Folha de S. Paulo
11/11/2005
O Lula presidente fez uma opção pelos ricos, pelos mercados e pelo
Palocci. Já o Lula candidato começa a dar indícios de fazer uma opção
pelos pobres, pelos investimentos e pela Dilma Rousseff.
É aí que mora o perigo, porque desde o início do governo se espera uma
calibragem melhor entre a necessária ortodoxia econômica e a
igualmente necessária flexibilização para gerar crescimento, empregos
e investimentos sociais num país tão peculiar e tão desigual como o
Brasil.
Lula ficou todo esse tempo com o ortodoxo. O risco é, agora, pular a
etapa da calibragem, ou transição, e cair direto na gastança de ano
eleitoral, visando a própria reeleição.
O fato é que a crise vem passando ao largo da economia e vinha
poupando Palocci. Agora, a tendência é de continuar passando ao largo
dos indicadores econômicos, das Bolsas e do dólar, mas atingindo
Palocci. Nunca, em todo esse tempo, ele esteve tanto no olho do
furacão.
Curiosamente, o ministro da Fazenda está sendo poupado no limite pela
oposição, e sua queda nem mais assusta os mercados, como naturalmente
assustava. Os problemas dele estão todos no chamado "fogo amigo": os
ex-assessores, como Rogério Buratti, que não param de jorrar histórias
sobre Ribeirão Preto e agora também sobre o tal dinheiro de Cuba para
o PT. E, por fim, Dilma Rousseff, criticando publica e acidamente uma
política de juros altos e de superávit primário altíssimo, de 6,1%.
A crise, que era política e movida a denúncias, caiu de novo dentro do
Palácio do Planalto. Deixou de ser "externa" (da oposição, das CPIs)
para ser "interna" -dentro de casa. E o dono da casa vai ter de
assumir responsabilidades e decisões.
A melhor aposta -ainda- é de que Palocci seja mantido e queira ficar.
Mas, do jeito que as coisas vão e com a facilidade do governo para
perder o controle da situação, tudo é possível. Aquela história de que
o pior da crise passou? Esquece.