Entrevista:O Estado inteligente

sexta-feira, novembro 11, 2005

Luiz Garcia - O medo do novo

O Globo
11/11/2005

Entre as coisas boas que aconteceram no extinto Estado da Guanabara
uma das melhores foi a vacinação em massa contra a poliomielite,
durante o governo Carlos Lacerda, nos anos 60.

Em 1955, o governo federal usara pela primeira vez a vacina Salk,
injetável. Na Guanabara, usou-se a Salk e depois a Sabin, a da
gotinha, e ela resolveu o problema. Em todo o Hemisfério, a doença foi
declarada erradicada em 1994, tendo sido o último caso registrado
cinco anos antes.

Essa história de sucesso não se repetiu no mundo todo. A doença existe
até hoje, em alguns países da Ásia e, principalmente, na paupérrima
África, onde, no ano passado, houve epidemias graves em pelo menos
três países: Mali, Guiné e Sudão.

Faz parte do conjunto de maldições que castigam o continente, que até
hoje não conseguiu se recuperar dos efeitos negativos de séculos de
colonialismo. Principalmente, das conseqüências trágicas do processo
irresponsável e mesmo cruel com que as potências ocidentais se
livraram da fonte de riquezas transformada em fardo pesado demais. Foi
quando as antigas colônias se transformaram em países seguindo
fronteiras que desrespeitavam a realidade de tribos e etnias.

Fim do retrospecto.

A notícia da semana: a poliomielite voltou a aparecer nos Estados
Unidos. Atingiu cinco crianças de uma comunidade amish de Minnesotta.
Os amish, assim como os quakers, são fundamentalistas. Ou seja,
simplificando bastante: acreditam que o antigo é bom, o novo é péssimo
e o futuro provavelmente ao diabo pertence. Vacinas com quase meio
século de existência e com resultados confirmados caem na categoria
das armadilhas do demo.

É uma generalização típica de fanáticos — e, de certa forma, aproxima
os amish dos governos africanos que resistem a toda e qualquer vacina
e também ao tratamento da Aids.

Não se imagina que os cinco pequenos amish de Minnesotta provoquem uma
epidemia grave nos EUA. O isolamento em que a sua comunidade faz
questão de viver deve bastar para evitá-lo.

Mas o episódio é educativo exemplo de como é perigoso, para qualquer
grupo humano — de pequenas comunidades a grandes nações — prender-se
demais ao velho. Principalmente ao negarem qualquer possibilidade de
que o novo seja tão bom quanto. Ou mesmo muito melhor.

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