churchill: "A diferença entre a guerra e a política é que na guerra você morre uma vez só". Para ele, o PT não está morto, mas está difícil se explicar com o eleitorado. "Lula tem muito destaque porque é o presidente, mas na campanha eleitoral, com o debate, o contraditório, ele não tem como se explicar".
Garotinho vê também dificuldades logísticas para uma eventual campanha presidencial de Lula: "Ele tem que construir nesse pouco tempo um novo núcleo de campanha. O núcleo básico dele foi o Duda Mendonça na parte de propaganda e marketing; José Dirceu cuidando da articulação política e das alianças; o Genoino tocando a máquina partidária junto com o Dirceu e o Palocci coordenando. Está todo mundo alvejado, como se ele tivesse um exército com todo mundo ferido".
A utilização de metáforas militares parece demonstrar que Garotinho está pintado para a guerra, mas ele recusa a caracterização: "Nesta eleição, quem vai ser o 'Paz e Amor' vai ser o Garotinho. Vou deixar o PT brigar com o PSDB e vou ficar no meio". Para tanto, Garotinho está montando uma estrutura no Rio e em São Paulo. Dividiu os estados em distritos, e em cada distrito desses tem uma pessoa de sua confiança que está coordenando o processo politicamente.
São Paulo é decisivo, tanto nas prévias do PMDB quanto depois, na eleição, e ele está concentrando 50% de suas viagens lá, no interior e na capital. Pelo seu raciocínio, precisa ter em São Paulo os cerca de 3 milhões de votos que teve em 2002 para, com a votação do Rio, anular a vantagem que os candidatos Lula e Serra terão sobre ele em São Paulo. Na última eleição, a vantagem que o Serra teve sobre ele em São Paulo, ele anulou no Rio. Aí a decisão ficaria para o resto do país.
Nem um, nem outro
A tendência à candidatura própria no PMDB parece cada vez mais forte, embora um núcleo importante dentro do partido, comandado pelos senadores Renan Calheiros e José Sarney, não se canse de trabalhar para que o PMDB adira à reeleição do presidente Lula. Essa, aliás, seria uma das condições para que Lula realmente se decidisse pela reeleição, como deixou claro na entrevista que deu ao Roda-Viva recentemente. Quando falou de ter condições de "ampliar" suas alianças políticas, estava claramente se referindo ao PMDB. Assim como em 2002 José Serra colocava a adesão do PMDB à sua candidatura como ponto primordial para viabilizá-la. Ele pensava que mesmo sem o apoio do PFL, sua candidatura teria força política se apoiada pelo PMDB, a quem deu a vice-presidência. Não foi o suficiente.
O PMDB hoje é o partido que tem mais prefeitos e vereadores, tem a maior bancada do Senado e a segunda bancada da Câmara, rivalizando com a do PT. E é o partido que tem maior número de governadores, junto com o PSDB. É uma máquina partidária respeitável, mas que não consegue nunca estar unida em torno de uma candidatura.
Com a decisão de lançar um candidato próprio se fortalecendo, Garotinho pode ser uma opção, embora continue sofrendo a rejeição dos cardeais do partido, que consideram que uma vitória dele não será uma vitória do partido. Insistindo em ficar no PMDB, Garotinho quis tirar o argumento de seus adversários de que ele não tem história no PMDB.
Mas há um esforço desse grupo no sentido de sabotar as prévias, não realizá-las, cujo sucesso está muito vinculado ao sucesso do próprio Lula, a quem querem apoiar. Mas há também um movimento dentro do partido para que o candidato não seja nem Lula, nem Garotinho. Governadores como Germano Rigotto, do Rio Grande do Sul, e Jarbas Vasconcellos, de Pernambuco, têm a preferência dos "cardeais" do partido. No caso de o apoio a Lula prevalecer, a hipótese mais provável é que Renan Calheiros venha a ser o vice em uma eventual chapa com o PT.
Não é à toa que o Presidente do Senado tem tomado atitudes que favorecem o governo, como bombardear a candidatura do presidente do PMDB, Michel Temer, à presidência da Câmara; ou demorar um dia para ler o requerimento de prorrogação da CPI dos Correios, para dar tempo ao governo de tentar retirar algumas assinaturas. Ou então faz movimentos a favor do senador José Sarney, — como a cassação do senador Capiberibe, adversário de Sarney, que ele acatou sem discussão e depois foi desautorizado pelo STF - seu aliado na luta para levar o PMDB para Lula.
O presidente do partido, Michel Temer, depois do que Calheiros fez com ele na eleição da presidência da Câmara, está apoiando Garotinho com mais ênfase. Como é um político experiente, a ação de Calheiros a favor do governo tem limites. Foi o que aconteceu na sexta-feira, quando se recusou a ajudar o governo mais uma vez na questão das assinaturas, quando ficou claro que a situação errara na estratégia.
Portanto, se Lula estiver fraco, Garotinho não é a única alternativa, nem a mais provável, mas é um forte candidato, ainda mais se continuar aparecendo bem nas pesquisas de opinião. E o foco da crise está se aproximando do Presidente, depois da provável cassação do José Dirceu, as luzes vão todas para o Planalto, começando pelo Ministro da Fazenda Antonio Palocci.
Garotinho diz que os que querem adiar as prévias "não têm o menor apoio nos diretórios estaduais". Ele cita como exemplo a visita que fez a São Paulo semana passada, onde foi acompanhado do presidente do partido no estado, deputado Paulo Lima, e em Campinas foi recebido pelo sobrinho de Quércia, que é o presidente do diretório, e pelo deputado Marcelo Barbieri, o principal líder quercista. Garotinho ressalva: "Quércia não está me apoiando, está apoiando as prévias. Mas ele não liberaria a base dele em São Paulo se não tivesse uma certa simpatia pela minha candidatura".
Garotinho acha que Quércia está mantendo uma certa neutralidade por que o maior colégio eleitoral das prévias é São Paulo, "e eu vou ter mais de 60% dos votos dos convencionais". Para exemplificar essa "simpatia", conta que Quércia lhe disse que estava sendo convidado para um almoço em Brasília com Renan Calheiros e José Sarney, cuja pauta era "o adiamento das prévias". Como Quércia estranhasse querer adiar as prévias agora, Calheiros teria feito o seguinte comentário, segundo Quércia: "Mas se deixar ter as prévias, o Garotinho ganha".
Como inviabilizar as prévias? Primeiro, conseguindo que a Executiva tome uma outra decisão. Os cardeais podem também atrasar os preparativos das prévias, criar uma situação que torne inexeqüível sua realização. Tanto que Garotinho insistiu em ter um calendário definido, e a formação de uma comissão para organizar as prévias no Brasil. Garotinho acha que "não há clima para adiamento", e que se ganhar nas prévias — e ele acha que ganha "bem" —, é impossível que não seja o candidato. O ex-governador do Rio acha que os que estão contra sua candidatura acabarão aderindo a ela: "O partido está acordando, está havendo uma revitalização. Os apoios virão naturalmente".
A questão é que Quércia sonha ser novamente governador de São Paulo, e contaria com o apoio do PSDB, que não tem um candidato de peso, a quem daria a vice. Se essa negociação vingar, Quércia trabalharia para levar o PMDB para a candidatura do PSDB, ou pelo menos para neutralizar a candidatura própria do partido. Uma hipótese difícil de se concretizar. Mas um exemplo das dificuldades que Garotinho terá para viabilizar sua candidatura do PMDB.
Entrevista:O Estado inteligente
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