Folha de S. Paulo
11/11/2005
É bobagem atribuir as críticas da ministra-chefe da Casa Civil, Dilma
Rousseff, ao destempero, a tendências inflacionistas ou keynesianas,
ou qualquer outra tentativa de desqualificação ou enquadramento. Foi
ato de desespero dela mesmo. Há meses os analistas mais lúcidos do
país vêm se debatendo, em um contorcionismo inútil, para abrir a
cabeça do presidente Luiz Inácio Lula da Silva para o rumo desastrado
que a política econômica vem tomando. O que se quer é algo muito
simples, muito óbvio: que a política fiscal seja praticada de forma
ampla e sistêmica, seguindo princípios de boa gestão que constam de
qualquer manual financeiro.
A área econômica ainda tem vícios das empresas brasileiras
pré-abertura. Cada departamento se preocupa em alcançar a "sua" meta,
sem nenhuma avaliação sobre as conseqüências no resultado final da
companhia. E o diretor da companhia define e se limita a acompanhar
uma prioridade única, porque não consegue caminhar e assobiar ao mesmo
tempo, não desenvolveu uma visão de conjunto para avaliar o todo.
Foi nesse contexto que Dilma deixou de lado os circunlóquios e decidiu
cometer essa heresia contra o irracionalismo nacional: explicitar o
óbvio. Na entrevista ao "O Estado de S. Paulo" de quarta-feira, Dilma
ministrou a melhor aula pública até agora proferida -por parte de um
membro do governo -sobre fundamentos de uma política fiscal
consistente e de uma gestão financeira responsável:
1. Tem que se levar em conta todos os fatores de impacto sobre receita
e despesa. O que inclui naturalmente os juros -a não ser que se
pretenda dar o calote.
2. A busca de superávits tem de estar subordinada a um planejamento
racional da execução orçamentária. O ministro do Planejamento, Paulo
Bernardo, acusou-a de tentar impedi-lo de planejar o longo prazo. A
ministra pediu algo muito mais singelo: que ele planeje o ano em
curso. Planejar significa, definida uma meta de superávit, montar um
cronograma de liberações racional e previsível. Jogar a maior parte
das liberações para os últimos dois meses do ano é um
não-planejamento. Como alguém que não consegue planejar o ano exercita
esse livre-pensar de planejar a década?
3. Não se pode trabalhar receitas e despesas apenas em cima dos
grandes números. Tem de analisar programas, um a um, montando
indicadores de acompanhamento que permitam identificar desperdícios,
ineficiências. É a partir dessa análise que se definem as prioridades
e as economias possíveis.
Notícia fria
É infinita a capacidade das CPIs em gerar bobagens, como essa "nota
fria" que a agência de Marcos Valério teria dado à Visanet. Uma nota
só é "fria" se se materializar, ou seja, se for usada. Se a nota foi
encontrada nos arquivos da SMPB, obviamente não foi entregue à
Visanet. Se foi emitida e não utilizada, e estava sendo inutilizada,
não pode ser "nota fria". No máximo, é uma notícia fria.
A sorte das investigações é que, em breve, entram em campo o
Ministério Público e a Polícia Federal. Por que o investigador
Serraglio decididamente não está com nada.