Entrevista:O Estado inteligente

segunda-feira, novembro 14, 2005

Lucia Hippolito Distante dos ideais republicanos


BLOG NOBLAT

 

"Amanhã a República brasileira completa 116 anos. E temos o que comemorar.


A transformação que o Brasil sofreu nesses pouco mais de cem anos foi das mais violentas do mundo. De uma população quase totalmente analfabeta, temos hoje 95% das crianças em idade escolar, na escola. A industrialização, a urbanização e a modernização geral do país, em tão pouco tempo, têm poucos similares no mundo.


Entretanto, do ponto de vista dos ideais republicanos, ainda estamos bem longe do que se poderia esperar de uma República já centenária.


A igualdade perante a lei não atinge todos os cidadãos. Isto porque a lei não é igual para todos. A rede que a própria lei estabelece para a proteção do poder público e das autoridades não é a mesma que se aplica ao comum dos cidadãos.


Já a igualdade de oportunidades, que é fruto do acesso à educação, é das mais perversas, o que faz o Brasil ser ainda uma das nações mais desiguais do mundo.


A estrita separação entre público e privado tem conhecido, nos últimos anos, um retrocesso terrível. A apropriação privada de largas fatias do Estado brasileiro não só pelas elites, mas também por partidos e autoridades que ocupam o poder, só fez crescer.

Governantes, políticos, burocratas, todos tratam de tirar seu naco do Estado e consideram normal que o poder público pague suas despesas e as despesas de seus familiares e amigos.


A impessoalidade é outro ideal republicano que parece que não pegou no Brasil. Aqui é a terra da carteirada, do "sabe com quem está falando?", do despachante que fura as filas, do burocrata que "dá um jeitinho" para acelerar a tramitação de um processo.


A universalização também avançou muito pouco. Tudo o que é universalizado, como saúde, educação e transportes públicos, por exemplo, é de má qualidade. O poder público brasileiro despreza os mais pobres, desconhece suas necessidades, não reconhece seus direitos.


A República é laica e determina a estrita separação entre religião e Estado. Mas este é outro ideal que não pegou no Brasil. A Igreja Católica sempre interferiu na vida dos brasileiros, mesmo dos não-católicos. E mais recentemente, grupos religiosos politicamente organizados interferem cada vez mais em políticas públicas. Impedem o avanço de pesquisas científicas, abortam o progresso dos direitos civis, invadem a escola pública com suas crenças privadas.


Assim, a República igualitária, pública, impessoal, universal e laica permanece no Brasil como um ideal a ser conquistado pelo esforço cotidiano de todos os cidadãos.


Ainda vale a pena."

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